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Conselho de Nablus

O Conselho de Nablus era um conselho de senhores eclesiásticos e seculares no reino cruzad

8 min01/01/2024
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No dia 16 de janeiro de 1120, numa cidade situada nas montanhas da Samaria, uma assembleia incomum reuniu os principais senhores do ainda jovem reino cruzado de Jerusalém. Convocados pelo Patriarca Warmund de Jerusalém e pelo rei Balduíno II, eclesiásticos de alto escalão e nobres do reino sentaram-se juntos para deliberar sobre questões que iam desde as obrigações do clero até os problemas morais e disciplinares que afligiam a sociedade do reino latino. O resultado foram vinte e cinco cânones que representam o mais antigo conjunto de leis escritas produzido pelos estados cruzados do Levante.

Para entender a convocação do Conselho de Nablus é necessário ter em mente o contexto em que o reino de Jerusalém se encontrava em 1120. Criado após a Primeira Cruzada, que culminou com a conquista da Cidade Santa em 1099, o reino enfrentava desafios existenciais permanentes: a pressão militar dos estados muçulmanos vizinhos, a escassez de população colonizadora europeia, a dificuldade de administrar um território multiétnico e multirreligioso com recursos limitados. Os documentos introdutórios dos cânones aprovados no conselho explicitam uma interpretação providencialista dos problemas da época: durante quatro anos consecutivos, o reino havia sido assolado por pragas de gafanhotos e infestações de ratos, enquanto os estados cruzados sofriam ataques frequentes dos muçulmanos. A leitura dominante era de que esses infortúnios constituíam punição divina pelos pecados do povo, que precisavam ser corrigidos para que a prosperidade pudesse retornar.

Do ponto de vista institucional, a natureza do Conselho de Nablus é objeto de debate entre os historiadores medievais. Ele não era propriamente um concílio eclesiástico no sentido estrito do termo, com a convocação formal e os procedimentos canônicos que tal definição implicaria. Tratava-se antes de uma reunião da corte real, de um encontro entre o poder secular e o poder religioso do reino. O historiador Hans Mayer argumentou que a natureza predominantemente religiosa de muitos dos cânones aprovados permite classificá-lo simultaneamente como sínodo parlamentar e como sínodo eclesiástico. O acordo firmado nessa ocasião entre o patriarca e o rei foi comparado por alguns estudiosos a uma concordata, semelhante à Concordata de Worms, o acordo que regularia as relações entre o papado e o Sacro Império Romano-Germânico apenas dois anos depois, em 1122.

Entre os aspectos mais significativos do que foi decidido em Nablus está a crença, apoiada em fortes indícios históricos, de que foi nessa reunião que Hugo de Payens recebeu do rei Balduíno II e do patriarca Warmund a autorização para fundar a Ordem dos Cavaleiros Templários. Essa ordem religiosa militar, que teria um papel central na história das Cruzadas durante os dois séculos seguintes e cuja lenda sobreviveu por muito mais tempo, teria nascido portanto num contexto de reflexão sobre os problemas morais e defensivos do reino. As fontes sobre esse aspecto específico do Conselho, no entanto, são fragmentárias e sujeitas a interpretações divergentes.

A ausência de registros coevos confiáveis é uma das características mais intrigantes do Conselho de Nablus. Fulquério de Chartres, cronista que servia no séquito do rei e que provavelmente esteve presente em Nablus, não mencionou o evento em sua crônica, silêncio que os historiadores tentaram explicar de diversas formas. Guilherme de Tiro, escrevendo cerca de sessenta anos após os acontecimentos, deixou um relato detalhado dos procedimentos do conselho, mas omitiu deliberadamente o conteúdo dos cânones aprovados, justificando que eles eram bem conhecidos e podiam ser encontrados em qualquer igreja local da região. Essa justificativa, ao mesmo tempo que comprova que os documentos eram amplamente conhecidos no século XII, dificulta enormemente o trabalho dos historiadores modernos.

A sobrevivência dos cânones ao longo dos séculos é em si uma história notável. Após a reconquista muçulmana do reino de Jerusalém no final do século XII, apenas uma cópia parece ter escapado, localizada numa igreja em Sídon. Esse documento chegou à Europa, percorreu um caminho obscuro por monastérios e chancelarias, e foi finalmente catalogado na biblioteca papal de Avinhão em 1330. Hoje se encontra na Biblioteca do Vaticano, identificado como MS Vat. Lat. 1345. O erudito Giovanni Domenico Mansi editou o texto no século XVIII dentro de sua monumental coleção dedicada aos concílios eclesiásticos. Uma edição crítica moderna foi publicada pelo medievalista Benjamin Z. Kedar na revista especializada Speculum, em 1999, no volume 74. Kedar demonstrou que os cânones foram amplamente inspirados no Ecloga, código legal promulgado pelo imperador Leão III e seu filho Constantino V em Bizâncio no ano 741.

A questão sobre se esses cânones foram efetivamente aplicados no século XII gerou controvérsia acadêmica. Kedar defende que sim, argumentando que há indícios de sua aplicação prática na administração do reino. Marwan Nader discorda, apontando que os cânones não foram incorporados ao Livre des Assises de la Cour des Bourgeois nem a outros textos jurídicos produzidos nos séculos seguintes no reino, o que sugeriria que eles permaneceram como declaração de intenções sem grande peso prático. O debate ilustra bem os limites do conhecimento que os documentos medievais permitem alcançar sobre as realidades da vida no Oriente Latino do século XII.

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