Neste Dia

Walter Albuquerque Mello

Arquivista, jurado e criador de festival de cinema, criador de instituição pública do Brasil

Anúncio

Walter Albuquerque Mello (Salvador, 5 de novembro de 1928) é um arquivista. Ele é o idealizador do Arquivo Público do Distrito Federal, e um dos criadores do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, trabalho pelo qual recebeu o Troféu Candango, em 2013, e a medalha Paulo Emílio Salles Gomes em 2018.

Em 1971, foi membro do júri no 21º Festival de Berlim. Em 1997, tornou-se Cidadão Honorário de Brasília.

Walter Albuquerque Mello nasceu na cidade de Salvador, Bahia, no dia 5 de novembro de 1928. Filho de João Albuquerque Mello, funcionário público ligado a um órgão de combate à seca, e de Alta Moreira Chagas, ele nasceu em um contexto familiar marcado por relações complexas.

Ainda na primeira infância, por motivos que o próprio biografado desconhece, foi entregue por seus pais biológicos aos cuidados do casal Hilda Chagas e Cândido Guedes Chagas, passando a residir na Rua Coronel Paiva, em Ilhéus, região sul da Bahia. Durante sua infância e juventude, auxiliava seu pai de criação no comércio ambulante. O jovem era responsável pela administração financeira e controle de caixa das barracas montadas pela família para vender fogos de artifício durante as festas de São João e lança-perfume no carnaval local. Foi alfabetizado em casa por uma professora particular e, em seguida, matriculado no Grupo Escolar de Ilhéus, onde cursou o Primário (1935-1940) e o Ginásio (1941-1944). Sua primeira experiência profissional remunerada ocorreu auxiliando seu irmão de criação, Fernando Chagas, em uma tentativa frustrada de abrir um negócio próprio de venda de produtos escolares. Foi também durante o período em que viveu em Ilhéus que estabeleceu seu primeiro contato com as artes cênicas e o cinema.

Entre os 17 e 19 anos, sentindo-se isolado de seus vínculos biológicos e considerando que a cidade de Ilhéus havia esgotado suas possibilidades de crescimento pessoal, decidiu retornar a Salvador a convite de seu meio-irmão, João Albuquerque Mello. Na capital baiana, passou a morar com a família do irmão e a trabalhar na administração de uma pequena fábrica de calçados pertencente a ele. Chegou a ingressar na Faculdade de Ciências Sociais, porém abandonou o curso ao concluir que a academia tradicional não contemplaria suas aspirações intelectuais. A partir de então, passou a frequentar os círculos artísticos soteropolitanos, dando início à sua formação cultural autodidata, sendo especialmente influenciado pelas reflexões do escritor e crítico de cinema marxista Walter da Silveira.

No final da década de 1940, o irmão de Mello vendeu a fábrica de calçados e mudou-se com a família para o bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, após receber uma proposta de trabalho na empresa de seguros Vera Cruz. O baiano acompanhou a mudança, buscando ampliar seu contato com a cena literária e cinematográfica da então capital federal. Contudo, poucos meses após a chegada, João Albuquerque Mello faleceu repentinamente vítima de uma epidemia de febre tifoide. A tragédia levou a cunhada e os sobrinhos a retornarem para Salvador, deixando Mello sozinho e sem rede de apoio no Rio de Janeiro. Desamparado, aceitou o convite para mudar-se para Campinas, no estado de São Paulo, onde viveu por cerca de um ano e meio com seu antigo irmão de criação, Fernando Chagas, que atuava como representante de uma empresa de capitalização.

Sem conseguir firmar-se profissionalmente no interior paulista, Mello retornou sozinho ao Rio de Janeiro no início da década de 1950. Por intermédio de um conhecido que trabalhava no Jardim Zoológico, conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada no escritório administrativo da "Hermany Indústria e Comércio", uma empresa de fabricação e comércio de perfumes e cosméticos localizada na Rua Senador Dantas. Com a estabilidade financeira de um salário fixo, passou a residir de forma independente, morando sucessivamente nos bairros da Lapa, Bom Sucesso, São Cristóvão e Santa Tereza.

