tragedias

Expedição Nimrod

Primeira missão ao Polo Sul, na Antártica, comandada por britânicos

7 min01/01/2024
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No verão austral de 1907, um navio chamado Nimrod deixou a Nova Zelândia em direção ao continente mais inóspito do planeta, carregando nas entranhas as esperanças de Ernest Shackleton e de uma equipe disposta a ir mais longe do que qualquer ser humano havia chegado na face sul da Terra. A empreitada que ficaria conhecida como Expedição Nimrod seria uma das mais audaciosas jornadas de exploração polar já realizadas, e seu legado transcenderia em muito os objetivos que não conseguiu alcançar.

Shackleton era irlandês, carismático e consumido pela ambição de ser o primeiro homem a pisar no Polo Sul geográfico. Havia participado da Expedição Discovery, liderada por Robert Falcon Scott entre 1901 e 1904, mas desentendimentos com Scott e questões de saúde o haviam forçado a retornar antes do previsto. Agora era ele quem liderava, sem a segurança de um patrocínio governamental ou institucional. Todo o financiamento da expedição dependia de empréstimos privados e doações individuais, o que impôs restrições severas aos preparativos e obrigou a equipe a trabalhar com o que tinha disponível.

O navio Nimrod era uma das expressões mais visíveis dessas limitações: tinha menos da metade da capacidade do Discovery, o navio usado por Scott na expedição anterior. A tripulação também contava com menos experiência acumulada. Mas o que faltava em recursos, Shackleton buscava compensar com determinação, criatividade e uma capacidade quase mágica de inspirar os homens ao seu redor.

A escolha do estreito de McMurdo como base de operações gerou controvérsias antes mesmo de a expedição partir. Shackleton havia prometido a Scott não estabelecer acampamento naquela região, onde o rival havia operado anos antes. As condições do gelo, porém, tornaram impossível honrar esse compromisso sem colocar em risco a vida de toda a equipe. A decisão de instalar a base em McMurdo alimentou um ressentimento duradouro em Scott, que via nisso uma traição a um acordo de cavalheiros.

O coração da expedição foi a tentativa de alcançar o Polo Sul. Shackleton liderou pessoalmente o grupo que avançou para o sul a partir de novembro de 1908. O progresso foi penoso: o frio extremo, os ventos que rasgavam a pele, as superfícies de gelo traiçoeiras e os mantimentos racionados ao limite testaram cada homem ao extremo. Para avançar sobre o Planalto Antártico, a equipe precisou subir pelo Glaciar Beardmore, uma passagem brutal que exigiu semanas de esforço sobre terreno acidentado.

Em 9 de janeiro de 1909, Shackleton e seus companheiros chegaram à latitude de 88 graus e 23 minutos sul, faltando apenas 157 quilômetros para o polo. Era o ponto mais austral jamais alcançado por um ser humano até aquela data, um recorde extraordinário que estabelecia Shackleton como o maior explorador polar vivo. Mas a matemática era implacável: os mantimentos e a condição física dos homens não permitiriam ir além sem que nenhum deles voltasse vivo. Shackleton tomou a decisão de recuar. Mais tarde, explicaria sua escolha com uma frase que revelava tanto seu pragmatismo quanto sua inteligência emocional: um burro vivo vale mais que um leão morto.

Enquanto Shackleton avançava para o sul, outras frentes da expedição realizavam feitos igualmente notáveis. O professor de geologia Edgeworth David conduziu uma equipe separada até o local estimado do Polo Sul Magnético, um ponto que se desloca ao longo do tempo e que então estava posicionado no interior do continente. A mesma equipe realizou a primeira escalada ao monte Érebo, o imponente vulcão ativo que se ergue na Ilha Ross, o segundo maior vulcão da Antártica.

O sistema de transporte adotado por Shackleton foi uma inovação que, com resultados variados, serviu de referência para expedições futuras. Combinando pôneis da Manchúria, tração motorizada experimental e trenós puxados por cães, Shackleton buscava otimizar o transporte de cargas pelo gelo. Os pôneis revelaram-se problemáticos nas condições antárticas, e a motorização era ainda rudimentar demais para ser confiável. Robert Falcon Scott, que organizaria sua própria e trágica expedição ao polo nos anos seguintes, adotaria uma combinação similar com resultados desastrosos.

A expedição realizou ainda estudos geológicos, zoológicos e meteorológicos de relevância considerável. Entre os membros da equipe científica estava Douglas Mawson, que mais tarde ganharia fama ao liderar a Expedição da Australásia na Antártica, tornando-se um dos exploradores polares mais importantes da história australiana.

Ao retornar à Grã-Bretanha, Shackleton foi recebido como herói nacional. O rei Eduardo VII conferiu-lhe o título de Cavaleiro, e o público britânico celebrou uma expedição que, mesmo sem atingir seu objetivo principal, havia demonstrado coragem e competência de nível excepcional. Financeiramente, porém, a aventura foi ruinosa: Shackleton precisou de uma garantia governamental para cobrir suas dívidas.

Nos três anos seguintes ao regresso, seu recorde de latitude sul foi superado. Roald Amundsen chegou ao Polo Sul em dezembro de 1911, seguido por Scott em janeiro de 1912. Ao celebrar seu próprio triunfo histórico, Amundsen reconheceu com generosidade a grandeza de seu antecessor, afirmando que o nome de Sir Ernest Shackleton seria registrado para sempre com letras grandes nos anais da exploração antártica. Era um tributo merecido para um homem que havia chegado mais perto do impossível do que qualquer um imaginara ser possível.

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