No coração do leste da República Democrática do Congo, na província de Quivu do Norte, a região de Rubaya guarda nas suas entranhas um dos materiais mais valiosos da era tecnológica: o coltan, minério do qual se extrai o tântalo, metal resistente ao calor e essencial na fabricação de smartphones, componentes aeroespaciais e computadores. As minas de Rubaya, responsáveis por mais de quinze por cento do fornecimento mundial de tântalo, representam uma riqueza imensurável num território que paradoxalmente convive com pobreza extrema, violência armada e ausência quase total de proteções trabalhistas.
Desde 2024, o controle sobre as minas de Rubaya passou para as mãos do grupo rebelde Movimento 23 de Março, conhecido como M23, que impôs uma tributação sobre o coltan extraído capaz de gerar mais de 800 mil dólares mensais em receita. Sob esse domínio armado, as condições de trabalho nas minas deterioraram-se ainda mais. Os túneis eram frequentemente escavados à mão, sem supervisão técnica, sem estruturas de contenção e sem qualquer plano de manutenção sistemática. Em uma única cava podiam trabalhar até 500 mineiros ao mesmo tempo. Mulheres e crianças estavam entre os que se aventuravam nos túneis à procura de renda, pois diante da miséria generalizada, qualquer remuneração parecia valer o risco.
As chuvas fortes que caíram sobre a região no final de janeiro de 2026 serviram de gatilho para um desastre que, em rigor, estava em gestação há anos. O acúmulo de práticas de mineração inadequadas, a ausência de drenagem adequada e a completa falta de manutenção das estruturas subterrâneas criaram condições para um colapso de grandes proporções. Na tarde de 28 de janeiro de 2026, um grande deslizamento de terra atingiu as minas de Rubaya. Na manhã seguinte, 29 de janeiro, um segundo deslizamento ocorreu, agravando ainda mais o cenário. Várias minas individuais desabaram em sequência. Caminhos próximos ficaram submersos e intransitáveis. Casas e outras estruturas foram soterradas pelo lodo. O panorama que se impunha era de devastação total.
Os primeiros esforços de resgate enfrentaram obstáculos imediatos e severos. A lama que cobria os túneis colapsados dificultava o acesso das equipes de socorro, e as condições de segurança permaneciam precárias. Cerca de vinte mineiros feridos foram transportados para hospitais na cidade de Rubaya e em Goma, a cidade mais próxima com infraestrutura hospitalar minimamente adequada. As estimativas iniciais apontavam para mais de duzentas mortes, mas à medida que os dias avançavam e mais áreas eram examinadas, o número aumentava de forma assustadora.
A 2 de fevereiro de 2026, as autoridades locais confirmaram mais de quatrocentas mortes decorrentes do desabamento. Entre os mortos estavam mineiros artesanais, pequenos comerciantes que trabalhavam nas imediações das minas e moradores das aldeias vizinhas, algumas das quais foram completamente destruídas pelo deslizamento de terra. Crianças e mulheres estavam entre as vítimas, reflexo direto da prática generalizada de trabalho informal que envolvia toda a família em atividades de mineração ilegal. Nem todos os corpos foram recuperados; parte dos desaparecidos permaneceu soterrada sob toneladas de lama, sem perspectiva de resgate.
O governador da província de Quivu do Norte nomeado pelo M23, Erasto Bahati Musanga, interrompeu a mineração artesanal no local e ordenou a desocupação de moradores das áreas próximas às minas. A medida chegou tarde demais para centenas de famílias, mas sinalizava ao menos o reconhecimento da gravidade do colapso. A tragédia atraiu atenção internacional para as condições de extração de minerais críticos no Congo, numa região onde a riqueza do subsolo nunca se traduziu em bem-estar para a população local.
O desabamento de Rubaya é um exemplo brutal das consequências de décadas de governança fraca, exploração predatória de recursos naturais e conflito armado contínuo. O tântalo extraído naquelas minas alimenta cadeias de fornecimento globais que terminam em dispositivos eletrônicos consumidos em todos os continentes, mas a população de Rubaya vive sem acesso a serviços básicos, em condições que os próprios observadores internacionais descrevem como indignas. O controle do M23 sobre as minas adiciona uma camada de violência estrutural ao ciclo de exploração, impedindo qualquer fiscalização independente ou melhoria nas condições de segurança.
A tragédia de janeiro de 2026 veio reacender o debate sobre os chamados minerais de conflito e a responsabilidade das empresas tecnológicas em garantir que suas cadeias de fornecimento não estejam alimentando situações de exploração e morte. Para as centenas de famílias que perderam parentes nos túneis colapsados de Rubaya, porém, os debates internacionais sobre rastreabilidade de minerais chegam tarde e soam distantes diante do luto concreto e da ausência de qualquer perspectiva de justiça ou reparação.
