Na costa do Golfo do México, onde as águas mornas alimentam tempestades de proporções bíblicas, o furacão Katrina se formou em agosto de 2005 e avançou em direção ao sul dos Estados Unidos como uma das forças mais destrutivas já registradas na história do país. O que começou como uma simples depressão tropical ao sudeste das Bahamas em 23 de agosto rapidamente ganhou força e intensidade, transformando-se numa tempestade que deixaria um rastro de destruição avaliado em mais de 81 bilhões de dólares e ceifaria a vida de 1.836 pessoas.
O desenvolvimento meteorológico do Katrina seguiu um percurso de intensificação progressiva que deixou os especialistas alarmados. Em 24 de agosto, a depressão tropical evoluiu para tempestade e, já no dia 25, se aproximou da costa da Flórida como um furacão de categoria 1, com ventos de cerca de 130 quilômetros por hora. A chuva intensa, em alguns locais ultrapassando 350 milímetros em Homestead, causou inundações e danos estimados em dois bilhões de dólares apenas no estado da Flórida. Após cruzar o Estado do Sol, o Katrina enfraqueceu brevemente ao encontrar a terra, reduzindo-se a categoria 2, antes de ganhar energia sobre as águas quentes do Golfo do México.
O que aconteceu a seguir surpreendeu até os meteorologistas mais experientes. Ao longo do dia 28 de agosto, o Katrina se intensificou de forma extraordinariamente rápida, passando em poucas horas da categoria 3 para a categoria 5, com ventos que atingiram 281 quilômetros por hora e uma pressão central de apenas 902 hectopascais, tornando-o o furacão mais intenso já registrado na bacia do Atlântico até aquele momento. A previsão de que a tempestade atingiria diretamente a região de Nova Orleans desencadeou a evacuação de mais de um milhão de pessoas, uma das maiores evacuações em massa da história dos Estados Unidos.
Na manhã de 29 de agosto, o Katrina tocou o solo nos estados do Mississippi, Louisiana e Alabama com a ferocidade de um furacão de categoria 3. Embora a diminuição da categoria tenha representado algum alívio, os danos foram catastróficos. A maré de tempestade, fenômeno em que os ventos empurram a água do mar em direção à costa, criou ondas que superaram as proteções existentes em 53 pontos diferentes ao redor da Grande Nova Orleans, submergindo aproximadamente oitenta por cento da cidade. Um relatório posterior da Sociedade Americana de Engenheiros Civis concluiria que dois terços das inundações foram causados pelas múltiplas falhas nas barreiras de proteção, apontando para déficits graves de manutenção e planejamento nas décadas anteriores.
As cenas que emergiram de Nova Orleans nos dias seguintes ao impacto chocaram o mundo. Cerca de 200 mil casas ficaram submersas, e a água que inundou a cidade levou semanas para ser bombeada para fora. Os diques que protegiam o município do Lago Pontchartrain cederam em múltiplos pontos, e as regiões mais baixas da cidade, habitadas em sua maioria por moradores de menor poder aquisitivo, foram as mais afetadas. O Superdome, a arena esportiva que serviu como abrigo de último recurso para dezenas de milhares de pessoas que não conseguiram evacuar, tornou-se símbolo tanto da resiliência humana quanto do fracasso das autoridades em garantir assistência adequada. Filas de pessoas desesperadas esperavam por ajuda em condições precárias, sem água potável, alimentos ou atendimento médico suficientes por dias.
O número total de mortos confirmados chegou a 1.836 pessoas, sendo a Louisiana responsável por 1.577 e o Mississippi por 238 dessas mortes. A área federal de desastre cobriu 233 mil quilômetros quadrados, equivalente a aproximadamente 95 por cento da área do Reino Unido. Cerca de três milhões de pessoas ficaram sem eletricidade. O secretário de Segurança Interna dos Estados Unidos, Michael Chertoff, descreveu o impacto conjunto do furacão e das inundações como "provavelmente a pior catástrofe, ou conjunto de catástrofes, na história do país".
A resposta federal ao desastre foi amplamente criticada. A FEMA, agência responsável por emergências federais, foi acusada de lentidão e desorganização. O prefeito de Nova Orleans declarou lei marcial na noite de 31 de agosto, e a Guarda Nacional levou dias para estar presente em números suficientes para restaurar a ordem. Muitos moradores que não conseguiram evacuar relataram se sentir abandonados pelo governo, e debates sobre o papel que questões raciais e socioeconômicas desempenharam na desigual distribuição dos recursos de socorro dominaram o discurso público por anos.
As consequências econômicas se propagaram muito além da região afetada. O furacão danificou ou destruiu 30 plataformas de petróleo e forçou o fechamento de nove refinarias, já que boa parte da extração de petróleo norte-americana acontecia no Golfo do México. Nos seis meses seguintes ao Katrina, a produção de petróleo na região caiu aproximadamente 24 por cento e a de gás natural em 18 por cento, afetando os preços de combustível em todo o país. O governo Bush solicitou ao congresso 105 bilhões de dólares para reparos e reconstrução, valor que não foi suficiente para cobrir todos os prejuízos.
A reconstrução de Nova Orleans foi lenta e desigual. Muitos bairros que foram destruídos nunca se recuperaram completamente, e a população da cidade, que antes do Katrina era de cerca de 450 mil habitantes, demorou anos para retornar a níveis próximos ao que eram antes da catástrofe. O Katrina deixou como herança mudanças profundas na forma como os Estados Unidos planejam a gestão de emergências e avaliam a vulnerabilidade de suas infraestruturas costeiras. Nos anos seguintes, bilhões foram investidos na reconstrução e reforço dos sistemas de proteção contra inundações em Nova Orleans, em um reconhecimento tardio de que a tragédia poderia ter sido em grande parte evitada.

