guerras

Victoriano Huerta

Presidente do México de 1913 a 1914

4 min01/01/2024
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José Victoriano Huerta Márquez chegou ao mundo em 22 de dezembro de 1850, no rancho de Agua Gorda, no município de Colotlán, no estado de Jalisco, México. Filho de Jesús Huerta e Refugio Márquez, carregava em seu sangue a herança do povo huichol, comunidade indígena dos Andes ocidentais mexicanos conhecida por sua resistência e espiritualidade profunda. Poucos destinos poderiam parecer mais distantes do poder nacional do que aquele rancho isolado no semiárido jalisciense, mas a história reservaria a Huerta um caminho tortuoso e sombrio até o coração da Revolução Mexicana.

O ponto de inflexão na vida do jovem Huerta ocorreu aos quinze anos. O general Donato Guerra visitou Colotlán em busca de um secretário particular, e o adolescente se apresentou para o cargo. A decisão foi providencial: em troca dos serviços prestados, Huerta conseguiu uma vaga no Colégio Militar, instituição que moldaria sua identidade, seus valores e sua visão de mundo para o restante da vida. Lá, seu desempenho foi notável o suficiente para garantir uma posição no Corpo de Engenheiros após a formatura, corpo de elite do exército mexicano da época do Porfiriato.

Os primeiros anos na carreira militar foram marcados por trabalhos topográficos nas regiões de Puebla e Veracruz, atividade que exigia rigor técnico e adaptação a terrenos adversos. Foi durante esse período que conheceu Emilia Águila, com quem se casaria e formaria uma família de onze filhos. A vida doméstica, contudo, jamais concorreu seriamente com a ambição militar que crescia dentro de Huerta a cada campanha, a cada promoção, a cada conflito que o Estado mexicano precisava sufocar pela força das armas.

No contexto da Revolução Mexicana, que explodiu em 1910 derrubando décadas de poder de Porfirio Díaz, Huerta emergiu como um general eficiente e impiedoso. Serviu ao presidente Francisco Madero como comandante de tropas em diferentes frentes, combatendo tanto insurreições internas quanto dissidências regionais. Ganhou fama como homem capaz de resolver problemas militares com rapidez e brutalidade calculada. Contava, naquele momento, com o respaldo do governo norte-americano, que via em sua eficiência um garantidor da ordem que protegeria os investimentos estrangeiros no México.

O relacionamento com os Estados Unidos, porém, azedou de forma determinante. Ao favorecer interesses capitalistas britânicos em detrimento dos norte-americanos, Huerta perdeu o apoio crucial do presidente Woodrow Wilson, que havia chegado à Casa Branca em 1913 com uma visão mais moralizante da política externa. A resposta de Washington foi implacável: um embargo à venda de munições ao México, medida que golpeou diretamente a capacidade operacional das forças federais que Huerta comandava ou pretendia controlar.

O episódio que lançou Huerta definitivamente ao centro da história mexicana foi a Decena Trágica, dez dias de combates no coração da Cidade do México em fevereiro de 1913. Naquele sangrento episódio, Huerta traiu o presidente Madero que lhe confiara o comando das tropas legalistas, articulando um golpe de Estado em conluio com Félix Díaz, sobrinho do ex-ditador, e com o aval do embaixador norte-americano Henry Lane Wilson, que agiu por conta própria e em contradição com a política oficial de Washington. Madero foi preso, forçado a renunciar e posteriormente assassinado, num crime que mancharia para sempre o período huertista.

O governo que Huerta instalou a partir de fevereiro de 1913 foi caracterizado por repressão sistemática, assassinatos políticos e um autoritarismo sem disfarces. A resistência cresceu rapidamente. Venustiano Carranza, governador de Coahuila, recusou reconhecer a legitimidade do novo regime e levantou o Plano de Guadalupe, declarando guerra ao usurpador. Pancho Villa, com suas temidas divisões do norte, e Emiliano Zapata, com os agraristas do sul, também empunharam as armas contra Huerta. A combinação de pressão militar interna e isolamento internacional formou uma pinça que foi se fechando inexoravelmente sobre o governo.

A situação deteriorou-se ao longo de 1913 e 1914. Sem munição suficiente, sem apoio diplomático e enfrentando exércitos constitucionalmente motivados em várias frentes, Huerta viu suas opções se estreitarem. Em 15 de julho de 1914, formalizou a renúncia à presidência e abandonou o México, encerrando um governo que durou pouco mais de um ano, mas deixou marcas profundas na memória do país. Menos de um mês depois, em 14 de agosto de 1914, pelo Tratado de Teoloyucán, as forças federais que haviam servido sob seu comando se renderam formalmente aos constitucionalistas, varrendo os últimos resquícios do aparato militar huertista.

Victoriano Huerta morreu em 13 de janeiro de 1916, em El Paso, nos Estados Unidos, sem jamais ter pisado novamente no México como homem livre. Tinha 65 anos. Sua passagem pela presidência foi breve, violenta e diplomaticamente desastrosa, um capítulo que a historiografia mexicana costuma classificar como a traição mais grave sofrida pela jovem democracia que Madero tentara construir. O legado de Huerta é o de um militar competente que escolheu o poder pelo caminho mais tortuoso e pagou com o exílio e a morte o preço daquela escolha.

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