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Guerra da Bósnia

Conflito armado na Bósnia e Herzegovina de 1992–1995

7 min01/01/2024
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No coração da Europa, nos anos que se seguiram à queda do comunismo, um conflito devastador consumiu a região da Bósnia e Herzegovina entre abril de 1992 e dezembro de 1995. A Guerra da Bósnia não surgiu do nada: ela foi o resultado de décadas de tensões étnicas e religiosas comprimidas sob a estrutura federal da Iugoslávia, que começou a se desfazer com o enfraquecimento do Partido Comunista no final dos anos 1980. O colapso da ordem comunista expôs feridas antigas e abriu espaço para ideologias nacionalistas que haviam sido sufocadas durante décadas. O processo foi particularmente agudo na Sérvia e na Croácia, onde líderes como Slobodan Milošević e Franjo Tuđman souberam capitalizar o ressurgimento identitário para consolidar poder político.

Slobodan Milošević foi uma figura central nesse processo de desintegração. Iniciando sua carreira política como resposta ao despertar nacionalista sérvio no Kosovo em 1989, ele rapidamente se posicionou como defensor dos interesses sérvios em toda a federação iugoslava. Seu objetivo era consolidar o domínio sérvio sobre a estrutura federal, e para isso articulou mudanças políticas que lhe garantiram controle sobre regiões como Voivodina e Montenegro. Em paralelo, o líder bósnio-sérvio Radovan Karadžić trabalhava para garantir que os sérvios espalhados pelas repúblicas da federação permanecessem num mesmo Estado.

Com a declaração de independência da Croácia e da Eslovênia em 1991, o processo de dissolução da Iugoslávia tornou-se irreversível. Em fevereiro de 1992, a população da Bósnia e Herzegovina votou em referendo pela independência. A votação foi boicotada pelos bósnios de etnia sérvia, que se recusavam a aceitar uma Bósnia separada da federação. Logo em seguida, em abril de 1992, iniciaram-se os combates. As forças sérvias, apoiadas militarmente e financeiramente pela República Federal da Iugoslávia segundo julgamentos posteriores do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, ocuparam rapidamente cerca de 70% do território bósnio. O Exército da República Sérvia impôs um cerco brutal à capital Sarajevo que duraria anos, tornando-se um dos cercos urbanos mais longos da história moderna.

O conflito envolveu três grupos étnicos e religiosos: os sérvios cristãos ortodoxos, os croatas católicos romanos e os bósnios muçulmanos. A Croácia também teve participação ativa, oferecendo apoio militar às forças croatas da autoproclamada República Croata da Herzeg-Bósnia. As alianças e os objetivos de cada facção mudaram diversas vezes ao longo dos 1.606 dias de conflito. Em certas fases, croatas e bósnios combateram entre si; em outras, uniram forças contra os sérvios. Essa fluidez das alianças tornou o conflito ainda mais caótico e difícil de compreender para o mundo externo.

O sofrimento civil foi de magnitude assombrosa. Segundo relatórios documentados, o conflito causou cerca de 200 mil vítimas entre civis e militares, além de deslocar aproximadamente 1,8 milhão de pessoas. Dos 97.207 mortos documentados, 65% eram muçulmanos bósnios, 25% sérvios e 8% croatas. Entre as vítimas civis, 83% eram bosníacos, com mulheres e crianças representando pelo menos 30% desses casos. O termo "limpeza étnica" entrou no vocabulário internacional para descrever as políticas sistemáticas de expulsão e assassinato de populações baseadas em identidade étnica e religiosa. O massacre de Srebrenica, onde milhares de homens e meninos muçulmanos foram mortos, seria posteriormente reconhecido como genocídio pelo Tribunal Internacional de Justiça.

Segundo um relatório detalhado produzido pela CIA em 1995, aproximadamente 90% dos crimes de guerra cometidos durante o conflito foram perpetrados por forças sérvias. O Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia condenou dezenas de responsáveis: até o início de 2008, 45 sérvios, 12 croatas e 4 bosníacos haviam sido condenados. Entre os condenados estavam líderes políticos de alto escalão como Momčilo Krajišnik e Biljana Plavšić do lado sérvio, e Dario Kordić pelo lado croata. Radovan Karadžić e outros permaneceram por anos foragidos antes de serem capturados e levados a julgamento.

A virada militar ocorreu quando as forças do Conselho de Defesa Croata e do Exército da República da Bósnia e Herzegovina se uniram e passaram a reverter as conquistas territoriais sérvias. A aliança bosníaco-croata chegou a controlar 51% do território e avançou até as proximidades de Banja Luka, capital de fato da Republika Srpska. Em agosto e setembro de 1995, a OTAN iniciou a Operação Força Deliberada, bombardeando posições do Exército da República Sérvia. Essa intervenção internacionalizou o conflito em sua fase final e acelerou o colapso da resistência sérvia.

Diante da ameaça militar crescente e da pressão diplomática internacional, os líderes sérvios aceitaram negociar. Em novembro de 1995, as negociações ocorreram na base aérea de Wright-Patterson, em Dayton, nos Estados Unidos. O acordo alcançado dividiu a Bósnia em duas entidades: a Federação da Bósnia e Herzegovina e a Republika Srpska, com uma estrutura central de governo que as unia formalmente. O Acordo de Dayton foi assinado oficialmente em Paris em 14 de dezembro de 1995, encerrando formalmente o conflito mais longo e mortífero da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

O legado da Guerra da Bósnia permanece vivo e doloroso. As divisões étnicas e religiosas institucionalizadas pelo Acordo de Dayton criaram uma estrutura estatal disfuncional que ainda paralisa a governança do país décadas depois. A impunidade parcial dos perpetradores de crimes de guerra alimentou ressentimentos duradouros. Ao mesmo tempo, a guerra transformou a forma como a comunidade internacional lidou com conflitos étnicos, impulsionando a criação de tribunais internacionais e consolidando conceitos como responsabilidade de proteger. A Bósnia tornou-se um símbolo tanto da barbárie que o nacionalismo exacerbado pode produzir quanto da dificuldade de reconstruir sociedades dilaceradas pela violência étnica.

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