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Zhou Youguang

Zhou Youguang (chinês: 周有光; nascido Zhou Yaoping; Changzhou, 13 de janeiro de 1906 — Pequi

4 min01/01/2024
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Zhou Youguang nasceu em Changzhou, na província de Jiangsu, em 13 de janeiro de 1906, com o nome de Zhou Yaoping. Cresceu numa China que vivia a transição turbulenta entre o mundo imperial e a modernidade republicana, e sua trajetória de vida acompanhou quase todas as grandes transformações do país ao longo do século vinte, tornando-se ele próprio um agente de mudança que deixaria marca permanente na forma como o mundo se comunica com a língua chinesa.

Em 1923, ingressou na St. John's University de Xangai, onde se dedicou à economia e fez um curso complementar em linguística. Quando o Movimento de 13 de maio de 1925 eclodiu, interrompendo os trabalhos na universidade, Zhou transferiu-se para a Guanghua University, onde concluiu sua formação em 1927. A experiência com a linguística na St. John's seria um germe que só floresceria décadas depois, numa circunstância que o próprio Zhou jamais poderia ter antecipado quando era estudante.

Após a graduação, construiu uma carreira convencional como economista, trabalhando em bancos em diversas cidades, incluindo Nova Iorque, onde viveu por algum tempo como economista. Quando a República Popular da China foi proclamada em 1949, Zhou retornou a Xangai, integrando-se ao novo regime sem imaginar que sua trajetória profissional estava prestes a mudar radicalmente.

Em 1955, o governo chinês convidou Zhou, então um economista de prestígio, para liderar um comitê com uma tarefa aparentemente modesta mas de enorme alcance prático: desenvolver um sistema de romanização para a língua chinesa que pudesse servir de guia de pronúncia e contribuir para o aumento do índice de alfabetização do país. Outros comitês trabalhavam em paralelo na padronização do mandarim como língua nacional e na criação dos caracteres do chinês simplificado. O comitê de Zhou tinha a missão de criar uma ponte entre a escrita chinesa e o alfabeto latino.

O trabalho foi lento, minucioso e exigiu dedicação integral por cerca de três anos. Zhou precisou analisar sistemas anteriores de romanização do chinês, como o Wade-Giles, e construir uma solução que fosse ao mesmo tempo fiel à fonética do mandarim e acessível a falantes de outros idiomas. O resultado foi o Pinyin, oficialmente adotado como sistema de romanização da República Popular da China em 1958. O próprio Zhou costumava minimizar o feito, dizendo que o trabalho tinha sido coletivo, mas o mundo o reconhece como o pai do Pinyin.

O Pinyin transformou radicalmente a relação entre a língua chinesa e o resto do mundo. Tornou possível que estudantes de mandarim em qualquer país aprendessem a pronúncia correta dos caracteres chineses sem depender de sistemas irregulares ou contraditórios. Facilitou o ensino de leitura para falantes nativos e serviu como base para a entrada de caracteres chineses em computadores e telefones celulares, aplicação que Zhou jamais poderia ter imaginado mas que se tornaria uma das mais importantes do sistema.

A Revolução Cultural, iniciada em 1966, interrompeu brutalmente a vida intelectual de Zhou. Como tantos outros intelectuais da época, foi enviado ao interior do país para ser reeducado, passando dois anos num campo de trabalho. O período foi de privação e humilhação, mas Zhou sobreviveu à experiência e retomou sua vida acadêmica após o fim da Revolução Cultural.

A partir de 1980, Zhou embarcou num projeto de enorme ambição: participou, ao lado de Liu Zunqi e Chien Wei-zang, da tradução da Encyclopaedia Britannica para o chinês. O empreendimento lhe rendeu o apelido de Enciclopédia Zhou. Mas sua produção intelectual não parou por aí: continuou publicando livros e artigos até uma idade avançadíssima, explorando temas de linguística, história da escrita e reforma política. Seu livro sobre a evolução histórica das línguas e escritas chinesas foi traduzido para o inglês em 2003.

Na última fase de sua vida, Zhou tornou-se uma voz crescentemente crítica em relação ao Partido Comunista Chinês. Defendia a reforma política e questionava publicamente o que considerava os ataques do partido à cultura tradicional chinesa desde a tomada do poder. Alguns de seus livros publicados após os 100 anos foram censurados e banidos pelo governo, o que paradoxalmente aumentou sua reputação como intelectual independente e corajoso.

No plano pessoal, Zhou foi casado com Zhang Yunhe de 30 de abril de 1933 até a morte dela em 14 de agosto de 2002, um casamento de 69 anos e 106 dias que ele descrevia com grande afeto. O casal teve dois filhos: uma filha, Zhou Xiaohe, nascida em 1935 e falecida em 1941 aos seis anos de idade, e um filho, Zhou Xiaoping, nascido em 1934 e falecido aos 80 anos em 26 de janeiro de 2015. Zhou sobreviveu não apenas a sua esposa, mas também a seu único filho sobrevivente.

Em 13 de janeiro de 2016, Zhou Youguang tornou-se supercentenário ao completar 110 anos. Continuava lúcido, publicando textos e recebendo entrevistadores com disposição notável. Faleceu em Pequim no dia 14 de janeiro de 2017, um dia após completar 111 anos, num apartamento onde vivia com sua família. Ao longo da vida escreveu mais de 40 livros, mais de dez deles publicados após os 100 anos.

O legado de Zhou Youguang é difícil de dimensionar em sua totalidade. O Pinyin está presente em cada teclado que digita caracteres chineses, em cada livro didático de mandarim no mundo, em cada placa de rua nas cidades da China, nas sinalizações do metrô de Xangai e Pequim que turistas do mundo inteiro utilizam para se orientar. É uma das invenções linguísticas mais práticas do século vinte, e Zhou a criou com humildade, rigor e uma mente que permaneceu ativa por mais de um século.

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