Glenda May Jackson nasceu em 9 de maio de 1936 em Birkenhead, na região de Cheshire, filha de um pedreiro. Sua mãe lhe deu o nome em homenagem à atriz hollywoodiana Glenda Farrell, como se já pressentisse o destino artístico que aguardava a criança. Educada na West Kirby Grammar School for Girls, a jovem Glenda trabalhou por dois anos numa farmácia antes de dar o passo decisivo: candidatou-se à Royal Academy of Dramatic Art em Londres, conseguindo uma bolsa da prefeitura para custear seus estudos. Em 1955, ela trocou a farmácia pelos corredores do RADA, iniciando uma jornada que a levaria às mais altas honrarias do teatro, do cinema e da televisão.
Ao se formar pelo RADA em 1957, Jackson estreou nos palcos com a peça "Separate Tables", de Terence Rattigan. Os anos seguintes foram difíceis: de 1958 a 1961, ela passou por um longo período de quase três anos sem conseguir trabalho como atriz. A perseverança, contudo, acabou sendo recompensada. Em 1963, foi aceita na Royal Shakespeare Company, integrando a temporada Theatre of Cruelty conduzida pelo diretor Peter Brook. A parceria com Brook seria decisiva: ele a escalou para o papel principal em "Marat/Sade", peça de Peter Weiss na qual Jackson interpretava uma das internas de um hospício. A produção estreou na Broadway em 1965, rendendo à atriz sua primeira indicação ao Tony, na categoria de atriz coadjuvante. No mesmo ano, ela encarnou Ofélia na produção de "Hamlet" dirigida por Peter Hall, e a crítica Penelope Gilliatt não poupou elogios, afirmando que aquela era "a única Ofélia pronta para interpretar o próprio Hamlet".
A projeção internacional veio nos anos seguintes, sobretudo através de dois filmes marcantes do diretor Ken Russell. Em "Mulheres Apaixonadas" (1969), adaptação do romance de D.H. Lawrence, Jackson interpretou a escultora Gudrun Brangwen com uma intensidade que impressionou a crítica mundial. A entrega ao papel era completa, sem concessões à galeria, e a Academia de Hollywood reconheceu o resultado concedendo-lhe o Oscar de Melhor Atriz. Jackson, porém, não compareceu pessoalmente para receber o prêmio, demonstrando desde cedo a postura desapegada em relação à glamourização de Hollywood que a acompanharia pela vida inteira.
Em 1971, ela voltou a trabalhar com Russell em "Delírios de Amor", desta vez no papel de Antonina Miliukova, a torturada esposa do compositor Tchaikovsky. Ao mesmo tempo, a BBC lhe ofereceu o papel que muitos consideram o ápice de sua trajetória televisiva: a Rainha Elizabeth I na série "Elizabeth R". Para se aproximar ao máximo da monarca Tudor, Jackson tomou a decisão radical de raspar a parte frontal do cabelo. A interpretação foi aclamada como o retrato mais fiel e humano da rainha, rendendo à atriz dois Primetime Emmy Awards. Naquele mesmo ano prolífico, ela ainda interpretou a rainha Elizabeth I mais uma vez no filme "Mary, Rainha da Escócia", contracenando com Vanessa Redgrave, e recebeu indicação ao Oscar e o BAFTA de Melhor Atriz por "Domingo Maldito", de John Schlesinger.
A versatilidade de Jackson ficou ainda mais evidente quando o diretor Melvin Frank a escalou para uma comédia romântica, gênero aparentemente distante de seu perfil. Uma breve aparição humorística no programa "Morecambe and Wise Show", da BBC, na qual ela parodiou Cleópatra, havia convencido Frank de que a atriz guardava um talento cômico inexplorado. O resultado foi "Um Toque de Classe" (1973), coestrelado por George Segal. A aposta foi certeira: o público e a crítica adoraram, e Jackson conquistou seu segundo Oscar de Melhor Atriz, tornando-se uma das poucas artistas a vencer o prêmio duas vezes em tão curto intervalo. Novamente, não foi à cerimônia buscar a estatueta.
