misterios

Calendário juliano

Calendário organizado por sosígenes de alexandria em homenagem a júlio césar

6 min de leitura01/01/2024
Anúncio

A reforma do calendário romano no século I antes de Cristo foi um dos atos administrativos mais duradouros da Antiguidade, com consequências que se estendem até o presente. O sistema que havia guiado os romanos por séculos era um calendário lunissolar, cheio de irregularidades e sujeito a manipulações políticas constantes: cabia ao pontífice máximo da República decidir quando inserir os meses intercalares que ajustavam o ciclo lunar ao ritmo das estações, e essa prerrogativa era frequentemente explorada para ampliar ou encurtar mandatos de magistrados conforme as conveniências do momento.

Júlio César, que ocupava o cargo de pontífice máximo em 46 antes de Cristo, decidiu pôr fim ao caos. Para isso, contou com o auxílio de Sosígenes de Alexandria, sábio egípcio com profundo conhecimento astronômico. O Egito havia desenvolvido, por volta de 2800 antes de Cristo, um calendário baseado no ciclo solar de 365 dias, e foi esse modelo que serviu de fundamento para a reforma romana. As mudanças entraram em vigor em 1º de janeiro do ano 45 antes de Cristo, data que também foi estabelecida como início oficial do novo ano — substituindo o antigo costume romano de iniciar o ano em março.

As principais alterações introduzidas pelo calendário juliano foram estruturais e elegantes. O ano foi fixado em 365 dias, divididos em 12 meses com durações predefinidas, eliminando definitivamente os meses intercalares que haviam servido de instrumento político por gerações. Para compensar a diferença entre esse ano de 365 dias e o ano trópico real — que dura aproximadamente 365 dias e um quarto — foi introduzido o dia bissexto, acrescentado a cada quatro anos sem exceção.

No sistema romano original, esse dia extra era inserido no sexto dia antes das calendas de março, ou seja, em torno de 24 de fevereiro. O dia repetido recebia o nome de "dia bissexto" antes das calendas de março, denominação que nomeou tanto o dia acrescentado quanto o próprio ano em que a intercalação ocorria. Com o tempo, quando a contagem regressiva romana foi abandonada em favor da numeração contínua dos dias do mês, o hábito se consolidou de inserir o dia extra ao final de fevereiro, onde permanece até hoje.

A tradição atribuía a criação do primitivo calendário romano ao mítico Rômulo, fundador de Roma por volta de 753 antes de Cristo. Esse calendário original teria apenas dez meses e 304 dias no total — o que explicaria por que os meses de setembro, outubro, novembro e dezembro, cujos nomes derivam dos números sete, oito, nove e dez em latim, figuram hoje como o nono, décimo, décimo primeiro e décimo segundo meses do ano. Mais tarde, Numa Pompílio teria transformado o sistema em lunissolar, acrescentando dois meses e elevando o total para 355 dias, base sobre a qual o calendário romano funcionou por séculos antes de César.

Após a morte de Júlio César, o calendário passou por alguns anos de confusão, pois os sacerdotes encarregados de sua aplicação calcularam erroneamente a frequência dos anos bissextos. Augusto corrigiu o problema e ajustou o sistema, que passou a funcionar de forma estável. Em sua homenagem, o mês de agosto — antes chamado Sextilis — recebeu o nome do primeiro imperador.

O calendário juliano, com esses ajustes augustianos, mostrou-se extraordinariamente duradouro. Tornou-se o padrão do mundo ocidental por mais de quinze séculos, adotado pela Igreja Católica e pelo conjunto dos reinos cristãos europeus. Sua fraqueza estava em um detalhe técnico: o ano trópico real é ligeiramente mais curto do que 365 dias e um quarto, e essa pequeníssima diferença foi se acumulando ao longo dos séculos. Em 1582, o papa Gregório XIII promoveu uma nova reforma, introduzindo o calendário gregoriano, que omite o dia bissexto nos anos seculares não divisíveis por 400, corrigindo o descompasso acumulado.

A diferença entre os dois calendários chegou a 13 dias ao longo do tempo. O calendário gregoriano tornou-se padrão no mundo ocidental, mas o juliano sobreviveu onde a influência da Igreja Ortodoxa era predominante. Até hoje, cristãos ortodoxos de vários países, incluindo Rússia, Sérvia e Etiópia, celebram suas festas religiosas pelo calendário juliano, o que explica por que o Natal ortodoxo cai em 7 de janeiro pelo calendário gregoriano. O nome de Júlio César, há mais de dois mil anos, continua marcando o ritmo do tempo em partes do mundo que ele jamais pisou.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas