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Sismo dos Açores de 1980

Sismo ocorrido nós Açores em 1980

6 min01/01/2024
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O ano de 1980 começou com tragédia para os Açores. No primeiro dia de janeiro, quando grande parte do mundo ainda celebrava a chegada do ano novo, um violento abalo sísmico sacudiu o arquipélago português no meio do Atlântico, deixando um rastro de destruição que marcaria profundamente a história da região. O sismo, registrado com magnitude 7,2 na escala de Richter, irrompia às 15h42 no horário local, surpreendendo moradores em suas casas, igrejas e nas ruas durante as comemorações festivas.

O epicentro do tremor foi localizado no mar, entre as ilhas Terceira e São Jorge, com profundidade focal estimada em dez quilômetros. Apesar de a sacudida ter sido sentida em praticamente todo o arquipélago, as ilhas das Flores e do Corvo ficaram poupadas dos seus efeitos diretos. A posição geográfica dos Açores explica parcialmente a frequência e intensidade dos abalos na região: o arquipélago está assentado sobre uma das zonas tectonicamente mais ativas do planeta, situado na junção das placas euro-asiática e africana, às margens da cordilheira mesoatlântica, onde os Açores formam sua própria microplaca.

A atividade sísmica não era novidade para os ilhéus. Décadas antes, outro grande sismo havia golpeado a região, e a memória coletiva dos açorianos guarda registros de tremores desde o século XVI. Na ilha Terceira, a mais afetada de todas, os terremotos destrutivos são documentados ao longo dos séculos: os de 1547, 1614 e 1841 são lembrados como episódios de grande devastação. O abalo de 1980 seria o mais intenso desde aquele ocorrido três décadas antes, retomando uma cadência perturbadora de destruição.

Os danos nas ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa foram imensos. Na Terceira, a mais populosa das três e a mais castigada pelo sismo, relatos locais indicavam que aproximadamente 70% das habitações haviam sido demolidas ou tornadas inabitáveis. O centro histórico de Angra do Heroísmo, a cidade mais importante do arquipélago e futura Patrimônio da Humanidade, foi duramente atingido. Edifícios que resistiram séculos de história desabaram em poucos segundos, soterando a arquitetura colonial portuguesa sob toneladas de entulho.

Os prédios públicos de caráter governamental resistiram melhor à violência do abalo, mas as igrejas, verdadeiros símbolos da identidade açoriana, sofreram danos significativos. Algumas ruíram parcialmente; outras permaneceram de pé, mas com as estruturas comprometidas. Os serviços essenciais foram interrompidos em várias localidades: o fornecimento de eletricidade e de água potável ficou cortado, complicando ainda mais o socorro às vítimas. Danos menores foram registrados nas ilhas do Pico e do Faial, que também sentiram o tremor.

O saldo humano foi pesado. O número de mortes foi sendo revisado nos dias seguintes, começando em 52, depois chegando a 61 e finalmente fixando-se em 73 vítimas fatais. Os feridos ultrapassaram 400 pessoas, e pelo menos 20 mil moradores ficaram sem teto, forçados a abandonar suas casas destruídas ou ameaçadas de colapso. A Base Aérea das Lajes, que abrigava contingentes da Força Aérea Portuguesa, de um destacamento da Força Aérea dos Estados Unidos e, naquela época, de um destacamento da Marinha americana, teve danos mínimos e não registrou baixas humanas.

A resposta ao desastre foi imediata. O presidente da República Portuguesa, António Ramalho Eanes, anunciou três dias de luto nacional e voou pessoalmente até o arquipélago, acompanhado por médicos e suprimentos. A Força Aérea Portuguesa colocou seus recursos à disposição para transportar mantimentos e pessoal de saúde. A corveta João Coutinho, da Marinha Portuguesa, deslocou médicos para os locais mais afetados. As forças americanas sediadas nas Lajes também se engajaram no socorro, abrigando mais de 150 famílias desalojadas.

Na ilha, bombeiros, policiais da PSP, agentes da Guarda Fiscal e soldados do Regimento de Infantaria de Angra do Heroísmo trabalharam incansavelmente para abrir caminhos entre os escombros, resgatar sobreviventes soterrados e restabelecer rotas para os veículos de socorro. Tendas foram erguidas para abrigar cerca de 200 famílias que haviam perdido suas casas. Pouco depois, o projeto People to People International contribuiu com a construção de casas portáteis, proporcionando mais cem abrigos provisórios.

Após as operações de emergência, o foco voltou-se para a compreensão científica do evento. Dezenove estações sismográficas foram instaladas na região para monitorar a atividade sísmica residual: onze delas dedicadas exclusivamente à vigilância de tremores, e outras oito voltadas também para o estudo das áreas geotérmicas do arquipélago. As réplicas do sismo foram acompanhadas de perto, e pesquisadores começaram a analisar a deformação crustal que havia originado o abalo principal.

As investigações científicas posteriores revelaram que o movimento ocorreu ao longo de uma falha tectônica, com características similares a sismos anteriores da região. Estudos identificaram o papel do plano nodal e do corte do lado direito nessa estrutura geológica. Uma das conclusões mais relevantes apontou que o vulcanismo açoriano é, em grande parte, controlado pelo movimento sísmico da região, numa dinâmica de retroalimentação entre os processos geológicos profundos e a superfície habitada.

Análises posteriores, como as realizadas por pesquisadores açorianos na primeira década do século XXI, identificaram fatores estruturais que agravaram os danos. Edifícios construídos próximos a linhas de falha, sobre solos instáveis e sem obedecer a padrões adequados de engenharia, foram os mais afetados. A ausência de fiscalização pós-construção e a fragilidade de muitos imóveis residenciais contribuíram para o colapso de cerca de doze mil infraestruturas. O levantamento deixou clara a necessidade de reformular as normas construtivas no arquipélago.

O sismo teve também consequências demográficas duradouras. Centenas de ilhéus, abalados pela destruição de seus lares e pela incerteza de viver em uma região sismicamente ativa, decidiram emigrar para os Estados Unidos, país com o qual os Açores mantêm fortes laços históricos e comunitários. Essa onda migratória adicionou-se a fluxos anteriores, reforçando as comunidades açorianas que já existiam em cidades como Boston e Nova Bedford.

O sismo de 1980 deixou marcas indeléveis na memória coletiva açoriana e impulsionou avanços significativos no campo da geofísica aplicada à região. A reconstrução de Angra do Heroísmo, feita com rigor histórico e respeito ao patrimônio arquitetônico, permitiu que a cidade viesse a ser reconhecida pela UNESCO. O desastre de primeiro de janeiro tornou-se um divisor de águas na política de gestão de riscos sísmicos em Portugal, demonstrando a urgência de unir conhecimento científico, planejamento urbano e preparação civil para enfrentar a natureza imprevisível do solo açoriano.

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