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Disco de Festo

Em julho de 1908, durante escavações no palácio minoico de Festo, na costa sul de Creta, o

4 min de leitura20/06/2026
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Em julho de 1908, durante escavações no palácio minoico de Festo, na costa sul de Creta, o arqueólogo italiano Luigi Pernier fez uma descoberta que permanece, mais de um século depois, como um dos enigmas mais resistentes da arqueologia mundial. Entre os vestígios daquela civilização que floresceu no Mediterrâneo há mais de três mil anos, Pernier encontrou um disco de argila coberto por símbolos impressos em espiral — um objeto diferente de tudo que havia sido descoberto até então. O Disco de Festo, como ficou conhecido, é até hoje um mistério sem solução definitiva.

O disco é datado do período minoico, provavelmente da metade ou do final da Idade do Bronze, o que o situa em algum ponto entre o segundo e o primeiro milênio antes da era cristã. Tem forma circular e suas duas faces estão cobertas por símbolos dispostos em espiral, partindo da borda em direção ao centro. No total, são 241 símbolos impressos, formados a partir de 45 sinais distintos. O lado que os pesquisadores chamam de A contém 31 grupos de sinais, enquanto o lado B apresenta 30 grupos. A palavra mais curta tem dois símbolos; a mais longa, sete.

O que torna o disco tecnicamente notável, além do seu conteúdo misterioso, é o método pelo qual foi produzido. Os símbolos não foram desenhados à mão livre, mas impressos com carimbos individuais pressionados sobre a argila ainda fresca — uma técnica que pressupõe a existência de um conjunto de selos preparados com antecedência. Isso implica que a escrita encontrada no disco não era improvisada, mas parte de um sistema já estabelecido, com sinais padronizados e reproduzíveis. Trata-se de uma das primeiras formas conhecidas de impressão na história humana.

Os sinais representam figuras de pessoas, animais, plantas e objetos do cotidiano. Há cabeças humanas, perfis de figuras com penachos de plumas, escudos, peixes, pássaros e ferramentas. Um detalhe que chamou a atenção dos linguistas é que o sinal chamado "cabeça com plumas" aparece exclusivamente no início das palavras e é seguido, em 13 ocasiões, pelo sinal do escudo. Seis palavras se repetem duas vezes em lados diferentes do disco. Essas regularidades sugerem que há uma estrutura gramatical ou poética por trás da inscrição, mas decifrar seu significado tem sido uma tarefa que desafiou gerações de estudiosos.

O sentido da leitura é ele próprio um tema de disputa. Não há consenso entre os especialistas sobre se o texto começa na borda exterior da espiral em direção ao centro, ou no centro em direção à borda. Tampouco se sabe se a leitura parte do lado A ou do lado B. Ambas as hipóteses têm defensores e nenhuma alcançou aceitação definitiva. Da mesma forma, a direção do texto — se da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda — permanece aberta. Alguns pesquisadores propõem que os símbolos devem ser lidos na direção em que as figuras de animais e humanos estão voltadas, à semelhança do que ocorre com os hieróglifos da Anatólia — porém de forma diferente dos hieróglifos egípcios.

Ao longo das décadas, numerosas tentativas de decifração foram publicadas em diferentes países e idiomas. Um dos episódios mais curiosos nessa história ocorreu no Brasil: o professor de história Alberto Mendes de Oliveira, do Colégio Dom Pedro II do Rio de Janeiro, afirmou nos anos 1970 ter decifrado o disco. Segundo ele, o texto conteria uma declaração divina em primeira pessoa, proclamando a onipotência de um criador supremo. Sua hipótese, no entanto, nunca foi aceita pela comunidade acadêmica internacional, e o professor não obteve o reconhecimento que buscava.

Em julho de 2021, o arqueólogo Gareth Owens anunciou haver decifrado 99% do texto após três décadas de pesquisa dedicada ao disco. Segundo Owens, os símbolos fazem parte de uma forma arcaica de língua grega e o texto teria caráter religioso ou ritual. A afirmação gerou atenção significativa na imprensa, mas o debate acadêmico em torno de suas conclusões ainda está em aberto. A dificuldade central que persiste é a mesma desde a descoberta: o disco é um exemplar único. Não há outros textos na mesma escrita com os quais compará-lo, o que torna impossível estabelecer qualquer ponto de apoio sólido para uma decifração definitiva.

O local exato onde o disco foi manufaturado também é motivo de controvérsia. Embora tenha sido encontrado em Creta, alguns pesquisadores argumentam que o objeto pode ter sido produzido em outra região e levado à ilha por rotas comerciais ou diplomáticas. O palácio de Festo, onde foi achado, era um dos centros administrativos e religiosos mais importantes da civilização minoica, o que sugere que o disco tinha um valor especial — mas esse valor poderia ser tanto local quanto proveniente de outro lugar.

O Disco de Festo está atualmente em exibição permanente no Museu Arqueológico de Heraclião, em Creta, onde atrai visitantes de todo o mundo fascinados por seu enigma. Nenhuma fotografia ou reprodução substitui o efeito de vê-lo de perto: um objeto pequeno, com menos de 16 centímetros de diâmetro, que guarda em seus sulcos uma mensagem que a humanidade ainda não conseguiu compreender. Mais de cem anos após sua descoberta, o disco continua a desafiar linguistas, arqueólogos e amadores entusiastas com a mesma provocação silenciosa: o que está escrito aqui?

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