Em 1867, um acordo inédito na história da Europa criou uma das entidades políticas mais complexas e fascinantes da era moderna. O Compromisso Austro-Húngaro transformou o antigo Império Austríaco dos Habsburgos numa monarquia dual, onde dois estados soberanos, a Áustria e a Hungria, compartilhavam um único monarca e ministérios comuns de relações exteriores, defesa e finanças, mas conduziam separadamente sua política interna, seu parlamento, sua economia e até seu exército de reserva. O resultado, a Áustria-Hungria, existiu por apenas 51 anos, de 1867 a 1918, mas deixou uma marca indelével na história europeia, tanto pelo que construiu quanto pelo modo como desapareceu.
A formação dessa monarquia dual era o produto de décadas de tensão crescente. A derrota humilhante da Áustria para a Prússia na Guerra Austro-Prussiana de 1866, que excluiu os Habsburgos definitivamente da disputa pela liderança do mundo germânico, tornou impossível continuar governando a Hungria como mera província de um império em declínio. Os húngaros, que haviam liderado uma revolução de independência em 1848, reprimida apenas com ajuda russa, exigiam reconhecimento de sua soberania. O arquiteto do compromisso foi o estadista húngaro Ferenc Deák, que convenceu Francisco José I de que uma parceria de iguais era a única saída viável. Em julho de 1867, Francisco José foi coroado rei da Hungria em Budapest numa cerimônia separada de sua posição como imperador da Áustria.
O resultado foi um estado que nem era plenamente unitário nem plenamente federado, mas algo original. Os cidadãos tinham passaportes separados, austríaco ou húngaro. Os tratados internacionais eram assinados por representantes de ambos os países. O exército comum usava a designação k.u.k. (kaiserlich und königlich, imperial e real), enquanto as forças terrestres de reserva de cada metade eram administradas separadamente. Havia três ministérios comuns, todos sob autoridade direta do monarca, e os custos compartilhados eram renegociados a cada dez anos numa "quota de contribuição" que gerava intermináveis disputas diplomáticas entre Viena e Budapest.
Em seu apogeu, a Áustria-Hungria era a segunda maior potência territorial da Europa, com 621 mil quilômetros quadrados, perdendo apenas para o Império Russo. Tinha uma população de mais de 50 milhões de pessoas, tornando-a a terceira mais populosa da Europa. Era uma potência industrial respeitável: possuía a quarta maior indústria de construção de máquinas do mundo, era o terceiro maior fabricante e exportador de eletrodomésticos e aparelhos elétricos industriais, e a segunda maior rede ferroviária da Europa, atrás apenas do Império Alemão. Cidades como Viena e Budapest rivalizavam com Paris e Berlim em arquitetura, vida cultural e sofisticação intelectual.
Viena, a capital imperial, era uma metrópole de dois milhões de habitantes em 1900, onde a efervescência cultural era extraordinária. Na virada do século, a cidade abrigava simultaneamente Sigmund Freud desenvolvendo a psicanálise, Gustav Klimt e Egon Schiele renovando a pintura com a Secessão Vienense, Gustav Mahler transformando a ópera e a música sinfônica, Ludwig Wittgenstein questionando os fundamentos da filosofia e Robert Musil escrevendo O Homem sem Qualidades, o grande romance da decadência imperial. Era também uma cidade que recusava o modernismo judeu e intelectual, e onde um jovem pintor fracassado chamado Adolf Hitler absorveu o antissemitismo virulento que lhe seria tão útil décadas depois.
Mas a Áustria-Hungria carregava contradições estruturais que o brilhantismo cultural não podia resolver. O estado dos Habsburgos abarcava mais de uma dúzia de nacionalidades, cada uma com suas línguas, tradições e aspirações políticas crescentes: alemães, húngaros, tchecos, eslovacos, poloneses, ucranianos, eslovenos, croatas, sérvios, romenos, italianos. O Compromisso de 1867 satisfizera os húngaros, mas acirrou as aspirações dos eslavos, que constituíam a maioria da população do império e eram tratados como cidadãos de segunda categoria tanto em Viena quanto em Budapest. Os tchecos exigiam sua própria autonomia; os sérvios da Bósnia sonhavam com reunificação com a Sérvia; os croatas queriam um estado próprio.
A incorporação da Bósnia e Herzegovina em 1908, após a administração conjunta desde 1878, provocou a chamada Crise da Bósnia e acirrou as tensões com a Rússia e com a Sérvia, que também reivindicava influência nos Bálcãs. Foi esse caldo de animosidades que explodiu em 28 de junho de 1914, quando o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, foi assassinado em Sarajevo pelo jovem Gavrilo Princip, membro de uma organização nacionalista sérvia. A Áustria-Hungria apresentou à Sérvia um ultimato deliberadamente inaceitável e declarou guerra em 28 de julho, desencadeando o mecanismo de alianças que, em questão de semanas, transformou um conflito regional nos Bálcãs na Primeira Guerra Mundial.
A guerra revelou impiedosamente as fragilidades que o brilhantismo cultural havia encoberto. O exército austro-húngaro sofreu derrotas catastróficas na frente russa; a diversidade étnica do estado tornou-se um obstáculo militar, com soldados tchecos se rendendo voluntariamente aos russos e sérvios desertando em massa. Francisco José I, que governara por 68 anos, morreu em novembro de 1916, e seu jovem sucessor Carlos I não tinha nem o tempo nem a autoridade necessários para reformar o estado no meio de uma guerra perdida. O armistício de Villa Giusti, assinado em 3 de novembro de 1918, encerrou oficialmente a participação austro-húngara na guerra; dois dias antes, a Hungria já havia declarado sua separação do estado comum, dissolvendo a monarquia dual.
Do colapso emergiram novos estados: a Tchecoslováquia, a Iugoslávia, a Polônia restaurada, e as Repúblicas da Áustria e da Hungria, cada uma herdando fragmentos do edifício imperial. O Tratado de Saint-Germain e o Tratado de Trianon redesenharam o mapa da Europa Central, deixando milhões de falantes de alemão e húngaro fora das fronteiras de seus novos estados nacionais, gerando os ressentimentos que alimentariam os conflitos do século XX. A Áustria-Hungria foi, assim, tanto um experimento extraordinário de convivência multinacional num continente dominado pelo nacionalismo quanto um fracasso espetacular em encontrar uma fórmula sustentável para essa convivência, um dilema que a Europa do século XXI ainda não resolveu definitivamente.