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Enedina Alves Marques

Engenheira brasileira

6 min01/01/2024
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Enedina Alves Marques nasceu em Curitiba no dia 8 de janeiro de 1913, filha de Paulo Marques e Virgília Alves Marques, uma família humilde que chegara à capital paranaense nos primeiros anos daquela década. Sua mãe, conhecida carinhosamente como Dona Duca, ganhava a vida como lavadeira, e a realidade material da família era de grande simplicidade. Nenhum sinal superficial do ambiente em que Enedina cresceu indicava que ela se tornaria um nome fundamental na história da engenharia brasileira.

A virada no destino de Enedina chegou quando Dona Duca começou a trabalhar para a família do delegado e major Domingos Nascimento Sobrinho, na década de 1920. O major tinha uma filha da mesma idade de Enedina, chamada Isabel, apelidada de Bebeca, e decidiu pagar a educação das duas meninas em colégios particulares para que fizessem companhia uma à outra. Era um gesto de generosidade que mudaria radicalmente a trajetória da jovem lavadeira.

A educação formal de Enedina começou entre 1925 e 1926, quando foi alfabetizada na Escola Particular da Professora Luiza, dirigida por Luiza Dorfmund. Em seguida, ingressou na Escola Normal, onde permaneceu até 1931. Entre 1932 e 1935 completou o curso Normal e, junto com Isabel, começou a trabalhar como professora no interior do Paraná, atuando em cidades como Rio Negro, São Mateus do Sul, Cerro Azul e Campo Largo. Era uma jovem negra, de origem humilde, encontrando seu espaço num mundo que raramente lhe abria portas.

Voltou a Curitiba entre 1935 e 1937 para cursar o Madureza no Novo Ateneu, curso intermediário exigido para o magistério. Nesse período passou a morar com a família do construtor Mathias e sua esposa Iracema Caron, no bairro do Juvevê, pagando sua estadia com serviços domésticos. Os Caron tornaram-se seus novos benfeitores, substituindo a família Nascimento Sobrinho nesse papel. Em 1935, Enedina alugou uma casa próxima ao Colégio Nossa Senhora Menina e montou classes seriadas de alfabetização, demonstrando uma capacidade empreendedora que ia além de simplesmente seguir os caminhos já abertos.

Em 1938, enquanto ainda morava com os Caron, fez um curso complementar de pré-Engenharia no Ginásio Paranaense, atual Colégio Estadual do Paraná, frequentando as aulas no período noturno. Essa decisão revelava uma ambição intelectual que desafiava todas as expectativas sociais da época: uma mulher negra, professora de escola pública, querendo cursar Engenharia numa sociedade que colocava barreiras duplas em seu caminho, as de raça e as de gênero.

Em 1940, Enedina ingressou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Paraná. Os cinco anos de curso foram marcados por dedicação intensa e pela necessidade constante de superar preconceitos num ambiente dominado por homens brancos. Em 1945, graduou-se em Engenharia Civil, tornando-se a primeira mulher engenheira do Paraná e a primeira engenheira negra de toda a história do Brasil. A formatura ocorreu no Palácio Avenida, e seu paraninfo foi o professor João Moreira Garcez. Antes dela, dois homens negros haviam se formado em Engenharia na mesma instituição: Otávio Alencar em 1918 e Nelson José da Rocha em 1938. Mas nenhuma mulher negra jamais chegara a esse ponto.

A carreira profissional que se seguiu foi igualmente notável. Exonerada da Escola da Linha de Tiro em 1946, Enedina tornou-se auxiliar de engenharia na Secretaria de Estado de Viação e Obras Públicas. Rapidamente ascendeu a cargos de maior responsabilidade, tornando-se chefe de hidráulica e depois chefe da divisão de estatísticas do serviço de engenharia do Paraná. Quando o governador Moisés Lupion a transferiu para o Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica, Enedina passou a trabalhar no Plano Hidrelétrico estadual, atuando no aproveitamento das águas dos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu.

A Usina Capivari-Cachoeira é considerada por muitos o maior feito de sua carreira como engenheira. Para participar das obras, Enedina usava macacão e carregava uma arma na cintura, disparando tiros para o alto quando precisava se fazer respeitar entre os trabalhadores da construção. Era uma forma pragmática e corajosa de impor autoridade num ambiente que não estava acostumado a obedecer a uma mulher, muito menos a uma mulher negra. Dentre outras realizações, destacam-se ainda o Colégio Estadual do Paraná e a Casa do Estudante Universitário de Curitiba.

Em 1961, o sociólogo Octávio Ianni a entrevistou para a pesquisa Metamorfoses do Escravo, financiada pela Unesco, reconhecendo-a como uma voz relevante sobre a experiência da população negra no Brasil. Em 1962, aposentou-se no serviço estadual e recebeu do governador Ney Braga um reconhecimento formal por decreto, que lhe garantiu proventos equivalentes ao salário de um juiz, reconhecimento raro e significativo para a época.

Enedina morreu em agosto de 1981, aos 68 anos, sozinha em seu apartamento na Rua Ermelino de Leão, no Centro de Curitiba. O estado de decomposição do corpo quando foi encontrado indicava que ela havia falecido pelo menos uma semana antes, provavelmente no dia 20 de agosto, embora o atestado de óbito carregue a data do encontro, dia 27. Morreu sem parentes próximos, sem nunca ter se casado, sem filhos. O jornal Diário Popular, tabloide da época, a retratou como uma idosa excêntrica, o que gerou a indignação de membros do Instituto de Engenharia do Paraná, que reagiram com artigos ressaltando suas conquistas pioneiras.

O reconhecimento póstumo foi crescendo ao longo das décadas. Em 1988, uma rua na Vila Oficinas, no bairro Cajuru, recebeu seu nome. Em 2006, foi fundado o Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques em Maringá. Em 2018, uma placa foi instalada em sua homenagem no prédio de Tecnologia da UFPR. Em 2019, a Assembleia Legislativa do Paraná aprovou lei nomeando trecho da PR-340 com seu nome. Em 2021, a Turma da Mônica a homenageou no Dia Internacional das Mulheres na Engenharia, e em 2023, o Doodle do Google no Brasil celebrou seu aniversário.

A história de Enedina Alves Marques é a de uma mulher que atravessou barreiras sociais, raciais e de gênero com a força de sua inteligência e de sua teimosia produtiva. Filha de lavadeira, professora de escola pública, tornou-se engenheira pioneira e deixou obras físicas que ainda existem no Paraná como testemunho concreto de que o talento, quando recebe uma chance, pode transformar não apenas a vida de uma pessoa, mas a própria história de um país.

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