A história de Roma é inseparável da noção de transformação: de aldeia a república, de república a império, de império a herança que moldou o Ocidente por dois milênios. O Império Romano surgiu formalmente em 27 a.C., quando o Senado conferiu poderes absolutos e o título Augusto a Otávio, sobrinho-neto e filho adotivo de Júlio César. Mas as raízes desse processo remontam a décadas anteriores de guerras civis que haviam destruído as instituições republicanas e tornado a concentração do poder numa única pessoa quase inevitável.
Júlio César foi o prelúdio. Nomeado ditador perpétuo em 44 a.C., foi assassinado poucos meses depois por senadores que temiam a instauração da monarquia. O resultado, porém, foi oposto ao desejado pelos conspiradores: a morte de César mergulhou Roma em mais sangue ainda. O segundo triunvirato, formado por Otávio, Marco Antônio e Lépido, liquidou fisicamente os adversários e dividiu o mundo romano entre si. A aliança não durou. A tensão entre Otávio e Marco Antônio, agravada pelo romance deste com a rainha egípcia Cleópatra, desembocou na batalha naval de Áccio em 31 a.C., da qual Otávio saiu vencedor. No ano seguinte, conquistou o Egito ptolemaico, último reino independente do Mediterrâneo.
Ao assumir o poder absoluto, Otávio foi suficientemente hábil para não repetir o erro de César: em vez de exibir a dominação, preservou as formas republicanas. Manteve o Senado, os cônsules e as eleições, mas esvaziou-os de poder real. Seus títulos — Augusto, princeps, imperator — dissimulavam a realidade de um governo monárquico sob roupagem republicana. Os dois primeiros séculos do Império, conhecidos como Pax Romana, foram de estabilidade e prosperidade notáveis: as fronteiras expandiram-se, o comércio floresceu, as estradas ligaram províncias distantes e o direito romano padronizou a administração de territórios imensos.
A dinastia júlio-claudiana, que governou de Augusto a Nero, produziu figuras de perfis radicalmente distintos. Tibério governou com eficiência, mas com paranoia crescente. Calígula, cujo assassinato em 41 d.C. quase levou o Senado a restaurar a república, foi sucedido por Cláudio, proclamado imperador pela guarda pretoriana numa cena que expôs a realidade do poder: eram os soldados, não os senadores, que decidiam quem governaria Roma. O reinado de Cláudio foi marcado por conquistas importantes, incluindo a invasão da Grã-Bretanha. Nero, que iniciou o governo com moderação, terminou-o no caos; seu suicídio em 68 d.C. abriu o chamado ano dos quatro imperadores, período em que generais rivais disputaram o trono à força das armas.
Vespasiano, fundador da dinastia flaviana, restaurou a ordem em 69 d.C. Seu filho Tito é lembrado tanto pela destruição de Jerusalém em 70 d.C. quanto pela resposta exemplar à dupla catástrofe de 79 d.C.: a erupção do Vesúvio, que soterrou Pompeia e Herculano, e um incêndio que devastou Roma. Tito também inaugurou o Coliseu, o anfiteatro que se tornaria símbolo eterno da cidade. O irmão que o sucedeu, Domiciano, governou com autoritarismo crescente e foi assassinado em 96 d.C., abrindo o período dos chamados cinco bons imperadores.
Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio compõem a sequência de governantes que levou o Império ao seu apogeu. Com Trajano, no início do século II, o território romano atingiu sua maior extensão, englobando mais de cinco milhões de quilômetros quadrados e uma população estimada em mais de 70 milhões de pessoas — cerca de 21% da humanidade da época. As províncias iam da Britânia ao Egito, da Hispânia à Mesopotâmia. Marco Aurélio, filósofo estoico no trono, governou com notável integridade mesmo durante guerras externas e uma terrível epidemia que devastou o Império.
O assassinato de Cômodo em 192 d.C. desencadeou um novo ciclo de instabilidade. O século III foi um período de crise quase permanente: entre 235 e 284, o Senado proclamou 26 imperadores em cinquenta anos, quase todos mortos violentamente. Invasões bárbaras nas fronteiras, inflação, colapso do comércio e fragmentação territorial ameaçavam a sobrevivência do próprio Estado. A solução encontrada foi a Tetrarquia, um sistema de governo compartilhado entre quatro co-imperadores que estabilizou temporariamente a situação, mas acabou gerando novas guerras civis.
Constantino emergiu desse caos como único governante em 324 d.C. Sua decisão de adotar o cristianismo transformou radicalmente a identidade do Império: a religião que havia sido perseguida tornou-se progressivamente a oficial do Estado, processo concluído sob Teodósio no final do século IV. Constantino também transferiu a capital para Bizâncio, rebatizada Constantinopla em sua homenagem, decisão que antecipou a futura divisão definitiva do Império.
Com a morte de Teodósio em 395 d.C., o Império foi dividido entre seus dois filhos, nunca mais sendo reunificado. O Ocidente entrou em colapso progressivo: migrações em massa de povos germânicos, enfraquecimento militar, pressões fiscais insustentáveis e a incapacidade de financiar as legiões que protegiam as fronteiras criaram um ciclo sem retorno. Em 476 d.C., o chefe germânico Odoacro depôs Rômulo Augústulo, o último imperador do Ocidente, evento que a historiografia convencionou como o fim do Império Romano Ocidental.
No Oriente, porém, a história foi outra. O Império Romano do Oriente, que os estudiosos modernos chamam de Império Bizantino, sobreviveu por mais mil anos, com capital em Constantinopla, até ser conquistado pelos turcos otomanos em 1453. O legado de Roma, contudo, transcendeu qualquer fronteira política. O latim gerou as línguas românicas; o direito romano fundamenta os sistemas jurídicos de dezenas de países; a arquitetura, a engenharia, a filosofia e a administração romanas penetraram tão fundo na civilização ocidental que ainda hoje são reconhecíveis em suas estruturas mais básicas.