George Sewall Boutwell nasceu em 28 de janeiro de 1818, em Brookline, Massachusetts, e cresceu na fazenda da família em Lunenburg, onde frequentou escolas públicas até os dezessete anos. A sua infância foi marcada pelo trabalho manual: durante os verões, caminhava descalço, cuidava de bois e colhia castanhas. A formação formal foi sólida nas bases, com aritmética, álgebra, geometria e gramática latina, mas foi uma educação que ele enxergou como ponto de partida, não de chegada. De 1830 a 1835 trabalhou como aprendiz e balconista de um comerciante de chapéus em folha de palmeira, e brevemente como professor em Pound Hill, antes de migrar para Groton, Massachusetts, onde trabalhou como balconista e comerciante entre 1835 e 1838. Nesse período, começou a estudar direito com o advogado Bradford Russell, cujo escritório ficava no andar acima da loja em que trabalhava.
A carreira pública de Boutwell teve um início discreto em 1839, quando atuou como agente de pensões para viúvas da Guerra de Independência. Durante uma viagem a Washington, D.C., ficou impressionado ao ver Daniel Webster em ação. Mas foi uma conversa com uma escrava negra cujo filho mais novo havia sido vendido para a Louisiana que o transformou: a partir daquele momento, Boutwell tornou-se um dedicado abolicionista, convicção que definiria toda a sua trajetória política. Em 1841, casou-se com Sarah Adelia Thayer, filha de Nathan Hayler de Hollis, em New Hampshire. O casal teria dois filhos, Georgianna e Francis.
Entrando na política como democrata, Boutwell concorreu à legislatura estadual de Massachusetts com resultados inicialmente modestos. Depois de perder em 1840, venceu na terceira tentativa em 1841, derrotando o incumbente John Boynton. Ganhou reeleição duas vezes antes de ser derrotado em 1844, retornando à legislatura nas eleições de 1846 e atuando até 1850. Nos comitês judiciário e financeiro, construiu reputação por investigação exaustiva, defendendo livre comércio, restrição da oferta de dinheiro e aumento de impostos voltados à educação e às reformas sociais. Em 1849, o governador whig George N. Briggs o nomeou comissário bancário de Massachusetts, função em que inspecionava licenças bancárias e adquiriu profundo conhecimento em finanças.
A trajetória em direção ao governo começou a ganhar força com a crise da escravidão. Em 1849, Boutwell obteve a indicação democrata para governador, mas como nenhum candidato alcançou maioria, a legislatura controlada pelos whigs escolheu o incumbente Briggs. A questão abolicionista, intensificada pela expansão da escravidão nos territórios adquiridos na Guerra Mexicano-Americana, transformou o mapa político de Massachusetts, permitindo a coalizão democrata e do Partido Solo Livre que levaria Boutwell a ocupar o cargo de 20º governador do estado. A vitória foi mais do que simbólica: Boutwell usou o mandato para ampliar o acesso à educação pública e reforçar posições progressistas que o tornariam figura de projeção nacional.
Com a fundação do Partido Republicano na década de 1850, Boutwell foi um dos líderes na consolidação dessa nova força política que se opunha à expansão da escravidão. Eleito para o Congresso federal, tornou-se peça central no processo de impeachment do presidente Andrew Johnson em 1868, atuando como um dos gerentes da acusação. Boutwell entendia que Johnson obstaculizava a Reconstrução do Sul e os direitos dos cidadãos negros libertos, e conduziu o processo com determinação. Embora Johnson tenha sido absolvido por apenas um voto no Senado, o esforço legislativo não parou por aí.
Como representante federal, Boutwell foi fundamental na criação e aprovação da Décima Quarta e da Décima Quinta Emendas à Constituição dos Estados Unidos. A Décima Quarta garantiu a cidadania e igual proteção legal aos nascidos ou naturalizados nos Estados Unidos, incluindo os ex-escravos. A Décima Quinta assegurou que o direito de voto não poderia ser negado com base em raça, cor ou condição anterior de servidão. Eram pilares da Reconstrução, e Boutwell investiu o seu prestígio político para aprová-las.
Em 1869, o presidente Ulysses S. Grant nomeou Boutwell Secretário do Tesouro, cargo que exigia mão firme diante do caos financeiro deixado pela Guerra Civil. Boutwell promoveu reformas estruturais no Departamento do Tesouro e adotou uma estratégia controversa de redução da dívida nacional vendendo ouro do Tesouro e usando os dólares obtidos para recomprar títulos do governo, um mecanismo que criou certa escassez de caixa na economia. Mais dramático ainda foi o episódio de setembro de 1869: os especuladores Jay Gould e James Fisk tentaram monopolizar o mercado de ouro em um episódio que ficaria conhecido como "Sexta-Feira Negra". Boutwell e Grant frustraram o esquema liberando quatro milhões de dólares em ouro para o mercado, interrompendo a tentativa de manipulação.
Após o Tesouro, Boutwell foi eleito senador por Massachusetts e apoiou a Lei dos Direitos Civis de 1875, que buscava garantir igualdade de acesso a espaços públicos independentemente de raça. Em 1877, o presidente Rutherford B. Hayes o nomeou comissário para codificar os Estatutos Revisados dos Estados Unidos, e em 1880 como consultor perante a Comissão de Reivindicações Francesa e Americana, consolidando sua reputação no direito internacional.
A guinada final na vida de Boutwell veio na virada do século XX. Em desacordo com a política imperialista do Partido Republicano, ele abandonou a legenda que ajudara a fundar e se opôs publicamente à aquisição das Filipinas pelos Estados Unidos após a guerra hispano-americana. Apoiou William Jennings Bryan à presidência e tornou-se uma voz contra o expansionismo americano além-mar. George S. Boutwell morreu em 27 de fevereiro de 1905, aos 87 anos, deixando um legado que atravessa a abolição da escravidão, a Reconstrução, as emendas constitucionais e a reforma financeira, numa vida pública que começou descalço numa fazenda em Massachusetts.
