O ano de 1928 foi marcado por fundações, eleições e eventos culturais que, vistos em conjunto, revelam um mundo em rápida transformação entre as duas guerras mundiais. Ano bissexto com 366 dias, iniciou numa segunda-feira e guardou em seu calendário acontecimentos que afetariam a política, a cultura e a religião em diferentes partes do globo.
Em Portugal, o dia 25 de março sinalizou uma inflexão decisiva na história republicana: Óscar Carmona foi eleito Presidente da República, dando início formal à chamada Ditadura Nacional. O país vinha de anos de instabilidade política extrema desde a proclamação da república em 1910, e o golpe militar de 1926 havia interrompido o regime democrático. A eleição de Carmona — sem concorrência real — consolidava esse poder e preparava o terreno para o que viria a ser o Estado Novo de Salazar.
No Brasil, 7 de março marcou a publicação da primeira edição do Estado de Minas, jornal que se tornaria um dos mais influentes do jornalismo brasileiro e um espelho de décadas de transformações no país. No mesmo mês de março, em 28, era fundado o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, o CIESP, com Francisco Matarazzo como seu primeiro presidente — uma associação que representaria os interesses do empresariado industrial paulista e ajudaria a modelar a política econômica brasileira por gerações.
Ainda no Brasil, um episódio insólito abalou o ambiente político em maio: em 23 de maio, o presidente Washington Luís foi baleado por sua amante no elegante Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. O episódio, tão dramático quanto incomum para a época, revelava as tensões que circulavam nos bastidores do poder numa república que combinava o formalismo das instituições com os arranjos obscuros do cotidiano político.
Do outro lado do Atlântico, em 2 de outubro, o sacerdote espanhol Josemaría Escrivá fundou o Opus Dei, organização que cresceria para se tornar uma das mais influentes e também mais debatidas dentro da Igreja Católica. Escrivá defendia a santificação pelo trabalho ordinário e a presença de católicos engajados nos ambientes profissionais e intelectuais. A organização expandiria-se para dezenas de países nas décadas seguintes.
O mundo também elegeu seu líder mais poderoso em novembro: em 6 de novembro, o republicano Herbert Hoover derrotou o democrata Alfred E. Smith na disputa pela presidência dos Estados Unidos. Hoover assumia a Casa Branca numa época de prosperidade aparente — a Grande Depressão só viria em outubro do ano seguinte, varrendo muito do otimismo daquela era. Em dezembro, o presidente eleito visitou o Brasil numa viagem que simbolizava o interesse crescente dos Estados Unidos na América do Sul.
No campo da cultura, 1928 foi um ano-chave para os personagens mais famosos da história da animação. Em 15 de maio, Walt Disney lançou o curta-metragem Plane Crazy, onde Mickey e Minnie Mouse faziam sua primeira aparição nas telas. Poucos meses depois, em 18 de novembro, o curta Steamboat Willie voltava a apresentar os dois personagens ao público, desta vez numa produção com som sincronizado — uma inovação técnica que revolucionou a indústria de animação e consolidou o lugar de Mickey Mouse no imaginário popular universal.
No mesmo campo editorial, 10 de novembro marcou a publicação do primeiro número da revista O Cruzeiro, que se tornaria a mais popular publicação semanal brasileira de seu tempo, influenciando a moda, a cultura e o jornalismo do país por décadas.
Entre os nascidos em 1928, o mundo receberia figuras de importância histórica considerável. Em 17 de maio nasceu Idi Amin Dada, que décadas depois governaria Uganda com mão de ferro e crueldade extrema. Em 4 de maio nasceu Hosni Mubarak, destinado a presidir o Egito por trinta anos. Em 3 de novembro nasceu Osamu Tezuka, o japonês que revolucionaria o mangá e o anime, tornando-se o pai da narrativa gráfica japonesa moderna. O escritor e desenhista japonês morreria em 1989, mas deixaria uma obra que continuou moldando gerações de artistas.
O Prêmio Nobel de Literatura de 1928 foi concedido à escritora norueguesa Sigrid Undset, reconhecida por sua monumental obra histórica sobre a Escandinávia medieval. Já o Nobel da Paz não foi atribuído naquele ano, uma lacuna que dizia algo sobre as tensões geopolíticas de uma Europa ainda digerindo os traumas da Grande Guerra e que mal podia imaginar o que viria a seguir.


