biografias

Harold Shipman

Médico e assassino em série britânico

5 min01/01/2024
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Harold Frederick Shipman nasceu em 14 de janeiro de 1946, em Nottingham, na Inglaterra, e viveu durante décadas sob a aparência de um médico dedicado e respeitado antes de ser revelado como um dos assassinos em série mais prolíficos da história conhecida. Seu apelido, Doutor Morte, resumia com crueldade a contradição entre sua profissão e seus atos.

Crescido em uma família de classe média trabalhadora, Shipman foi descrito como aluno brilhante no ensino primário, mas mediano no secundário, uma queda de desempenho que o frustrava profundamente. Incapaz de se destacar pelos estudos, virou-se para o atletismo, onde encontrou algum sucesso. No entanto, tendia ao isolamento, alimentando uma sensação de superioridade em relação aos colegas que não correspondia ao seu desempenho acadêmico real.

A relação com a morte entrou em sua vida ainda jovem, de forma perturbadora. Sua mãe, Vera Brittan, morreu de câncer de pulmão enquanto ele ainda era adolescente. Durante o longo processo de deterioração da doença, o jovem Harold ficava ao lado da mãe e observava as equipes médicas administrarem doses de morfina para aliviar a dor. Esse contato precoce com a substância e com o poder do médico sobre a vida e a morte marcaria profundamente sua psicologia.

Abalado pela perda, decidiu estudar medicina. Precisou ser reprovado duas vezes antes de conseguir entrar na Escola de Medicina de Leeds, onde se formou clínico geral em 1970. Em 1966, enquanto ainda frequentava a faculdade, casou-se com Primrose Shipman, com quem teria quatro filhos e que permaneceria ao seu lado até o fim, aparentemente sem saber da extensão de seus crimes. Primrose o apoiou do julgamento à sua morte.

Os primeiros sinais de problema surgiram logo no início da carreira. Em 1974 foi contratado num hospital em Yorkshire, onde uma enfermeira do pronto-socorro estranhou a prescrição de altas doses de petidina para os pacientes, substância que deveria ser reservada para casos de extrema necessidade. A investigação interna revelou que ele a receitava para desviá-la para uso próprio. Além da dependência química, descobriu-se que falsificava receitas e alterava diagnósticos. O resultado foi o afastamento da função e a obrigação de se tratar em uma clínica de reabilitação.

Em 1977, com surpreendente facilidade dado seu histórico, conseguiu novo emprego em Hyde, uma cidade tranquila próxima a Manchester. Ali, um agente funerário local chamado Frank Massey começou a notar padrões inquietantes nas mortes entre os pacientes de Shipman. A taxa de mortalidade era muito maior do que a média, as vítimas eram predominantemente mulheres idosas que viviam sozinhas, e as mortes ocorriam em circunstâncias que lembravam overdoses de morfina. Mas Shipman gozava de boa reputação na comunidade, e as suspeitas foram arquivadas sem maiores investigações.

Seu método era calculado para não levantar suspeitas. Escolhia preferencialmente pacientes idosos, muitos em situação de vulnerabilidade, aplicava doses letais de morfina e em seguida emitia ele mesmo os atestados de óbito, apontando causas diversas como morte natural. A combinação entre o prestígio médico, a vulnerabilidade das vítimas e a ausência de uma supervisão eficaz criou um ambiente ideal para que os crimes se repetissem por décadas.

O fim da impunidade veio em junho de 1998, quando ele matou Kathleen Grundy. Amigos foram verificar seu paradeiro, encontraram-na morta em circunstâncias inexplicáveis, pois ela era uma mulher saudável e ativa. O último contato conhecido com ela havia sido o próprio Shipman. Quando Angela Woodruff, filha da vítima, descobriu que a mãe havia alterado o testamento para incluir o médico como beneficiário de uma propriedade avaliada em cerca de quatrocentas mil libras, os alarmes finalmente soaram.

A investigação que se seguiu foi devastadora. Na casa de Shipman, policiais encontraram uma máquina de escrever usada para forjar testamentos e joias pertencentes a diversas vítimas. A revisão de outros óbitos revelou padrões consistentes de intoxicação por morfina com atestados falsificados. Em 31 de janeiro de 2000, Harold Shipman foi condenado à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional pelas mortes de quinze idosas, cometidas entre as décadas de 1970 e 1990. O juiz disse a ele no veredito que havia abusado da confiança de suas vítimas com frieza calculada e sem qualquer remorso.

Mas o número real de vítimas era muito maior. Estimativas policiais iniciais apontavam para 215 mortes, sendo 171 mulheres e 44 homens. Outros cálculos chegaram a mais de 250 vítimas ao longo dos anos. Entre novembro de 1994 e novembro de 1995, em apenas um ano, ele teria matado 27 pacientes. Um único edifício teve doze moradores entre suas vítimas. O caso levantou questões profundas sobre os mecanismos de fiscalização da classe médica britânica, e a Enciclopédia Britânica registrou que os assassinatos de Shipman levantaram questões preocupantes sobre poderes e responsabilidades dos médicos e sobre a adequação dos procedimentos para certificar mortes súbitas.

Em 13 de janeiro de 2004, véspera de seu quinquagésimo oitavo aniversário, Harold Shipman foi encontrado morto em sua cela na prisão de Wakefield. Havia se enforcado. Nunca admitiu os crimes, nunca demonstrou remorso e nunca deu qualquer explicação sobre suas motivações. O caso continuou a ser estudado por psicólogos, criminólogos e autoridades sanitárias como um exemplo perturbador de como um sistema inteiro pode falhar em detectar um predador escondido atrás de um jaleco branco.

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