Marli Bortoletto nasceu em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, em 16 de janeiro de 1959, numa cidade marcada pela efervescência industrial e operária que moldou boa parte da história social do Brasil. Desde muito cedo, no entanto, o que a atraía não eram as fábricas ou as greves que agitavam aquele cenário — eram os palcos e os microfones. Aos dezesseis anos, ainda adolescente, ela já havia dado seus primeiros passos no teatro, participando de peças que a ajudaram a descobrir o alcance de sua voz e o prazer de habitar personagens.
A vocação para as artes cênicas levou Marli a uma carreira que combinou teatro, televisão e, sobretudo, dublagem. Foi nessa última área que ela construiu sua reputação mais duradoura. Com vinte e dois anos de idade, recebeu o convite que definiria para sempre seu lugar na memória coletiva do público infantil brasileiro: foi escalada para interpretar Mônica em peças de teatro, dando voz e presença física à personagem mais famosa criada pelo cartunista Mauricio de Sousa. A menina aguerrida dos dentes grandes e do coelho de pelúcia, criada nas histórias em quadrinhos em 1963, ganhava assim uma nova dimensão através da performance ao vivo.
A consagração definitiva viria em 1983, quando Marli foi convidada para participar do filme "A Princesa e o Robô". A experiência no cinema animado a lançou diretamente para o posto de voz oficial da personagem nas séries animadas e nos longas-metragens da Turma da Mônica. Desde então, por décadas, cada vez que uma criança brasileira ouvia a Mônica falar nas telas — seja na televisão, seja no cinema —, era a voz de Marli Bortoletto que ecoava. Essa identificação entre intérprete e personagem é rara no universo da dublagem, onde o anonimato frequentemente prevalece, e faz de Marli uma das dubladores mais reconhecidas do Brasil.
Mas o trabalho de Marli foi muito além dos quadrinhos de Mauricio de Sousa. No universo dos animes japoneses, dois papéis a colocaram em destaque entre os fãs de animação. O primeiro foi Sailor Moon, a guerreira lunar protagonista da série de mesmo nome que conquistou gerações de crianças e adolescentes nos anos 1990. A voz de Marli emprestou à personagem uma combinação de suavidade e determinação que contribuiu enormemente para o sucesso da série no Brasil. O segundo papel marcante foi Hilda de Polaris, em "Os Cavaleiros do Zodíaco", anime que se tornaria um fenômeno cultural. A interpretação de Hilda lhe rendeu, em 2005, uma indicação ao Prêmio Yamato na categoria Melhor Dubladora de Coadjuvante.
No universo dos jogos eletrônicos, Marli também deixou sua marca ao dublar a personagem Fiora em "League of Legends", um dos jogos online mais jogados do mundo. A presença em diferentes plataformas — do teatro ao cinema, da televisão aos jogos — demonstra a versatilidade de uma artista que se reinventou continuamente sem jamais perder a essência de seu trabalho.
O legado de Marli Bortoletto está inscrito na infância de várias gerações brasileiras. Para quem cresceu ouvindo a Mônica defender o Limoeiro, a Hilda confrontar Átrias ou a Sailor Moon combater o mal, a voz que ficou gravada na memória tem nome e sobrenome. Poucas trajetórias no universo da dublagem brasileira conseguiram criar esse tipo de cumplicidade entre artista e público ao longo de décadas tão distintas. Marli é uma daquelas raridades: uma profissional que se tornou, ela própria, parte da mitologia dos personagens que interpretou.



