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Califado Abássida

O Califado Abássida (em árabe: العبّاسيّون; romaniz.: al-‘abbāsīyūn), foi o terceiro calif

7 min de leitura01/01/2024
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O Califado Abássida representou um dos capítulos mais grandiosos e duradouros da civilização islâmica. Fundado em 750, na cidade de Harã, pelos descendentes de Abas ibne Abedal Mutalibe — tio mais jovem do profeta Maomé —, esse califado seria o terceiro grande estado islâmico da história, sucedendo os omíadas com uma profundidade política e cultural que nenhum de seus antecessores havia alcançado.

A origem dos abássidas estava profundamente entrelaçada com as rivalidades internas do mundo islâmico. Eles se consideravam os legítimos herdeiros de Maomé, em contraste com os omíadas, cuja linhagem derivava do clã de Omaia — um grupo que, segundo os abássidas, havia se separado do núcleo original da fé. Para conquistar apoio, os abássidas recorreram a uma estratégia dupla: aliaram-se temporariamente com facções xiitas e, ao mesmo tempo, mobilizaram os chamados maulas, convertidos ao islã que permaneciam marginalizados dentro da estrutura social omíada. Esses homens, em sua maioria de origem persa, eram tratados como cidadãos de segunda classe e viam nos abássidas uma promessa de reconhecimento e ascensão.

O avanço abássida começou como um movimento clandestino na região do Coração, na atual fronteira entre Irã e Afeganistão. Maomé ibne Ali, bisneto de Abas, iniciou a campanha durante o reinado de Omar II, mas foi apenas sob Maruane II que a revolta explodiu. Ibraim, o imã, quarto descendente direto de Abas, liderou a rebelião com notável sucesso militar — até ser capturado e morrer na prisão em 747. Seu irmão Abedalá, o Açafá, assumiu o movimento e, em 750, derrotou definitivamente os omíadas na Batalha do Zabe, travada perto do rio Grande Zabe, no norte do Iraque. Proclamado califa em seguida, Açafá inaugurou uma nova era.

Uma das primeiras e mais simbólicas decisões dos abássidas foi transferir a capital do califado de Damasco, na Síria, para Bagdá, fundada às margens do rio Tigre em 762. A escolha não era apenas estratégica: ela sinalizava uma ruptura com o modelo árabe-sírio dos omíadas e um abraço à herança persa, que já havia moldado profundamente a região mesopotâmica. Para administrar o vasto território, criou-se o cargo de vizir, um ministro supremo com amplos poderes delegados. Com o tempo, esse cargo absorveu tanto do poder efetivo que muitos califas tornaram-se figuras essencialmente cerimoniais, enquanto as burocracias persas e os emires locais governavam de fato.

O segundo califa, Almançor, foi o verdadeiro arquiteto do poder abássida. Ele integrou intelectuais e administradores persas à corte, transformando Bagdá num polo cultural sem precedentes. Mas essa estratégia de conciliação também gerou tensões: os guerreiros árabes do Coração que haviam combatido pelos abássidas sentiram-se preteridos. Ao mesmo tempo, um sobrevivente da casa omíada, Abederramão I, conseguiu fugir para a Espanha e estabelecer ali um emirado independente em 756. Em 929, seu sucessor Abederramão III proclamou-se califa em Córdova, criando uma rivalidade direta com Bagdá que duraria séculos.

O período de apogeu abássida ficou conhecido como a Era de Ouro do Islã, inaugurada pelo califa Harune Arraxide e prolongada por seus sucessores. Nesse tempo, Bagdá tornou-se o maior centro intelectual do mundo. A Casa da Sabedoria, fundada para traduzir e preservar textos gregos, persas, indianos e romanos, reunia sábios de todas as religiões. Matemáticos desenvolveram o álgebra, médicos aprimoraram a cirurgia, astrônomos calcularam rotas celestes com precisão espantosa. Textos aristotélicos, platônicos e de Galeno que teriam se perdido para sempre foram salvos por esses tradutores e comentaristas árabes. Harune Arraxide, imortalizado nas histórias das Mil e Uma Noites, mantinha relações diplomáticas com a dinastia Tang chinesa — mais de quatro mil mercenários árabes chegaram a combater ao lado dos Tang durante a Rebelião de An Shi, e alguns ficaram permanentemente na China.

O declínio começou não por uma derrota militar súbita, mas pela erosão interna do poder. Os califas, cercados de luxo e isolados pelas camadas burocráticas, tornaram-se progressivamente dependentes de um exército de escravos turcos, os mamelucos, que eles mesmos haviam recrutado. Esses guerreiros eram tecnicamente superiores, mas respondiam a seus próprios chefes, não ao califa. Em menos de um século após o apogeu, o poder efetivo havia migrado para as mãos de emires dinásticos que aceitavam a autoridade do califa apenas de forma nominal. Províncias inteiras se separaram: o Alandalus sob os omíadas, o Magrebe sob os Aglábidas, e o norte da África sob o rival Califado Fatímida.

O golpe final veio de fora. Em 1258, o cã mongol Hulagu, neto de Genghis Khan, avançou sobre o Iraque com um exército devastador. O saque de Bagdá foi um dos eventos mais traumáticos da história islâmica: a cidade foi incendiada, a Casa da Sabedoria destruída, e o último califa abássida em Bagdá foi executado. Diz-se que o Tigre ficou tingido de negro pela tinta dos livros jogados no rio e de vermelho pelo sangue dos mortos — um provável exagero retórico, mas que ilustra bem a catástrofe cultural que aquele momento representou.

O califado, no entanto, não terminou ali. Em 1261, um primo da linhagem sobrevivente foi instalado pelos mamelucos egípcios no Cairo, onde os abássidas continuaram a exercer uma autoridade religiosa simbólica. Por quase três séculos, essa linha do Cairo serviu como fonte de legitimidade islâmica, até que em 1519, com a conquista otomana do Egito, o poder foi formalmente transferido para o sultão Selim I. A capital dessa nova hegemonia seria Constantinopla, conquistada aos bizantinos em 1453 — um giro histórico que encerrava simbolicamente uma era que havia começado nos desertos da Arábia.

O legado abássida vai muito além da política. Foi sob esse califado que se estruturou boa parte do direito islâmico, que a poesia árabe atingiu seu ápice clássico, que a medicina árabe se tornou referência mundial e que o sistema de numeração indo-arábico chegou ao Ocidente. A própria ideia de que o conhecimento é sagrado — expressa no hadice que dizia ser "a tinta de um acadêmico mais sagrada que o sangue de um mártir" — moldou uma civilização que, por séculos, foi a mais avançada do planeta.

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