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Wanda Pimentel

Wanda Pimentel (Rio de Janeiro, 1943 - Rio de Janeiro, 23 de dezembro de 2019) foi uma pintora, desenhista e escultora b

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Wanda Pimentel (Rio de Janeiro, 1943 - Rio de Janeiro, 23 de dezembro de 2019) foi uma pintora, desenhista e escultora brasileira. Ficou conhecida especialmente por suas obras em que, com figuras geométricas e elementos do cotidiano, tratava particularmente do universo feminino.

Na primeira metade da década de 1960, Pimentel estudou pintura com Ivan Serpa, um dos pioneiros da arte construtiva no Brasil, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Envolvimento, um conjunto de obras que teve início no fim da década de 1960, inaugura sua trajetória artística, que se inicia em paralelo ao endurecimento do regime militar ditatorial brasileiro, marcado pelo AI-5.

Segundo o crítico e curador Fernando Cocchiarale, esse conjunto de pinturas tanto marca sua identidade poética como promove desdobramentos em sua prática artística por quase dez anos. Essa primeira fase de pinturas da artista, com pinceladas lisas, chapadas, com cenas e objetos do cotidiano representados na tela, misturam, para Cocchiarale, a influência de seus primeiros anos de aprendizado com Serpa (Construtivismo), as assemblages da Nova Figuração (Antonio Dias e Rubens Gerchman), o universo icônico da Pop Art norte-americana e, finalmente, do design gráfico. Parte das pinturas da série Envolvimento foi exposta em 2015, na exposição Artevida, com curadoria de Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura. Ainda em 2015, a artista carioca expôs 35 obras inéditas, entre pinturas e esculturas, na Galeria de Arte Ipanema, e galeria Anita Schwartz Galeria, na Gávea.

Em 1988, suas obras puderam ser vistas na novela Vale Tudo, em que apareciam como se fossem de autoria da personagem Heleninha Roitmann, pintora interpretada pela atriz Renata Sorrah.

Wanda Pimentel faleceu no dia 23 de dezembro de 2019, de causa não divulgada, embora a notícia só tenha sido divulgada dia 27 de dezembro, pela Galeria Anita Schwartz, que a representava.

A série Animais foi produzida entre 1965 e 1967, nos primeiros anos da trajetória artística de Wanda Pimentel. Constituída por desenhos em preto e branco realizados com nanquim, caneta e outras técnicas gráficas sobre papel e cartão, a série permaneceu praticamente inédita durante a vida da artista, sendo apresentada integralmente ao público apenas em 2025, na exposição Wanda Pimentel – Percurso em Preto e Branco, realizada na Carpintaria, no Rio de Janeiro.

Os desenhos apresentam uma grande variedade de animais, entre eles besouros, cangurus, tatus, tartarugas, morcegos, girafas, corujas, macacos, serpentes, escorpiões e polvos. Em muitos casos, as figuras são facilmente reconhecíveis; em outros, surgem formas híbridas e imaginárias, aproximando-se de um bestiário fantástico. As criaturas aparecem envolvidas por emaranhados de linhas, hachuras e grafismos que ocupam intensamente a superfície do papel.

Do ponto de vista formal, a série diferencia-se profundamente da produção mais conhecida da artista. Enquanto as obras posteriores são marcadas por cores chapadas, estruturas geométricas rigorosas e composições cuidadosamente organizadas, Animais apresenta um desenho expressivo, espontâneo e experimental. Os traços vigorosos produzem uma sensação de movimento constante, fazendo com que os corpos dos animais pareçam vibrar, serpentear ou dissolver-se no espaço gráfico que os envolve.

Segundo a historiadora da arte Vera Beatriz Siqueira, esses desenhos já anunciam questões que se tornariam centrais na obra madura de Wanda Pimentel. A importância concedida à linha e às relações entre figuras e ambiente antecipa o conceito de "envolvimento", posteriormente desenvolvido na série Envolvimento. Dessa forma, Animais não deve ser entendida apenas como um exercício inicial de desenho, mas como um laboratório visual onde surgem elementos fundamentais da linguagem artística da autora.

A relevância histórica da série foi reconhecida recentemente por instituições internacionais. Em 2026, dois desenhos da série Animais Preto e Branco foram incorporados ao acervo do Museum of Modern Art, consolidando o interesse crescente pela produção inicial da artista e reforçando sua importância para a história da arte brasileira contemporânea.

Wanda Pimentel e a herança da abstração

Embora Wanda Pimentel seja reconhecida principalmente por sua participação na Nova Figuração brasileira, sua trajetória artística revela uma relação profunda com a tradição abstrata que marcou a arte brasileira das décadas de 1950 e 1960. Formada nos cursos livres do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), onde estudou com Ivan Serpa, a artista desenvolveu sua linguagem em um ambiente fortemente influenciado pelas experiências concretas e neoconcretas. A valorização da geometria, da organização espacial e do rigor compositivo, características centrais da abstração construtiva, permaneceu presente em sua obra mesmo após sua aproximação da figuração.

As pinturas de Wanda Pimentel evidenciam uma constante tensão entre abstração e representação. Embora retratem objetos cotidianos, interiores domésticos e fragmentos do corpo humano, suas composições são estruturadas por planos geométricos, cores chapadas e relações espaciais cuidadosamente organizadas. Em muitas obras, especialmente na série Envolvimento, os elementos figurativos são reduzidos a formas simplificadas que se aproximam da abstração, fazendo com que o interesse da artista se concentre não apenas na representação dos objetos, mas também na construção visual do espaço pictórico.

Essa relação com a abstração pode ser compreendida à luz das discussões propostas pela historiografia feminista da arte. Estudos como Women Artists of Cercle et Carré: Abstraction, Gender and Modernity demonstram que a participação das mulheres nos movimentos abstratos foi frequentemente marginalizada pelas narrativas tradicionais da modernidade artística, apesar de sua contribuição decisiva para o desenvolvimento dessas linguagens. De modo semelhante, os trabalhos de Griselda Pollock questionam as classificações rígidas da história da arte e defendem a necessidade de reconhecer trajetórias que escapam aos modelos consagrados. Sob essa perspectiva, a obra de Wanda Pimentel não pode ser reduzida exclusivamente à Nova Figuração, pois preserva aspectos fundamentais da herança abstrata brasileira, ainda que os utilize para abordar questões ligadas ao cotidiano, ao consumo e à experiência feminina.

As reflexões de Ana Avelar sobre a participação das mulheres no informalismo e no expressionismo abstrato brasileiro também ajudam a situar a artista em um contexto mais amplo de presença feminina nas experiências modernas do país. Embora Wanda não tenha produzido uma obra integralmente abstrata, sua pesquisa visual demonstra como as linguagens construtivas continuaram a influenciar artistas que buscaram novos caminhos para a representação. Assim, sua produção pode ser entendida como uma síntese singular entre a tradição abstrata e as novas formas de figuração que emergiram na arte brasileira durante a segunda metade do século XX, reafirmando a importância das mulheres na construção da modernidade artística nacional.

Principais exposições individuais

1969 – Galeria Relevo, Rio de Janeiro.

1970/73 – Petite Galerie, Rio de Janeiro.

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