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Rompimento de barragem em Mariana

Desastre ambiental no Brasil

5 min de leitura20/06/2026
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Na tarde de 5 de novembro de 2015, um subdistrito tranquilo no interior de Minas Gerais foi engolido por uma onda de lama que ninguém conseguiu prever a tempo de conter. A barragem de Fundão, controlada pela mineradora Samarco, se rompeu e despejou 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração sobre o vale abaixo, destruindo comunidades inteiras, contaminando um dos rios mais importantes do Brasil e inaugurando uma das maiores crises ambientais da história do país.

O desastre ocorreu no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 quilômetros do centro do município de Mariana, em Minas Gerais. A barragem de Fundão fazia parte da Mina Germano, situada no distrito de Santa Rita Durão, e era controlada pela Samarco Mineração S.A. — um empreendimento conjunto entre duas das maiores empresas de mineração do mundo: a brasileira Vale S.A. e a anglo-australiana BHP Billiton. A estrutura havia sido construída para acomodar os rejeitos resultantes da extração de minério de ferro na região e passava, naquele momento, por um processo de alteamento, pois o reservatório já havia atingido sua capacidade limite.

Por volta das 15h30 daquela tarde, uma equipe de funcionários terceirizados foi enviada ao local após o surgimento de um vazamento inicial na contenção. Eles tentavam escoar parte do reservatório para aliviar a pressão quando, cerca de cinquenta minutos depois, às 16h20, ocorreu o rompimento definitivo. Uma enorme massa de lama de rejeitos foi lançada sobre o vale do córrego Santarém, inundando tudo o que havia à sua frente com velocidade e volume devastadores. Os subdistritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, ambos localizados no caminho da enxurrada, foram quase completamente destruídos. Outros vilarejos e distritos ao longo do vale do rio Gualaxo também foram atingidos.

Bento Rodrigues ficou completamente isolado por via terrestre após o desastre. O acesso ao local dependia de estradas vicinais não pavimentadas que foram tomadas pela lama, tornando impossível a chegada de equipes de bombeiros e resgate por terra. Os trabalhos de busca só puderam ser realizados com o auxílio de helicópteros, o que retardou significativamente as operações nas horas mais críticas. Agravou a situação o fato de que nem a mineradora nem as comunidades vizinhas possuíam planos de contingência ou rotas de fuga definidas para os moradores em caso de ruptura. Havia uma escola na área atingida, mas os professores conseguiram remover os alunos a tempo antes que o prédio fosse alcançado pela inundação.

Às 18h30 do mesmo dia, os rejeitos chegaram ao Rio Doce. O impacto sobre o rio foi imediato e severo. A bacia hidrográfica do Doce drena uma área de aproximadamente 86.715 quilômetros quadrados, sendo 86% em Minas Gerais e o restante no Espírito Santo. Ao todo, 230 municípios dependem direta ou indiretamente das águas desse rio. A chegada da lama de minério interrompeu o abastecimento hídrico de cidades inteiras ao longo do percurso. No dia 9 de novembro, a prefeitura de Governador Valadares suspendeu a captação de água do Rio Doce. No dia seguinte, o município decretou Estado de Calamidade Pública por desabastecimento. Em 13 de novembro, o Exército Brasileiro instalou um ponto de distribuição gratuita de água no centro da cidade, fornecida pela Samarco.

A onda de lama seguiu seu curso em direção ao mar. No dia 16 de novembro, chegou ao município de Baixo Guandu, no noroeste do Espírito Santo, levando a prefeitura a suspender o abastecimento pelo Rio Doce. Os rejeitos percorreram centenas de quilômetros até alcançar a foz do rio e se misturar às águas do oceano, contaminando o ambiente marinho com uma carga de detritos cujos efeitos, segundo especialistas, levariam pelo menos cem anos para se dissipar completamente.

Os danos à biodiversidade do Rio Doce foram considerados catastróficos. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis — o Ibama — informou que, das 80 espécies de peixes presentes no rio, 11 já estavam ameaçadas de extinção antes do desastre, e 12 são endêmicas daquela bacia, encontradas exclusivamente ali. Após o desastre, a preocupação com a extinção definitiva dessas espécies endêmicas aumentou enormemente, sobretudo pela mortandade imediata de peixes e pela destruição do habitat. Os efeitos de longo prazo sobre espécies que utilizam o estuário em alguma fase de seu ciclo de vida e sobre os peixes marinhos próximos à foz do rio permaneceram incertos por anos.

A Samarco inicialmente informou que duas barragens haviam se rompido, a de Fundão e a de Santarém. Em 16 de novembro, a empresa retificou a informação: apenas a barragem de Fundão havia cedido. Os rejeitos de Fundão passaram por cima da barragem de Santarém sem rompê-la, gerando confusão nas comunicações iniciais sobre a extensão do acidente. O volume total despejado de 62 milhões de metros cúbicos consagrou o episódio como o maior desastre mundial envolvendo barragens de rejeitos e o maior impacto ambiental da história industrial do Brasil.

As investigações sobre as responsabilidades pelo desastre desdobraram-se em processos judiciais complexos nos anos seguintes, envolvendo a Samarco e suas controladoras. A reparação dos danos à infraestrutura do município de Mariana foi estimada pela prefeitura em cerca de cem milhões de reais. Comunidades como Bento Rodrigues tiveram que ser completamente realocadas. O Rio Doce, que por séculos foi suporte de vida para milhares de famílias de pescadores e agricultores ao longo de suas margens, permaneceu durante anos como símbolo de um modelo de exploração mineral que, naquele novembro de 2015, mostrou de forma cruel o seu custo ambiental e humano.

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