Mozart Camargo Guarnieri nasceu em 1 de fevereiro de 1907 na cidade de Tietê, no interior do estado de São Paulo, e construiu ao longo de sua vida uma das obras musicais mais extensas e representativas da cultura brasileira. Com mais de setecentas composições produzidas ao longo de décadas, é apontado como provavelmente o segundo compositor brasileiro mais executado no mundo, superado apenas por Heitor Villa-Lobos. Pouco antes de sua morte, recebeu o prêmio Gabriela Mistral com o título de maior compositor das Américas, reconhecimento que sintetizava uma trajetória de dedicação ininterrupta à música nacional.
Sua origem era de mistura: o pai, Michele Guarnieri, era imigrante italiano da Sicília que havia vindo ao Brasil por razões políticas e tocava flauta; a mãe, Géssia de Arruda Camargo Penteado, pertencia a uma tradicional família paulista e tocava piano. O ambiente doméstico era musical por natureza, e o pequeno Mozart cresceu cercado de instrumentos e sons. Começou a ter aulas de piano aos dez anos com Virgínio Dias, para quem dedicou sua primeira composição, uma valsa chamada Sonho de Artista, escrita em 1918 e publicada pelo pai em 1920, mesmo após o professor ter a rejeitado.
Em 1923, reconhecendo o talento do filho, o pai decidiu mudar a família para São Paulo em busca de melhores condições de estudo musical. A família tinha poucos recursos, e Guarnieri trabalhou lado a lado com o pai em uma barbearia enquanto estudava e tocava em cinemas, lojas de partituras e casas de baile. Essa imersão no cotidiano musical urbano foi uma escola informal de imenso valor. A partir de 1925, quando a situação financeira da família melhorou um pouco, pôde se dedicar mais integralmente aos estudos, passando a ter aulas com Antônio de Sá Pereira e, anos depois, com o maestro italiano Lamberto Baldi, que acabou se radicando em São Paulo e se tornou seu principal professor de harmonia, contraponto, orquestração e composição.
O encontro mais decisivo de sua formação intelectual aconteceu em 1928, quando foi apresentado ao escritor Mário de Andrade. Guarnieri mostrou ao escritor modernista duas obras recentes, Canção Sertaneja e Dança Brasileira, e o resultado foi uma amizade profunda e uma parceria artística duradoura. Apesar de ter cursado apenas dois anos do primário até então, o convívio com Mário de Andrade lhe abriu horizontes intelectuais que a escola formal não havia proporcionado. Muitas das canções que Guarnieri escreveria ao longo da carreira usariam textos do escritor, incluindo a ópera Pedro Malazarte. Mário de Andrade, por sua vez, tornou-se um dos principais responsáveis pela divulgação e aceitação da obra de Guarnieri nos círculos culturais do país.
Em 1931, Guarnieri estreou sua primeira composição sinfônica, Curuçá, regida pelo próprio Villa-Lobos em concerto da Sociedade Sinfônica de São Paulo. Embora a peça não tenha sido reapresentada nem publicada, o gesto de Villa-Lobos ao regê-la foi um sinal de reconhecimento do talento do jovem compositor. Outras experiências sinfônicas se seguiram, e a Dança Brasileira em versão orquestral chegaria décadas depois a ser gravada por Leonard Bernstein com a Filarmônica de Nova York, indicando o alcance internacional que sua obra viria a ter.
Em 1935, a prefeitura de São Paulo criou o Departamento de Cultura, cujo primeiro diretor era justamente Mário de Andrade. O escritor convidou Guarnieri para reger o Coral Paulistano, grupo voltado ao fomento do canto em língua nacional. O trabalho nessa instituição pública foi sua principal atividade profissional ao longo de toda a década de 1940, incluindo a regência da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.
Em 1938 foi selecionado em concurso pela Comissão do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, recebendo uma bolsa de estudos para Paris. Na capital francesa estudou contraponto, harmonia, orquestração e composição com Charles Koechlin, e regência com François Rühlmann. Conheceu Nádia Boulanger, figura central do neoclassicismo musical europeu. A estada parisiense foi interrompida prematuramente por problemas financeiros e pela eclosão da Segunda Guerra Mundial, forçando seu retorno ao Brasil em 1939.
De volta a São Paulo, Guarnieri navegou por períodos de incerteza financeira e institucional, mas continuou compondo com regularidade e intensidade. Sua ligação com o compositor americano Aaron Copland, que veio ao Brasil no contexto da Política da Boa Vizinhança de Roosevelt, abriu portas para o mercado musical norte-americano, tornando-o o principal compositor brasileiro a atrair a atenção dos meios musicais dos Estados Unidos naquele período.
Ao longo das décadas seguintes, sua produção continuou crescendo em volume e reconhecimento. Concertos para piano, peças corais, canções, música de câmara e composições sinfônicas se acumularam num catálogo extraordinário. Formou gerações de músicos e compositores brasileiros, exerceu influência duradoura sobre a linguagem musical nacional e recebeu prêmios e homenagens das mais diversas origens. Seu nome tornou-se sinônimo de brasilidade na música erudita, ao lado de Villa-Lobos.
Mozart Camargo Guarnieri faleceu em 13 de janeiro de 1993, em São Paulo, aos oitenta e cinco anos de idade, deixando uma obra que permanece como patrimônio inestimável da cultura brasileira. Sua trajetória, dos fundos de uma barbearia paulistana até os palcos internacionais, é a prova de que o talento genuíno e o esforço obstinado encontram, cedo ou tarde, o reconhecimento que merecem.
