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Henri Langlois

Henri Langlois (Esmirna, 13 de novembro de 1914 — Paris, 13 de janeiro de 1977) foi um ar

4 min01/01/2024
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Henri Langlois foi um homem que amou o cinema com uma paixão que desafiava qualquer limite prático, transformando esse amor numa das mais extraordinárias missões culturais do século XX. Nascido em Esmirna, na atual Turquia, em 13 de novembro de 1914, filho de um engenheiro francês, ele cresceu entre duas culturas e chegou a Paris com a sensação de que a cidade mais cinematográfica do mundo seria o palco natural de sua obsessão.

Desde jovem, Langlois foi devorado pela arte das imagens em movimento. Nos anos em que o cinema ainda era considerado por muitos como um entretenimento popular e efêmero, sem o status elevado das artes estabelecidas, ele já o enxergava como uma forma de expressão de valor histórico e artístico incomensurável, merecedora de ser preservada com o mesmo cuidado dedicado às obras de Rembrandt ou Shakespeare. Essa convicção seria o motor de tudo o que construiu.

Com apenas 20 anos, Langlois fundou um clube de cinema, dando os primeiros passos concretos na direção de sua vocação. A vida como jornalista lhe fornecia o sustento, mas seu verdadeiro trabalho era outro: reunir filmes, encontrar cópias, negociar com estúdios e com colecionadores particulares para salvar do esquecimento e da destruição obras que de outra forma teriam desaparecido para sempre. Em 1936, esses esforços tomaram forma institucional quando ele montou, ainda de maneira embrionária, o que seria a Cinemateca Francesa.

O crescimento da Cinemateca foi lento a princípio, como ele mesmo reconhecia. O projeto de colecionar filmes para preservá-los e torná-los acessíveis aos amantes do cinema enfrentava indiferença oficial e dificuldades financeiras permanentes. Mas Langlois tinha uma teimosia que beirava o fanatismo e uma rede de relacionamentos que lhe permitia conseguir filmes nos lugares mais improváveis. Com o tempo, a Cinemateca foi crescendo até se tornar uma das maiores e mais importantes arquivos cinematográficos do mundo.

A Segunda Guerra Mundial representou um período de enorme tensão e perigo para o acervo que Langlois vinha pacientemente reunindo. Com a ocupação nazista da França, filmes de autores judeus e obras consideradas subversivas corriam risco de confisco e destruição. Langlois trabalhou nos bastidores para esconder e proteger parte do acervo, um ato de resistência cultural que muitos compararam ao heroísmo dos que salvaram obras de arte e manuscritos durante o conflito.

No pós-guerra, a Cinemateca Francesa floresceu. Langlois transformou-a não apenas num arquivo, mas num espaço vivo de descoberta e formação cinematográfica. As sessões da Cinemateca tornaram-se lendárias em Paris: era ali que jovens apaixonados pelo cinema iam assistir às obras dos grandes mestres do passado, redescobrir filmes esquecidos e construir a cultura cinéfila que alimentaria a Nouvelle Vague. Diretores como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette e Claude Chabrol foram frequentadores assíduos da Cinemateca e creditavam a Langlois uma influência formadora em suas carreiras.

O episódio que mais dramaticamente revelou a importância de Langlois para o mundo cultural francês foi a chamada "Affaire Langlois" de 1968. Naquele ano, o governo francês tentou destituí-lo da direção da Cinemateca. A reação foi imediata e avassaladora: cineastas, atores, críticos e intelectuais do mundo inteiro saíram em defesa de Langlois, com Godard e Truffaut na linha de frente dos protestos. A mobilização foi tão intensa que o governo recuou, e Langlois foi reintegrado ao cargo. O episódio antecedeu os eventos de Maio de 1968 e foi, em certo sentido, um prefácio para a explosão cultural daquele período.

Além de seu trabalho na Cinemateca, Langlois teve outras contribuições significativas para a preservação e o estudo do cinema. Em 1960, ajudou a criar o Comitê de Cinema do Conselho Internacional de Museus, um esforço para organizar e institucionalizar globalmente a preservação do patrimônio cinematográfico. A partir de 1968, lecionou na Universidade Sir George Williams, em Montreal, levando para o ambiente acadêmico canadense seu conhecimento enciclopédico e sua visão apaixonada sobre a história do cinema.

Henri Langlois morreu em Paris em 13 de janeiro de 1977, e está enterrado no cemitério de Montparnasse. Sua morte foi sentida como o fim de uma era por todos os que haviam convivido com sua figura singular, essa combinação improvável de visionário e acumulador compulsivo, de intelectual refinado e batalhador incansável. Poucas pessoas no século XX fizeram tanto pelo cinema como arte e como memória cultural.

O acervo que ele reuniu ao longo de décadas, incluindo filmes de todas as épocas, países e gêneros, permanece como seu monumento mais duradouro. A Cinemateca Francesa, que sobrevive e prospera no século XXI, é o legado concreto de um homem que acreditou, quando quase ninguém acreditava, que cada fotograma de celuloide carregava um fragmento da memória da humanidade que merecia ser guardado para as gerações futuras.

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