civilizacoes perdidas

DJ Memê

Marcello Mansur, mais conhecido como DJ Memê (Rio de Janeiro, 13 de março de 1965), é um D

4 min01/01/2024
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Marcello Mansur, nascido no Rio de Janeiro em 13 de março de 1965, construiu uma das trajetórias mais singulares da música eletrônica brasileira. Sob o nome artístico DJ Memê, ele atravessou décadas transformando palcos, estúdios e ondas de rádio em espaços de experimentação sonora, tornando-se um dos nomes mais respeitados do universo dance e house no país e, com o tempo, uma referência reconhecida internacionalmente.

Ainda criança, por volta dos onze anos, Memê já demonstrava fascínio pela arte da mixagem. Acompanhava festas, observava com atenção os DJs profissionais e aprendia os gestures daquela nova linguagem musical. Na passagem para a adolescência, nos anos 1970, mergulhou no underground, tocando discos em ambientes alternativos antes mesmo de o gênero house music ganhar espaço nas rádios convencionais. Era uma época em que o DJ era figura quase invisível, relegada às sombras das boates e dos bailes suburbanos, e Memê aprendeu tanto nos clubes sofisticados da zona sul carioca quanto nos bailes de equipe do subúrbio, dois universos aparentemente opostos que moldaram sua versatilidade.

Com o amadurecimento artístico, ele encontrou nas rádios FMs cariocas um novo território de criação. Seus programas se tornaram marcos da cena eletrônica local, sendo o mais emblemático deles A Festa da Cidade, transmitido pela Rádio Cidade. Depois vieram o RPC Megamix, na Rádio RPC FM, e o Paradiso Open House, na Paradiso FM. Esses programas não eram simples seleções musicais, mas verdadeiros laboratórios de mixagem que influenciaram toda uma geração de DJs brasileiros. Foi justamente essa experiência radiofônica que abriu as portas para que ele se tornasse um dos pioneiros do remix no Brasil, atraindo a atenção de gravadoras e artistas que enxergavam nele a capacidade de reinventar músicas.

Nos anos 1990, quando a cena eletrônica brasileira ainda engatinhava, Memê estava na vanguarda. Junto com Iraí Campos, criou o primeiro curso para DJs do Brasil, contribuindo para a profissionalização de um segmento até então sem estrutura formal. Também participou dos primeiros festivais Skol Beats e integrou o elenco da Hypno, a primeira agência de DJs do país. Essas iniciativas pavimentaram o caminho para toda uma indústria que viria a florescer nas décadas seguintes.

O ano de 1994 marcou um dos capítulos mais celebrados de sua carreira. Em parceria com o cantor Lulu Santos, produziu o álbum Assim Caminha a Humanidade, trabalho que recolocou o artista carioca nas paradas musicais e demonstrou o poder transformador da produção eletrônica sobre a música popular brasileira. No ano seguinte, a dupla voltaria ao estúdio para o projeto Eu e Memê, Memê e Eu, uma coletânea de regravações e remixes que totalizou mais de um milhão de cópias vendidas, um feito impressionante para o gênero no Brasil daquela época.

Se a parceria com Lulu Santos consolidou seu nome no mercado nacional, foi um trabalho internacional que revelou ao mundo a capacidade de Memê. Em 1996, ele produziu um remix para a canção Estoy Aqui, da cantora colombiana Shakira, que até então ainda construía sua projeção fora da América Latina. O remix fez enorme sucesso no exterior e, segundo a revista americana Billboard, foi diretamente responsável pelo primeiro grande estouro internacional da cantora. Este momento marcou a entrada definitiva de Memê no circuito global da música eletrônica, abrindo portas com nomes como Mariah Carey, Gloria Estefan, Des'ree, Dido e Toni Braxton.

A virada do milênio trouxe novas ambições. Com a expansão da internet e a transformação da indústria fonográfica, Memê foi contratado pela gravadora Purple Music Switzerland, sediada na Suíça, e começou a lançar remixes por selos que sempre admirara, como a Defected e a Soulfuric. Em 2004, uma de suas faixas alcançou o segundo lugar na DJ MAG Hype Charts, a parada mais influente do mundo naquele período, despertando interesse genuíno da cena house global em seu nome. A partir daí, as fronteiras deixaram de ser obstáculo: turnês pela Europa e Ásia transformaram DJ Memê em figura regular em países como Indonésia, Inglaterra, Suíça, França, Coreia do Sul, Romênia, Polônia, Alemanha, Áustria, Hungria e na lendária Ibiza, reduto dos maiores DJs do planeta.

O episódio mais simbólico de sua trajetória internacional aconteceu em julho de 2008, quando recebeu um convite da própria Yoko Ono para remixar Give Peace a Chance, a histórica canção de John Lennon. Longe de ser apenas mais um trabalho, o resultado superou todas as expectativas: o remix alcançou o primeiro lugar na Hot Dance da Billboard Magazine, a principal parada musical dance americana. Era o reconhecimento máximo que um produtor de dance music poderia receber, e chegava para um brasileiro nascido no Rio de Janeiro que começara fazendo festinhas aos onze anos de idade.

Ao longo dos anos, Memê acumulou uma discografia extensa e colaborou com artistas de espectros musicais bastante distintos, desde Gilberto Gil e Caetano Veloso até Gabriel o Pensador, Tim Maia e Renato Russo. Em 2015, fundou a gravadora MeMix com o objetivo de revelar novos talentos da música dance e house no Brasil, demonstrando um compromisso com a continuidade e renovação da cena que ajudou a construir. Seu single Viva voltou a chamar atenção internacional, chegando ao segundo lugar na parada Hype Charts da DJ Magazine com o apoio de lendas como Frankie Knuckles, Bob Sinclar e Pete Tong.

A trajetória de DJ Memê é também uma história de prêmios e reconhecimentos acumulados ao longo de décadas: mais de vinte e três discos de ouro, quinze discos de platina e três discos diamante figuram entre as distinções mais significativas. Ele recebeu ainda prêmios de melhor programa de rádio nos anos de 1990 e 1991, melhor produtor de dance em 1994 e um prêmio especial da Revista DJ Sound em 2001 como personalidade da área dance na última década. Foram oito indicações ao prêmio de melhor DJ de house no Brasil pelo DJ Sound Awards. A revista inglesa M8 Magazine lhe dedicou uma matéria de página inteira na edição de aniversário número 200, enquanto o colunista Paul Farris o apontou como um nome ao qual o mundo da música deveria prestar atenção. Tudo isso resume a relevância de um artista que, partindo do underground carioca dos anos 1970, chegou ao topo das paradas americanas e europeias.

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