Barbara Hepworth nasceu em 10 de janeiro de 1903 na cidade de Wakefield, no condado de Yorkshire, na Inglaterra, e desde jovem demonstrou uma sensibilidade aguçada para as formas e volumes que a rodeavam. Cresceu num período de efervescência artística na Europa, quando o modernismo rompia com séculos de academicismo e propunha novas linguagens visuais capazes de capturar a essência das coisas mais do que sua aparência superficial. Esse ambiente intelectual moldou profundamente sua visão de mundo e a empurrou em direção à escultura, uma arte que ela trataria não apenas como ofício, mas como filosofia.
Sua formação artística foi sólida e cosmopolita. Hepworth estudou na Leeds School of Art e depois no Royal College of Art em Londres, onde desenvolveu as bases técnicas que sustentariam toda a sua carreira. Ainda jovem, viajou pela Itália, onde o contato com o mármore e com a tradição escultórica mediterrânea deixou marcas permanentes em seu trabalho. De volta à Inglaterra, ela começou a construir uma identidade artística própria, distante do naturalismo e cada vez mais inclinada à abstração.
Foi no círculo de artistas modernistas britânicos que Hepworth encontrou seus interlocutores mais próximos. Juntamente com Ben Nicholson, com quem manteve um longo relacionamento pessoal e profissional, e com o escultor russo Naum Gabo, ela integrou a colônia de artistas que se reuniu em St Ives, na Cornualha, durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Esse grupo transformou a pequena cidade costeira num polo do modernismo britânico, e o próprio ambiente marítimo, com suas rochas esculpidas pelo tempo e sua luz peculiar, acabou influenciando de maneira visível as formas orgânicas que Hepworth extraía dos blocos de pedra e bronze.
Uma das marcas mais reconhecíveis de sua obra é o uso de perfurações e espaços vazios no interior das esculturas, uma técnica que ela desenvolveu de forma independente e que se tornaria sinônimo de seu estilo. Para Hepworth, o vazio não era ausência, mas presença ativa: o espaço atravessado pela forma criava um diálogo entre o interior e o exterior, entre o cheio e o nulo, entre o que se vê e o que se imagina. Essa linguagem abstrata, ao mesmo tempo rigorosa e sensual, conferiu às suas peças uma qualidade quase meditativa.
Em 1951, Hepworth recebeu uma das encomendas mais importantes de sua carreira: o Arts Council a convidou para criar uma peça para o Festival of Britain, celebração que marcava a recuperação cultural e econômica do país no pós-guerra. O resultado foi a obra intitulada Contrapuntal Forms, composta por duas figuras esculpidas em calcário irlandês. A peça foi exibida no South Bank de Londres e posteriormente doada à nova cidade de Harlow, onde permanece até hoje em Glebelands. Para dar conta das demandas físicas dessa encomenda em grande escala, Hepworth contratou seus primeiros assistentes de atelier, entre eles Terry Frost, Denis Mitchell e John Wells, inaugurando uma prática colaborativa que se tornaria habitual em seu trabalho.
A partir de 1949, Hepworth trabalhou regularmente com assistentes — ao longo de sua carreira, chegou a contar com dezesseis colaboradores —, sem que isso diminuísse a originalidade ou a coerência conceitual de sua produção. O processo de criação continuava inteiramente dela; os assistentes executavam as etapas mais laboriosas da feitura física das peças, permitindo que ela se concentrasse na concepção e nos acabamentos decisivos.
Entre todas as suas obras, Single Form ocupa um lugar de particular significado histórico e humano. A escultura foi concebida em memória de Dag Hammarskjöld, ex-secretário-geral das Nações Unidas, amigo próximo de Hepworth e admirador de seu trabalho. Hammarskjöld morreu num acidente aéreo em 1961, e Jacob Blaustein, ex-delegado dos Estados Unidos na ONU, encomendou a obra àquela mesma época como tributo permanente ao diplomata sueco. A escultura resultante, de formas serenas e imponentes, foi instalada na praça em frente à sede das Nações Unidas em Nova York, onde permanece como um dos monumentos públicos mais visitados da cidade e símbolo duradouro do ideário pacifista que Hammarskjöld encarnava.
A trajetória de Hepworth também foi marcada por episódios que revelam o quanto suas obras se tornaram parte do tecido urbano e social britânico, e os riscos que isso implica. Em 20 de dezembro de 2011, a escultura Two Forms, criada em 1969 e instalada no Dulwich Park, no sul de Londres, desde 1970, foi roubada de seu pedestal. As circunstâncias apontaram para ladrões de sucata, interessados no valor do bronze como material bruto, uma prática que vinha crescendo à medida que os preços dos metais subiam no mercado internacional. A peça tinha um seguro avaliado em quinhentas mil libras esterlinas, segundo informou o Conselho de Southwark, e sua perda foi sentida como um golpe não apenas patrimonial, mas cultural.
Outro episódio revelador ocorreu em 2014, quando uma das seis edições em bronze de Rock Form (Porthcurno), escultura de 1964, foi removida do Mander Centre em Wolverhampton por seus proprietários, o Royal Bank of Scotland e a Dalancey Estates. O desaparecimento repentino da obra gerou questionamentos no Parlamento britânico. Paul Uppal, deputado por Wolverhampton South West, declarou em sessão parlamentar que a escultura havia sido doada pela família Mander com a crença de que seria apreciada pela população da cidade por gerações, e que portanto pertencia àquela comunidade. Após pressão pública e política, a obra foi emprestada à Wolverhampton City Art Gallery, onde passou a ser exibida ao alcance do público que sempre a considerou parte de sua própria história.
Hepworth morreu em 20 de maio de 1975 em St Ives, vítima de um incêndio no seu ateliê. Tinha 72 anos e trabalhava até os seus últimos dias. O estúdio onde passou grande parte de sua vida criativa foi convertido no Museu e Jardim de Esculturas Barbara Hepworth, administrado pela Tate e aberto ao público, tornando-se um dos destinos culturais mais visitados da Cornualha. Ali o visitante pode percorrer os espaços onde ela viveu e trabalhou, encontrando esculturas instaladas no jardim exatamente como ela as dispunha, numa harmonia entre arte e paisagem que parece o resumo mais fiel de sua obra.
O legado de Barbara Hepworth é imenso e multidimensional. Ela foi uma das primeiras mulheres a conquistar reconhecimento internacional no campo da escultura modernista, num meio dominado por homens, e o fez não por concessões, mas pela força absoluta de seu trabalho. Sua influência sobre gerações posteriores de escultores britânicos é inestimável, e suas obras figuram nas principais coleções do mundo, da Tate ao MoMA. Mais do que um conjunto de objetos admiráveis, sua escultura propõe uma maneira de ver: o vazio como forma, o toque como conhecimento, e a pedra como linguagem capaz de dizer o que as palavras não alcançam.