Rune Eriksen nasceu em 13 de janeiro de 1975 e se tornaria uma das figuras mais influentes da cena de metal extremo norueguês, adotando o nome artístico Blasphemer — tirado diretamente de uma música da banda alemã Sodom — como identidade definitiva dentro do universo sombrio que escolheu habitar. Guitarrista de técnica apurada e compositor prolífico, Eriksen construiu uma carreira que vai muito além das fronteiras do black metal mais radical e hoje se estende por um amplo espectro de subgêneros do metal pesado.
O capítulo mais célebre de sua trajetória começou em outubro de 1994, quando ingressou no Mayhem, banda norueguesa que havia ajudado a definir o som e a estética do black metal no começo dos anos 1990, em meio a episódios violentos e controversos que tornaram o grupo mundialmente conhecido. Eriksen chegou ao Mayhem num momento em que a banda precisava se reconstruir, e foi justamente como compositor que ele exerceu seu papel mais decisivo: ao longo de quatorze anos, ajudou a moldar a direção musical do grupo em algumas de suas obras mais importantes e ousadas.
Entre suas contribuições ao Mayhem, destacam-se álbuns que marcaram épocas distintas do grupo. O EP Wolfs Lair Abyss, de 1997, foi a primeira grande declaração do novo Mayhem após o período de turbulência. Depois vieram A Grand Declaration of War, de 2000, considerado por muitos fãs e críticos uma das obras mais ambiciosas do black metal, e Chimera, de 2004, seguido por Ordo Ad Chao, de 2007, disco que recebeu elogios amplos pela coerência estética e radicalismo sonoro. Eriksen deixou o Mayhem no final de 2008, após quatorze anos de uma parceria que transformou ambos — a banda e o músico.
Paralelamente ao Mayhem, Eriksen nunca deixou de explorar outros projetos. Integrou o Aura Noir, banda de black thrash attack que existe desde meados dos anos 1990, contribuindo em álbuns que atravessaram décadas. Também foi membro do Mezzerschmitt e fundou o Ava Inferi, uma banda portuguesa de gothic doom que produziu quatro álbuns entre 2006 e 2011, uma escolha musical que revelava a amplitude dos interesses de Eriksen para além das convenções do black metal mais ortodoxo.
Sua rede de colaborações inclui nomes centrais do metal extremo mundial. Juntamente com o baterista Flo Mounier, do Cryptopsy, fez parte da banda do artista de death metal Nader Sadek, ao lado de Steve Tucker, do Morbid Angel. Esse mesmo Mounier seria companheiro de Eriksen em outro projeto de peso: o Vltimas, supergrupo que também conta com David Vincent, ex-vocalista do Morbid Angel, e que lançou em 2019 o álbum Something Wicked Marches In. Eriksen também integrou o Twilight of the Gods, banda inicialmente concebida como tributo ao Bathory, lendária formação sueca que influenciou gerações inteiras do metal nórdico.
Em 2020, Eriksen fundou o RUÏM, seu projeto solo mais pessoal, que resultou em 2023 no álbum Black Royal Spiritism – I.O Sino Da Igreja. O título e o conteúdo do disco refletem o ambiente em que Eriksen escolheu viver: desde 2004 ele reside em Portugal, país que adotou como lar e que aparentemente nutriu sua produção criativa de maneiras visíveis.
A trajetória de Rune Eriksen é a de um músico que nunca se deixou aprisionar completamente por nenhum rótulo. Blasphemer foi o guitarrista que ajudou a redefinir o Mayhem; foi o compositor que mergulhou no doom, no thrash, no death metal; foi o colaborador que circulou pelas bandas mais importantes do metal extremo europeu e americano. O apelido que escolheu para si, tomado de uma música de outra banda, tornou-se uma identidade que vai além da provocação — é o retrato de um artista que sempre fez o que quis, sem pedir licença.

