No coração dos Andes peruanos, na antiga capital do Império Inca, travou-se em 1536 um dos confrontos mais dramáticos e decisivos de toda a conquista espanhola das Américas. O cerco de Cusco, iniciado em 6 de maio daquele ano e prolongado por aproximadamente dez meses, representou o último grande esforço organizado dos incas para expulsar os invasores europeus e restaurar o imenso império que havia dominado a região andina por mais de um século.
Para compreender o cerco, é necessário voltar alguns anos. O Império Inca, chamado Tawantinsuyu, havia sido sacudido por uma devastadora guerra civil entre os irmãos Huáscar e Atahualpa pelo controle do trono. Quando Francisco Pizarro e seus conquistadores chegaram ao Peru em 1532, Atahualpa acabara de vencer o conflito fratricida, mas o reino estava enfraquecido. Os espanhóis capturaram Atahualpa em Cajamarca, cobraram um resgate colossal em ouro e prata e, mesmo após receber o pagamento, executaram o Sapa Inca. Cusco foi tomada em 1533, e Manco Inca Yupanqui, filho de Huayna Cápac, foi instalado pelos espanhóis como governante fantoche para conferir legitimidade à ocupação.
Manco Inca, porém, não era um homem disposto a aceitar o papel de fantoche indefinidamente. Observando de perto as divisões entre os próprios conquistadores, as humilhações impostas à nobreza inca e o saqueio sistemático de templos e palácios, o jovem soberano começou a tecer secretamente uma conspiração. Em 1535, enquanto Francisco Pizarro partia para fundar Lima e seus irmãos disputavam o controle do Peru, Manco Inca conseguiu escapar do controle espanhol e convocou um exército que segundo relatos da época chegou a dezenas de milhares de guerreiros.
Na madrugada de 6 de maio de 1536, as forças incas lançaram o ataque simultâneo sobre Cusco e sobre a estrada que ligava a capital ao litoral. A guarnição espanhola dentro da cidade, comandada por Hernando Pizarro com um contingente de algumas centenas de soldados europeus e auxiliares indígenas aliados, encontrou-se subitamente sitiada por um exército de proporções esmagadoras. Os incas empregaram uma tática devastadora: utilizaram projéteis de pedra incandescente para incendiar os telhados de palha das construções espanholas, transformando grande parte de Cusco em uma fornalha.
O confronto dentro da cidade foi intenso e prolongado por semanas. Os espanhóis, embora numericamente inferiores, contavam com armaduras de aço, cavalos e armas de fogo que os guerreiros incas não conseguiam superar facilmente no combate direto. Hernando Pizarro conduziu várias investidas a cavalo contra as posições inimigas, tentando romper o cerco, mas os incas recuavam para os morros ao redor e voltavam em força. O centro nevrálgico das batalhas foi a fortaleza de Sacsayhuamán, construção monumental em pedra que dominava Cusco por cima. Após semanas de combate brutal, os espanhóis finalmente tomaram a fortaleza em um assalto em que o general inca Titu Cusi Huallpa e centenas de guerreiros morreram.
Apesar da perda de Sacsayhuamán, Manco Inca manteve o cerco firme. Os meses que se seguiram foram de desgaste gradual, com os espanhóis controlando o núcleo urbano, mas incapazes de romper o bloqueio ou receber reforços regulares. Mensageiros e pequenas escoltas que tentavam chegar a Cusco vindas da costa eram interceptadas. A situação parecia caminhar para a sufocação definitiva da guarnição espanhola quando um fator externo mudou o equilíbrio da luta.
Diego de Almagro, sócio de Francisco Pizarro que havia empreendido uma fracassada expedição ao Chile em busca de riquezas, retornou ao Peru em 1537 com um exército veterano e disposto a reclamar sua parte nos frutos da conquista. A chegada dessas forças de reforço pelo sul alterou radicalmente o cálculo estratégico de Manco Inca. Já sem a perspectiva de uma vitória rápida, enfraquecido pelo tempo de cerco e pela inevitabilidade de novas tropas espanholas chegando pelo Atlântico, o Sapa Inca tomou a decisão de levantar o cerco.
Em março de 1537, Manco Inca retirou suas forças de Cusco e recuou primeiro para Ollantaytambo, onde ainda venceu um confronto com os espanhóis, antes de se aprofundar na selva amazônica para estabelecer o chamado Estado Neo-Inca em Vilcabamba. Ali, no bastião refugiado entre montanhas e florestas impenetráveis, a resistência inca sobreviveria por mais três décadas até a execução de Tupac Amaru I em 1572.
Almagro, ao consolidar a situação em Cusco, agiu com pragmatismo brutal: prendeu Hernando e Gonzalo Pizarro, tentando assim controlar os frutos da conquista que disputava com Francisco. Gonzalo conseguiu escapar da prisão, e o conflito entre os conquistadores culminaria na Batalha de Las Salinas em 1538, onde as forças de Francisco Pizarro derrotaram Almagro, que foi executado logo depois.
O fracasso do cerco de Cusco teve consequências históricas de longa duração. Alguns historiadores argumentam que aquela foi a única janela real em que os incas poderiam ter expulsado os espanhóis do Peru, antes que a colonização se consolidasse irreversivelmente. O fato de que Manco Inca mobilizou um exército vasto e manteve o cerco por dez meses demonstra que a resistência indígena foi muito mais organizada e tenaz do que as narrativas simplificadas da conquista costumam reconhecer. A derrota não foi uma questão de superioridade militar simples, mas de um conjunto de fatores — divisões políticas internas, doenças europeias que haviam dizimado a população inca nas décadas anteriores, e as rivalidades internas entre os próprios conquistadores que paradoxalmente lhes davam flexibilidade estratégica.



