O ano de 1992 ficou registrado na memória coletiva mundial como um dos mais agitados e transformadores da história recente. Classificado como ano bissexto, começou numa quarta-feira pelo calendário gregoriano e foi designado pela Organização das Nações Unidas como o Ano Internacional do Espaço. Mas foram os acontecimentos políticos, esportivos, ambientais e sociais que ocorreram ao longo de seus doze meses que o tornaram um marco indelével na passagem do século XX para o XXI.
Logo em janeiro, o mundo assistiu ao fim de uma guerra que havia consumido El Salvador por doze anos. No dia 16 de janeiro, no Castelo de Chapultepec, no México, o governo salvadorenho e a guerrilha da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional assinaram os Acordos de Paz que encerraram um dos conflitos mais sangrentos da América Central. O acordo representava não apenas o fim das hostilidades, mas também uma tentativa de reconstrução democrática num país devastado pela violência política e pela pobreza. Paralelamente, a Argentina abandonava o austral e adotava o peso como moeda nacional, numa mudança que refletia os esforços de estabilização econômica do país platino.
Fevereiro de 1992 foi marcado por dois acontecimentos históricos de direções opostas. Na Venezuela, no dia 4, fracassou a tentativa de golpe de estado liderada pelo tenente-coronel Hugo Chávez, que seria preso e passaria anos na cadeia antes de retornar à vida política e, eventualmente, chegar à presidência do país. Três dias depois, no dia 7, líderes europeus assinavam em Maastricht, na Holanda, o tratado que estabelecia formalmente a União Europeia, criando um dos maiores blocos políticos e econômicos da história moderna. O Brasil, por sua vez, chorava a morte do ex-presidente Jânio Quadros, ocorrida no dia 16 daquele mês.
O mês de junho trouxe ao Rio de Janeiro um evento de proporções planetárias. Entre os dias 3 e 14, a cidade abrigou a ECO-92, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. Conhecida como Cúpula da Terra, a conferência reuniu chefes de Estado e representantes de praticamente todos os países do globo para discutir os desafios ambientais que o planeta enfrentava. Foi nesse encontro que surgiu o conceito de desenvolvimento sustentável como agenda política global, e foi a partir das negociações da ECO-92 que se lançaram as bases de tratados e convenções que continuariam a influenciar a política ambiental internacional nas décadas seguintes. Como um bônus esportivo, naquele mesmo mês o São Paulo Futebol Clube conquistou a Copa Libertadores da América ao superar o Newell's Old Boys da Argentina.
Julho e agosto foram meses de grandes acontecimentos esportivos. Na final do Campeonato Europeu de Futebol, a Dinamarca surpreendeu o mundo ao vencer a Alemanha por dois a zero, conquistando o título em uma campanha que é até hoje considerada uma das maiores surpresas da história do futebol europeu. Em Barcelona, abriram-se os Jogos Olímpicos de Verão de 1992, uma celebração esportiva que ficou marcada pela beleza da cidade catalã, pela volta de Cuba e pela participação unificada dos países que haviam composto a União Soviética. Naqueles mesmos Jogos Olímpicos, o mundo se encantou com o Dream Team norte-americano de basquetebol. Em agosto, o britânico Nigel Mansell sagrou-se campeão mundial de Fórmula 1 com cinco corridas de antecedência.
O Brasil vivia seu próprio drama político. Em maio, Pedro Collor de Mello, irmão do presidente Fernando Collor, denunciou um esquema de corrupção envolvendo o empresário Paulo César Farias, que tinha ligações diretas com a cúpula do governo. O escândalo desencadeou uma crise política sem precedentes na jovem democracia brasileira. No dia 29 de setembro, a Câmara dos Deputados aprovou o pedido de impeachment do presidente, que foi afastado do cargo. Seu vice, Itamar Franco, assumiu a presidência. Era a primeira vez na história do Brasil que um presidente eleito democraticamente era removido do cargo por um processo constitucional, um teste e uma confirmação da solidez das instituições republicanas do país.
Outubro de 1992 reservou mais dois acontecimentos marcantes. No dia 2, o massacre na Penitenciária do Carandiru, em São Paulo, resultou na morte de cento e onze detentos durante uma rebelião reprimida de forma brutal pela Polícia Militar do Estado, um episódio que evidenciou a gravidade da crise do sistema prisional brasileiro e gerou debates sobre direitos humanos que continuariam por muitos anos. Em Portugal, no dia 6, entrou no ar a SIC, o primeiro canal de televisão privado generalista em sinal aberto do país, inaugurando uma nova era na televisão portuguesa. No mês seguinte, nos Estados Unidos, o democrata Bill Clinton venceu as eleições presidenciais, derrotando o presidente republicano George H. W. Bush.
O ano terminou com o reconhecimento tardio de uma das maiores injustiças da história da ciência: no dia 31 de outubro, o Papa João Paulo II admitiu formalmente que a condenação de Galileu Galilei pela Igreja Católica, ocorrida no século XVII, havia sido injusta. O gesto, simbólico mas de enorme peso histórico, representava um acerto de contas com o passado e um reconhecimento da superioridade da razão científica sobre o dogmatismo. Assim se encerrava um ano que, de El Salvador a Barcelona, do Carandiru à União Europeia, havia empurrado o mundo com força para dentro de um tempo novo.


