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Chaïm Soutine

Chaïm Soutine (Smilavichy, 13 de Janeiro de 1893 — Paris, 9 de Agosto de 1943) foi um pint

4 min01/01/2024
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Chaïm Soutine foi um dos pintores mais singulares e emocionalmente intensos da primeira metade do século XX, cujo trabalho expressionista desafia qualquer tentativa de classificação fácil. Nascido em 13 de janeiro de 1893 na pequena aldeia de Smilavichy, então pertencente ao Império Russo e localizada na atual Bielorrússia, morreu em Paris em 9 de agosto de 1943, vítima das condições impostas pela ocupação nazista e de uma saúde sempre fragilizada. Entre esses dois pontos extremos, a trajetória de Soutine descreveu um arco de pobreza, perseverança, genialidade perturbadora e reconhecimento tardio.

A infância de Soutine foi marcada por privações materiais e por uma tensão fundamental com os valores da comunidade onde crescia. Décimo de onze filhos de uma família judia ortodoxa, enfrentou desde cedo a interdição religiosa à representação de imagens humanas — um obstáculo quase instransponível para alguém que sentia o impulso incontrolável de pintar o que via. Seu pai, alfaiate de profissão, não viu com bons olhos essa inclinação artística do filho, e o conflito entre a tradição familiar e a vocação do jovem artista seria um peso que Soutine carregaria por anos.

Em 1909, aos dezesseis anos, Soutine mudou-se para Minsk, onde recebeu suas primeiras lições de arte formais. A etapa seguinte foi Vilnius, onde estudou na Escola de Belas Artes até 1913. Foi nesse período que o jovem artista lituano começou a tomar contato com a tradição pictórica europeia, desenvolvendo uma sensibilidade que mesclava o rigor do estudo clássico com uma energia interior quase indomável. Em 1913, conclui seus estudos em Vilnius e parte para Paris — o destino inevitável de todo artista ambicioso da época.

Em Paris, Soutine instalou-se em Montparnasse, o bairro que concentrava a vanguarda artística mundial. As condições eram precárias ao extremo: o jovem pintor mal tinha dinheiro para se alimentar e vivia em habitações miseráveis. Mesmo assim, matriculou-se na École des Beaux-Arts de Paris, onde estudou sob a orientação do pintor Fernand Cormon. Foi nesse ambiente efervescente que conheceu Amedeo Modigliani, com quem travaria uma sólida amizade. Modigliani o retratou diversas vezes, e Soutine serviu como modelo fiel para o italiano — dois estrangeiros que se reconheciam mutuamente na marginalidade criativa.

A virada na vida de Soutine veio em 1923, quando o colecionador norte-americano Albert Coombs Barnes adquiriu um grande número de suas obras. Barnes, que tinha olho clínico para identificar talentos ignorados pelo mercado convencional, comprou dezenas de quadros de Soutine numa só transação, transformando radicalmente a situação financeira do pintor. De um dia para o outro, Soutine passou da penúria quase absoluta para uma relativa estabilidade, e seu nome começou a circular nos círculos artísticos mais influentes de Paris.

Em 1927, realizou sua primeira exposição individual na galeria de Henri Bing, consolidando sua inserção no mercado das artes. Dez anos depois, em 1937, a rareza de sua obra foi reconhecida quando algumas de suas pinturas foram incluídas na Exposição de Artistas Independentes — uma honra raramente concedida a um pintor estrangeiro na França da época, o que dizia muito sobre o respeito que Soutine havia conquistado.

O método de trabalho de Soutine era tão desconcertante quanto suas telas. Pintava apenas com um modelo à sua frente, incapaz de recorrer à imaginação ou à memória para substituir a presença concreta do que retratava. Essa exigência levou a episódios memoráveis, como a vez em que manteve a carcaça de um boi pendurada em seu ateliê por dias a fio para que pudesse pintá-la — um quadro que se tornaria uma de suas obras mais comentadas, a Carcaça de Boi. O fedor que emanava do animal em decomposição levou os vizinhos a chamar a polícia. Soutine, sem qualquer constrangimento, dissertou perante os agentes sobre a hierarquia entre a arte e a higiene, defendendo com absoluta convicção a primazia da primeira.

Sua técnica era de uma vitalidade febril: aplicava a tinta de forma pastosa e densa, como se cada pincelada fosse arrancada de dentro de si com urgência. Seus quadros apresentam uma força cromática intensa e uma textura que parece viva, palpitante. Cézanne, Rembrandt e El Greco foram influências que Soutine absorveu e transformou em algo completamente próprio. Era comparado a Van Gogh pela intensidade expressiva, e a Kokoschka pela capacidade de capturar estados psicológicos profundos nos retratos que executava.

A Segunda Guerra Mundial e a ocupação nazista de Paris representaram o começo de seu fim. Como judeu, Soutine estava sob risco constante, e optou por fugir da capital, refugiando-se numa pequena cidade próxima a Tours, no interior da França. Viveu em permanente angústia, sempre com o medo de ser delatado. Essa tensão crônica agravou problemas de saúde que já o acompanhavam havia anos. Em 1943, um ataque de úlcera perfurou seu estômago, obrigando-o a uma cirurgia de emergência para a qual seu corpo debilitado não tinha reservas suficientes. Chaïm Soutine morreu na mesa de operações em 9 de agosto de 1943 e foi sepultado no Cemitério do Montparnasse, o mesmo bairro que o havia acolhido três décadas antes como um jovem faminto cheio de telas na cabeça e esperança nas mãos.

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