guerras

Fernando Augusto Pereira da Silva

Administrador colonial, Portugal

6 min01/01/2024
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Fernando Augusto Pereira da Silva foi um desses oficiais que a história normalmente reserva às notas de rodapé, mas cuja trajetória, vista com atenção, revela um protagonista fundamental nas últimas décadas da Primeira República portuguesa. Nascido em Messines, no Algarve, em 13 de janeiro de 1871, e falecido em Lisboa em 3 de novembro de 1943, construiu ao longo de cinco décadas uma carreira naval que o conduziu dos mares africanos ao centro das turbulências políticas de Lisboa.

A vocação militar era quase inevitável para o filho de um oficial do Exército. Após estudos preparatórios em Lisboa, Pereira da Silva ingressou na Escola Naval em 1889, iniciando uma formação que o moldaria tanto no rigor técnico quanto na visão estratégica. Sua primeira saída para o mar aconteceu em 1893, ainda como aspirante, numa viagem à então África Oriental Portuguesa, onde escalou os portos das possessões lusas no Índico. Promovido a guarda-marinha em 20 de julho daquele ano, foi destacado para a corveta Rainha de Portugal, integrada à Divisão Naval do Índico, sediada em Moçambique.

Era um tempo de tensão crescente na África oriental. A resistência dos povos vátua liderados pelo rei Gungunhana — figura que a história portuguesa registra como Ngungunhane — ameaçava a presença colonial portuguesa no sul de Moçambique. A recém-criada cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, encontrava-se sob pressão de forças comandadas pelo régulo Mahazuli. A Rainha de Portugal chegou à baía da cidade em 9 de setembro, e o jovem Pereira da Silva viveu de perto os combates que se seguiram: o primeiro ataque na noite de 23 de setembro foi rechaçado com grandes baixas de ambos os lados, e os ataques continuaram ao longo de outubro até a chegada de reforços enviados de Lisboa.

Nos anos seguintes, a carreira de Pereira da Silva acumulou experiências diversas e complementares. Promovido a segundo-tenente em dezembro de 1895, retornou a Moçambique em 1896 para assumir o comando da canhoneira Obús, integrando a Esquadrilha do Zambeze. Depois vieram passagens pela Divisão Naval do Atlântico Sul em Angola, pela costa algarvia e, em 1901, o comando do serviço de electricidade no cruzador Rainha D. Amélia — navio de prestígio que o levaria a acompanhar o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia numa viagem triunfal pelos Açores e pela Madeira.

Em 1904, concluiu o curso de torpedos e electricidade, integrando pela primeira vez uma comissão de planeamento da reorganização naval. Em 1910, quando eclodiu a Revolução de 5 de Outubro que proclamou a república, Pereira da Silva adotou uma postura de neutralidade colaborante com as novas forças, recusando-se a defender o governo monárquico. Essa atitude estratégica lhe abriu portas no novo regime: foi quase imediatamente convocado para a comissão de planeamento naval, da qual se tornaria presidente em 2 de novembro de 1910.

Durante a Primeira Guerra Mundial, com o posto de capitão-tenente, comandou o contratorpedeiro Douro em missões de escolta de transportes de tropas portuguesas rumo ao teatro europeu. Em 24 de setembro de 1917, enfrentou um submarino alemão — episódio que resumia os perigos concretos do esforço de guerra português nos mares. No fim do conflito, recebeu o colar da Ordem da Torre e Espada pelo seu desempenho notável.

O reconhecimento de sua competência técnica e estratégica levou-o ao cargo de Ministro da Marinha em 18 de dezembro de 1923, por convite de Álvaro de Castro. O feito mais extraordinário de sua passagem pelo ministério foi a longevidade: Pereira da Silva manteve-se no cargo de 1923 a 1926, pertencendo a sete governos consecutivos diferentes — um recorde notável numa república famosa pela instabilidade ministerial. Em todos esses governos, imprimiu ao ministério um dinamismo pouco comum, desencadeando reformas que incluíam a criação de uma força aeronaval coerente, exercícios conjuntos envolvendo submarinos, superfície e aviação, e a reorganização das forças navais nas colónias.

O momento mais dramaticamente político de sua gestão ocorreu em 18 de abril de 1925, quando teve papel fundamental na derrota do golpe nacionalista de Sinel de Cordes, demonstrando que a Marinha não seria instrumento passivo das ambições militares conservadoras. Mais de um ano depois, no golpe de 28 de maio de 1926, que encerraria a Primeira República e abriria caminho para a ditadura, Pereira da Silva era ainda Ministro da Marinha no governo de António Maria da Silva. Com a queda do regime republicano, sua carreira política chegava ao fim, mas o legado das reformas que implantara na Armada Portuguesa — incluindo a criação da Brigada de Mecânicos na reforma de 1924, que ficou conhecida como Reforma Ministro Pereira da Silva — permaneceu como marca duradoura de seu trabalho.

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