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1966

Ano

4 min de leitura01/01/2024
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O ano de 1966 chegou repleto de transformações que marcariam para sempre a história do século XX. Designado pelo calendário gregoriano como um ano comum iniciado num sábado, ele trazia consigo não apenas a numeração romana MCMLXVI, mas também uma carga de acontecimentos que abalaram fronteiras políticas, culturais e esportivas ao redor do planeta. Foi também o Ano Internacional do Arroz, uma iniciativa global que reconhecia a importância do cereal como sustento de populações inteiras, especialmente na Ásia.

Em abril, um dos maiores desastres naturais do ano sacudiu a Ásia Central. No dia 26, um violento terremoto atingiu Tasquente, capital do Uzbequistão, então parte da União Soviética, destruindo vastas áreas da cidade. A tragédia ceifou a vida de centenas de pessoas e deixou cerca de 300 mil habitantes sem lar, forçando uma operação de reconstrução de enorme escala por parte das autoridades soviéticas. A imagem de uma capital reduzida a escombros em poucas horas chocou o mundo e evidenciou a brutalidade com que os fenômenos naturais podem varrer o esforço humano de décadas.

No campo das independências políticas, o ano de 1966 foi particularmente fértil. Em 26 de maio, a Guiana Britânica encerrava mais de um século de dominação colonial ao tornar-se simplesmente Guiana, assumindo o direito de traçar seu próprio destino. Poucos meses depois, em 30 de setembro, o Botswana conquistou sua independência do domínio britânico, seguido de perto pelo Lesoto, que se tornou nação soberana em 4 de outubro. Naquele período de efervescência anticolonial, esses três territórios encontraram o caminho da autodeterminação dentro de apenas cinco meses, refletindo um movimento global de descolonização que havia ganhado força desde a década anterior.

O mundo do futebol viveu um de seus momentos mais memoráveis no verão inglês de 1966. A VIII Copa do Mundo foi realizada na Inglaterra, e a final disputada no dia 30 de julho ficou gravada para sempre na memória esportiva. A seleção inglesa enfrentou a Alemanha Ocidental num duelo épico que terminou 2 a 2 no tempo normal, sendo decidido na prorrogação com dois gols ingleses, selando o placar final em 4 a 2. O capitão Bobby Moore, símbolo da elegância britânica dentro de campo, subiu as escadas da tribuna real para receber a Taça Jules Rimet das mãos da própria Rainha Elizabeth II, numa cena que sintetizava o orgulho nacional de uma nação que havia inventado o esporte sagrado.

A música de 1966 também foi revolucionária. Em 5 de agosto, os Beatles lançaram o álbum Revolver, uma obra que redefiniu os limites do que a música popular poderia ser. Com experimentos sonoros ousados, letras introspectivas e arranjos que iam da psicodelia à elegância orquestral, o disco marcou uma virada na trajetória da banda de Liverpool e influenciou gerações inteiras de músicos. Revolver é até hoje considerado um dos álbuns mais importantes da história da música ocidental.

Setembro trouxe uma das tragédias aéreas mais dolorosas do ano. No dia 1º, 98 turistas britânicos perderam a vida na queda do voo 105 da Britannia Airways próximo a Liubliana, na então Iugoslávia. O acidente chocou o Reino Unido e reabriu o debate sobre segurança na aviação comercial, um setor que expandia rapidamente e precisava acompanhar os padrões de segurança com a mesma velocidade.

No Brasil, o ano de 1966 foi marcado pelos movimentos do regime militar instaurado em 1964. Em outubro, o candidato da ARENA, Costa e Silva, foi eleito presidente pelo Congresso Nacional. Em 5 de outubro, foi inaugurada a Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas, uma instituição que se tornaria referência nacional em pesquisa científica e inovação. Em dezembro, o governo federal editou o Ato Institucional número 4, convocando o Congresso para discutir e votar uma nova Constituição, consolidando o controle do regime sobre as instituições políticas do país.

Em Lisboa, o ano assistiu ao término das obras da Igreja de Santa Engrácia, um templo cuja construção havia sido iniciada ainda em 1568 e que, ao longo de quatro séculos de interrupções e retomadas, tornou-se na cultura popular portuguesa sinônimo de obra interminável. Sua conclusão, além de encerrar um capítulo arquitetônico, transformou o edifício no Panteão Nacional de Portugal.

Na Alemanha, dezembro trouxe uma mudança de liderança com a substituição de Ludwig Erhard por Kurt Georg Kiesinger como chanceler, alterando o rumo político do país num momento de intensas tensões internacionais. Entre os nascimentos notáveis do ano, destacam-se a atriz americana Vivian Wu, nascida em 5 de fevereiro, e o ator e cineasta taiwanês Leon Dai, nascido em 27 de julho.

As perdas de 1966 foram numerosas e significativas. Em 1º de janeiro, morreu Vincent Auriol, que havia presidido a França entre 1947 e 1954. Em fevereiro, o mundo despediu-se de Buster Keaton, o gênio da comédia silenciosa, cujo domínio físico da câmera e da expressão corporal jamais foi superado. Em maio, faleceu Venceslau Brás, que governara o Brasil entre 1914 e 1918, e o ditador salvadorenho Maximiliano Hernández Martínez. Em dezembro, o planeta perdeu Walt Disney, criador de um império do entretenimento que havia transformado a imaginação humana em arte e negócio com maestria incomparável.

Entre os premiados com o Nobel naquele ano, Alfred Kastler levou o prêmio de Física, enquanto Robert S. Mulliken foi laureado em Química. Em Medicina, os honrados foram Peyton Rous e Charles B. Huggins. A Literatura coroou dois autores que carregavam em suas obras a memória de povos perseguidos: a poeta Nelly Sachs e o romancista Shmuel Yosef Agnon. O Prêmio Nobel da Paz, no entanto, não foi concedido naquele ano, uma decisão rara que refletia a dificuldade do comitê em reconhecer esforços concretos num mundo ainda dilacerado pela Guerra Fria, pela guerra no Vietnã e por conflitos em múltiplos continentes.

1966 foi, portanto, um ano de contradições vibrantes: de independências e golpes, de arte revolucionária e tragédias aéreas, de conquistas esportivas inesquecíveis e de mortes que encerravam eras. Cada evento deixou uma marca específica no tecido do século, e o conjunto deles pintou um retrato de uma humanidade em plena ebulição, buscando ao mesmo tempo progresso e sentido.

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