No contexto tumultuado do final do século XVI, quando Portugal e Espanha formavam a União Ibérica e a Inglaterra buscava ampliar sua presença nos oceanos, aconteceu um combate naval de dimensões relativamente modestas, mas com implicações estratégicas significativas. A Batalha de São Vicente, travada em 3 de fevereiro de 1583 ao largo da costa brasileira, foi um dos episódios mais inusitados da Guerra Anglo-Espanhola, digno de nota tanto pela coragem dos combatentes ingleses quanto pelas circunstâncias que levaram a um confronto noturno regado pelo luar.
A história começa em junho de 1582, quando uma expedição inglesa zarpou com a missão de alcançar o Mar da China Meridional pelo Cabo da Boa Esperança. O comandante era o capitão Edward Fenton, e sua nave capitânia era o galeão Leicester, uma embarcação de 400 toneladas. O segundo no comando era Sir William Hawkins Jr., sobrinho do famoso Sir John Hawkins. A frota incluía ainda o galeão Edward Bonaventure de 300 toneladas, sob o comando de Luke Warde, a pinaça Elizabeth, comandada por Thomas Skevington, e a barca Francis de 40 toneladas, sob o comando de John Drake, sobrinho de Sir Francis Drake. O capelão da frota, Richard Madox, registrou os acontecimentos em um diário que se tornaria fonte histórica preciosa.
Os problemas começaram cedo. Em 11 de dezembro de 1582, Fenton chegou às costas do Brasil português com o plano original já alterado, pensando agora em cruzar pelo Estreito de Magalhães. Em 17 de dezembro, a frota capturou a barca espanhola Nuestra Señora de Piedad, de 46 toneladas, e pelos prisioneiros soube que Pedro Sarmiento de Gamboa havia partido do Rio de Janeiro para fortalecer as defesas no Estreito de Magalhães. Três dias depois, os ingleses libertaram os capturados, mas na virada do ano a incerteza tomou conta da expedição. Fenton, após acalorada discussão com Hawkins, decidiu abandonar a rota sul e rumou para norte, em direção a São Vicente, esperando estabelecer comércio com os colonos portugueses. Nessa mesma noite, uma tempestade dispersou os navios e o Francis, com John Drake e dezoito homens, desapareceu para sempre.
Em 30 de janeiro de 1583, Fenton chegou à baía de São Vicente com o Leicester, o Edward Bonaventure e a Elizabeth. Tentou negociar com os portugueses de Santos, mas estes recusaram qualquer comércio, pois a Espanha, à qual Portugal estava unida pela União Ibérica desde 1580, reagiria com hostilidade a qualquer trato com ingleses.
A noite de 3 de fevereiro trouxe a confrontação que ninguém havia planejado, mas que a geopolítica tornara inevitável. Três galeões espanhóis entraram na baía: o San Juan Bautista, de 500 toneladas, o Santa María de Begoña, de 400 toneladas, e o Concepción, de 300 toneladas. Eles haviam sido destacados da frota de Diego Flores Valdez na Ilha de Santa Catarina e sabiam da presença inglesa porque alcançaram a Piedad, que os ingleses haviam anteriormente liberado. O comodoro Andrés de Equino comandava os espanhóis, que carregavam doentes e feridos da expedição de Sarmiento.
Às 23 horas, sob a luz do luar, Equino ordenou o ataque. Os ingleses foram pegos de surpresa, com muitos dos homens ainda em terra, mas se reposicionaram rapidamente, ancorando em sete braças de água perto de um banco de areia. As táticas divergiam: os espanhóis apostavam em aproximar-se e abordar os navios inimigos corpo a corpo, enquanto os ingleses preferiam o uso pesado de artilharia para manter distância e castigar o adversário.
O Leicester abriu fogo pesado ao primeiro contato, repelindo os espanhóis. Quando estes tentaram contornar o navio capitânia e atacar o Edward Bonaventure, foram novamente rechaçados pelo canhoneio inglês. O combate continuou por horas, com os ingleses mantendo suas posições, até que por volta das quatro da manhã uma tempestade interrompeu a batalha. Ambos os lados se retiraram para fazer reparos e reunir os homens dispersos em terra, sem que nenhuma das partes soubesse exatamente os danos causados ao adversário.
Com o amanhecer, a dimensão da vitória inglesa se revelou: o galeão espanhol Begoña havia afundado, com apenas os mastros visíveis em águas rasas. Às dez da manhã, os dois galeões restantes de Equino tentaram um novo ataque, mas foram uma vez mais repelidos. Sem munição suficiente e com as baixas se acumulando, os espanhóis abandonaram definitivamente o combate e recuaram em direção a Santos.
O saldo da batalha foi expressivamente favorável aos ingleses: apenas oito mortos e vinte feridos, com danos moderados nas embarcações. Do lado espanhol, o naufrágio do Begoña custou a vida de 32 homens, e o Concepción sofreu danos severos, elevando o total de baixas espanholas a cerca de uma centena de mortos e muitos mais feridos, segundo relatos de um indígena que embarcou no Leicester.
Apesar da vitória militar, Fenton não conseguiu o objetivo da expedição. Tentou estabelecer comércio em São Vicente e depois no Espírito Santo, mas os portugueses mantiveram a recusa. Sem suprimentos e com conflitos internos com Hawkins, o capitão decidiu retornar à Inglaterra. Assim, a batalha ficou como um episódio isolado, uma vitória sem frutos comerciais. Fontes espanholas argumentam que, mesmo derrotado, a ação de Equino foi fundamental para impedir a penetração inglesa em territórios ibéricos, e esse debate sobre os desdobramentos estratégicos da batalha persiste entre os historiadores.