O teatro continuou sendo um polo magnético. De volta à Royal Shakespeare Company, Jackson assumiu o papel principal em "Hedda Gabler", de Henrik Ibsen, uma das personagens mais complexas e exigentes do repertório dramático ocidental. Uma versão cinematográfica da montagem, dirigida por Trevor Nunn e lançada simplesmente como "Hedda" em 1975, lhe rendeu sua quarta e última indicação ao Oscar. O crítico Vincent Canby, do "The New York Times", escreveu que o virtuosismo técnico de Jackson era "particularmente adequado" a Hedda, pela forma como ela mantinha a atriz separada da personagem de maneira "muito curiosa". A observação capturava com precisão o método único de Jackson: uma distância calculada, quase cirúrgica, que paradoxalmente tornava a atuação ainda mais pungente.
Em 1978, ela estrelou "Um Viúvo Trapalhão" ao lado de Walter Matthau, e o filme ficou duas semanas em primeiro lugar nas bilheterias americanas, consagrando sua estreia em Hollywood. No mesmo ano, foi condecorada com a Ordem do Império Britânico. A parceria com Matthau se repetiu em 1980 com "Um Espião Trapalhão". Mas Jackson carregava dentro de si uma inquietação que ia além dos palcos e das câmeras. A política britânica era uma chama que ardia em sua consciência, e no início dos anos 1990 ela decidiu que era hora de agir.
Jackson abandonou a atuação e se candidatou ao Parlamento britânico pelo Partido Trabalhista, sendo eleita deputada pelo distrito de Hampstead e Kilburn em Londres. Por mais de duas décadas, dedicou-se integralmente à vida parlamentar, defendendo pautas progressistas e acumulando reputação de voz independente e corajosa. Poucos acreditavam que ela voltaria aos palcos com a mesma força de antes.
Em 2018, aos 82 anos, ela provou que todos estavam errados. Seu retorno ao teatro se deu em circunstâncias quase míticas: ela assumiu o papel central na remontagem de "Three Tall Women", de Edward Albee, em Nova York. O impacto foi imediato e avassalador. Os críticos ficaram sem palavras diante de uma atuação que combinava décadas de experiência com uma energia que desafiava qualquer explicação racional. O Tony de Melhor Atriz em Peça Teatral e o Drama Desk Award de Melhor Atriz foram consequência natural do que se passou no palco.
O retorno às telas foi igualmente triunfal. Em 2019, ela estrelou "Elizabeth Is Missing", produção televisiva na qual interpretou uma mulher idosa com demência investigando o desaparecimento de uma amiga. O papel exigiu uma entrega física e emocional diferente de tudo que ela havia feito antes. A recompensa veio na forma de um BAFTA e de um Emmy Internacional, fechando um ciclo extraordinário: a mesma atriz que havia ganho dois Emmys pela BBC nos anos 1970 estava, meio século depois, sendo premiada novamente pela televisão britânica.
Glenda Jackson faleceu em Londres em 15 de junho de 2023, com 87 anos. Ao longo de sua vida, ela acumulou dois Óscares, dois Emmys da televisão americana, um Emmy Internacional, um Tony, um BAFTA e inúmeros outros prêmios, tornando-se uma das raríssimas artistas a conquistar a chamada Tríplice Coroa da Atuação. Mas seu legado vai além dos troféus. Jackson pertence à linhagem das grandes damas do teatro e cinema britânico, ao lado de Vanessa Redgrave, Judi Dench, Maggie Smith e Eileen Atkins. Sua trajetória é a prova de que arte e engajamento político não se excluem, e de que a grandeza pode se renovar, com igual intensidade, aos 82 anos tanto quanto aos 35.

