Situada às margens do Lago Erie, no estado americano de Ohio, Cleveland carrega em si a marca de uma cidade que se reconstruiu diversas vezes ao longo da história. Fundada em 1796 pelo general Moses Cleaveland às margens da foz do Rio Cuyahoga, a cidade nasceu como um ponto estratégico de exploração e colonização do território norte-americano recém-independente. Seu nome é uma variação do sobrenome do fundador, e desde os primeiros anos já revelava uma vocação para o crescimento acelerado.
Durante o século XIX, Cleveland transformou-se em um dos principais centros manufatureiros dos Estados Unidos. Sua posição privilegiada, conectando o interior do continente ao sistema dos Grandes Lagos, permitiu o desenvolvimento de uma rede de canais e depois de entroncamentos ferroviários que tornaram a cidade um nó vital para o transporte de mercadorias. O aço, a ferramentaria, a produção de maquinários pesados e a extração e refino do petróleo — impulsionados pela ascensão de John D. Rockefeller, que fundou a Standard Oil em Cleveland em 1870 — colocaram a cidade entre as mais industrializadas do mundo no virar do século.
No pico de seu poder industrial, nas primeiras décadas do século XX, Cleveland rivaliza com Chicago pelo posto de segunda maior cidade americana. Trabalhadores imigrantes de toda a Europa — poloneses, húngaros, tchecos, italianos, eslovacos — chegavam em ondas contínuas para preencher as vagas nas fábricas que proliferavam ao longo do rio. A cidade cresceu não apenas em tamanho, mas também em diversidade cultural, tornando-se um caldeirão de línguas, tradições e identidades que moldaram seu caráter único.
A segunda metade do século XX, porém, trouxe ventos contrários. A desindustrialização que varrreu o chamado Cinturão da Ferrugem americano atingiu Cleveland de forma devastadora. Fábricas fecharam, empregos evaporaram e a população, que havia chegado a quase um milhão de habitantes nos anos de ouro, iniciou um declínio que se estende até os dias atuais. Segundo o censo de 2020, a cidade registrou 372.624 habitantes — uma queda de 6,1% em relação à década anterior, muito abaixo do crescimento estadual de 2,3%. Cleveland figura como a 54ª cidade mais populosa dos Estados Unidos.
Para se reinventar, Cleveland apostou em setores como o financeiro, o jurídico, o de seguros e, sobretudo, o da saúde. A Cleveland Clinic, fundada em 1921, tornou-se uma das instituições médicas mais renomadas do mundo, atraindo pacientes e pesquisadores internacionais e funcionando como âncora econômica da cidade. Universidades como a Case Western Reserve University também ajudaram a posicionar Cleveland como polo de inovação e pesquisa acadêmica, diversificando uma base econômica que dependia quase exclusivamente da indústria pesada.
A cidade ocupa uma área de 213,6 quilômetros quadrados, dos quais pouco mais de 12 quilômetros quadrados correspondem à porção aquática que banha a costa do Lago Erie. Sua região metropolitana, que abrange o Condado de Cuyahoga e municípios vizinhos, reúne mais de dois milhões de habitantes, indicando que o peso econômico e cultural de Cleveland extravasa em muito os limites da cidade propriamente dita.
No campo esportivo, Cleveland desenvolveu uma identidade marcada por uma rivalidade lendária com o azar. Por décadas, a cidade carregou o peso de times que chegavam às finais e nunca conquistavam os títulos, fenômeno que os próprios moradores batizaram de "Maldição de Cleveland". As três principais franquias — o Cleveland Guardians no beisebol, o Cleveland Browns no futebol americano e o Cleveland Cavaliers no basquete — acumulavam 159 temporadas sem um campeonato. Esse tabu histórico foi quebrado de forma emocionante em 2016, quando os Cavaliers, liderados por LeBron James e Kyrie Irving, venceram o título da NBA com uma virada inédita, saindo de 1 a 3 nas finais para conquistar o troféu diante do Golden State Warriors.
A cena cultural de Cleveland é mais rica do que seu porte atual sugere. A cidade foi palco de uma fervilhante cena musical nas décadas de 1970 e 1980, especialmente no que diz respeito ao rock e ao punk. Bandas como Dead Boys e Pere Ubu nasceram nas ruas de Cleveland, contribuindo para um movimento que sacudiu a música alternativa americana. Trent Reznor, o cérebro por trás do Nine Inch Nails, nasceu e cresceu no estado, e sua estética industrial tem raízes no ambiente pós-industrial da região. O grupo de rap Bone Thugs-n-Harmony e o rapper Kid Cudi, assim como Machine Gun Kelly, também emergem de Cleveland, demonstrando a força da cidade na música urbana contemporânea.
Talvez o símbolo mais poderoso da identidade cultural de Cleveland seja o Rock and Roll Hall of Fame, museu inaugurado em 1995 às margens do Lago Erie. A escolha de Cleveland para sediar o museu não foi aleatória: foi em uma rádio local, a WJW, que o DJ Alan Freed cunhou o termo "rock and roll" nos anos 1950, tornando a cidade parte da própria fundação desse movimento musical global. O museu atrai centenas de milhares de visitantes por ano e se tornou um dos marcos mais reconhecíveis do panorama cultural americano.
Entre outras personalidades nascidas em Cleveland estão o físico Donald Arthur Glaser, vencedor do Prêmio Nobel de Física em 1960, o cartunista Bill Watterson, criador da icônica tira Calvin e Hobbes, e a atriz Isabela Merced, nascida em 2001. Ex-integrantes do Guns N' Roses, como Steven Adler e Gilby Clarke, também têm raízes na cidade, assim como os lutadores profissionais The Miz e Dolph Ziggler da WWE. Derrick Green, o vocalista da banda brasileira Sepultura, também nasceu em Cleveland.
O patrimônio histórico da cidade é reconhecido por 260 marcos listados no Registro Nacional de Lugares Históricos, com o primeiro designado em fevereiro de 1973 e o mais recente, o Midtown Historic District, em fevereiro de 2021. Três deles possuem o status de Marco Histórico Nacional. Cleveland segue sendo uma cidade em transformação, que carrega as cicatrizes de sua decadência industrial, mas também a resiliência de quem aprendeu a se reinventar sem abandonar a memória do que um dia foi.


