tragedias

Sismo do Friul em 1348

O terremoto de 25 de janeiro de 1348, na região alpina meridional do Friul, foi sentido em

4 min01/01/2024
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Em 25 de janeiro de 1348, enquanto a Europa mergulhava em um dos períodos mais sombrios de sua história, a terra estremeceu com violência na região alpina meridional do Friul, no norte da Itália. O sismo não foi apenas um evento geológico de grande magnitude: ocorreu no exato momento em que a Peste Negra começava a devastar o continente, e a coincidência entre catástrofe natural e epidemia mortal criou na mentalidade medieval uma percepção de apocalipse iminente que moldou profundamente a reação das populações atingidas.

O epicentro do terremoto estava localizado a leste de Tolmezzo, nas proximidades de Venzone e Gemona, na moderna região italiana do Friul-Veneza Júlia. A intensidade sísmica foi avaliada entre oito e nove na Escala Macrossísmica Europeia, o que corresponde a aproximadamente 6,9 na Escala Richter, números que indicam um evento de grande poder destrutivo, capaz de derrubar edifícios e alterar a paisagem de regiões inteiras. O tremor principal começou no início da tarde, e choques secundários continuaram a ser sentidos até 5 de março daquele ano.

A área diretamente afetada foi extensa. Na moderna região do Friul-Veneza Júlia, igrejas e casas desabaram, vilas foram destruídas e das fissuras abertas na terra emanava um odor pestilento que, para as pessoas da época, soava como confirmação de que o próprio solo havia sido corrompido por alguma maldição divina. As províncias vizinhas de Belluno, Vicenza e Verona também sofreram danos consideráveis, assim como a Lombardia e a cidade de Veneza. O efeito do terremoto se estendeu até Pisa e Nápoles no sul e alcançou o Ducado da Caríntia, na atual Áustria, e a região da Carniola, na atual Eslovênia, ao norte e a leste.

Em Udine, que era um dos centros urbanos mais importantes da região, o castelo e a catedral sofreram danos severos. Na Caríntia, a cidade de Villach e diversas aldeias vizinhas foram praticamente varridas do mapa por um enorme deslizamento de terra seguido de uma enchente do Rio Gail, que inundou os vales já devastados pelo tremor. Até em Roma, distante centenas de quilômetros do epicentro, algumas fontes da época relatam que o terremoto causou danos na Basílica de Santa Maria Maior e na Torre delle Milizie, cujo andar superior desabou e cuja estrutura assumiu a leve inclinação que permanece visível ainda hoje. A basílica de Santi Apostoli, construída no século VI, ficou tão severamente danificada que foi abandonada por uma geração inteira.

O que torna o Sismo do Friul de 1348 particularmente fascinante para os historiadores é o momento em que ocorreu. A Peste Negra estava chegando à Itália, trazida pelas rotas comerciais, e já causava mortes em cidades do Mediterrâneo. Na mentalidade religiosa medieval, desastres naturais e epidemias eram lidos como sinais de punição divina, Atos de Deus que exprimiam a ira celeste diante dos pecados humanos. O historiador da medicina A. G. Carmichael observou que o terremoto de 25 de janeiro de 1348 provavelmente alimentou e focalizou medos especificamente apocalípticos com maior força do que a própria peste, porque sua suddenness e violência material tornavam inegável a fragilidade da existência humana diante das forças da natureza.

A documentação histórica sobre o evento é surpreendentemente rica para os padrões medievais. A freira germânica Christina Ebner registrou o terremoto em seu diário. Diversas crônicas municipais e abaciais de cidades e mosteiros da região descreveram o evento com detalhes que permitem aos historiadores modernos traçar a extensão dos danos e a sequência dos choques. Essa abundância de fontes tornou o que os pesquisadores chamam de evento do Friul um dos terremotos medievais mais estudados da história, oferecendo uma janela rara para a experiência vivida de um desastre natural antes da era dos registros sismológicos instrumentais.

As fontes descrevem não apenas destruição material, mas também o odor que emanava do solo após o terremoto, possivelmente proveniente de gases liberados pelas fissuras abertas no subsolo. Para os sobreviventes medievais, esse fedor confirmava a percepção de que a terra havia sido tocada por forças malignas, fundindo o sobrenatural com o geológico numa experiência de pavor total. Curiosamente, enquanto a Peste Negra era aceita como algo tremendo mas ainda dentro dos parâmetros da vida cotidiana, o terremoto parecia vir de fora da ordem natural do mundo, tornando-o ainda mais aterrorizante.

O Sismo do Friul de 1348 é hoje lembrado como um dos grandes desastres da Idade Média europeia, e a história da região de Venzone, cujas muralhas medievais precisaram ser reconstruídas após o abalo, lembra aos visitantes que o solo das Alpes guarda em si a memória de uma convulsão que, há mais de seis séculos, abalou uma Europa já às vésperas de uma de suas maiores catástrofes humanas.

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