Foi durante sua década de residência no Rio de Janeiro que Mello consolidou seu conhecimento em artes por meio do que denominava "jornadas artísticas". Optou conscientemente pelo autodidatismo em detrimento do ensino superior formal. Frequentava com regularidade a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes, a Cinemateca do Museu de Arte Moderna, o Cine Teatro Rex e o Teatro Municipal, onde assistia a apresentações de orquestras internacionais. No ambiente efervescente da capital, formou laços de amizade e conviveu com artistas e intelectuais, incluindo Dorival Caymmi, o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho (Vianninha), o compositor Waldemar Henrique, o artista plástico Ronaldo Miranda e o pesquisador Roberto Nicolsky, sobrinho do líder comunista Luiz Carlos Prestes. Embora nunca tenha se filiado formalmente, desenvolveu um forte alinhamento com os ideais socialistas e chegou a frequentar ambientes de recrutamento do Partido Comunista Brasileiro.

Seu envolvimento precoce com a preservação do patrimônio histórico revelou-se na juventude, em 1956. Naquele ano, enquanto trabalhava no escritório da subsidiária Dorothy Gray, no bairro de Bom Sucesso, conheceu o colega tchecoslovaco Yaroslav Novotny. Novotny partilhou com ele a história de Klementina Kalašová, uma renomada cantora lírica tcheca que morrera esquecida em Salvador durante uma epidemia de febre amarela em 1889. Sensibilizado com o relato e demonstrando uma percepção natural sobre a importância da memória, Mello empreendeu uma viagem a Salvador com o objetivo exclusivo de localizar a sepultura da artista. Ele encontrou o túmulo no cemitério Quinta dos Lázaros (Quadra Monte Pio dos Artífices, nº 17), providenciou sua limpeza e enviou uma correspondência formal para o seu colega e amigo, Yaroslav Novotny, comunicando que a artista não havia sido esquecida no Brasil.

2. A MUDANÇA PARA BRASÍLIA E OS PRIMEIROS ANOS

A transferência definitiva de Mello para a região do Planalto Central originou-se de um acaso. Em 1959, ele dividia os custos do aluguel de um apartamento no Morro de Santa Tereza com Narceu de Almeida, jornalista da Revista Manchete. No início de 1960, Narceu foi convidado por seu cunhado, André Reis, funcionário do Ministério da Educação residente na recém-construída Brasília, para estruturar e gerenciar a primeira loja de discos e livros na nova capital. Sabendo do profundo conhecimento do amigo sobre música, cinema e literatura, Narceu convidou-o para integrar a sociedade. Semanas depois, o jornalista desistiu da empreitada ao aceitar um posto de correspondente em Paris, porém assegurou a André Reis que Mello assumiria o projeto. Sem vínculos formais que o prendessem ao Rio de Janeiro e atraído pelo desafio histórico da fundação de Brasília, o baiano desembarcou na nova capital entre julho e agosto de 1960 para organizar a "Master - discos", inaugurada na W3 Sul (Quadra 508), estabelecendo ali suas raízes profissionais.

Durante seu primeiro ano em Brasília, Mello residiu na casa de André Reis e Zilah Almeida Reis, trabalhando na administração da loja de discos de segunda a domingo. O estabelecimento, localizado no primeiro andar de um prédio da Quadra 508 na via W3 Sul, foi a primeira loja de discos do Plano Piloto e especializou-se na venda de álbuns de jazz e bossa nova. A loja adotou um modelo de atendimento que oferecia uma cabine envidraçada para que os clientes pudessem ouvir os discos antes da compra.

Nesse contexto comercial e cultural, o biografado conheceu o arquiteto Alcides da Rocha Miranda, professor, integrante do círculo de Oscar Niemeyer e cofundador da Universidade de Brasília (UnB). Paralelamente, em conjunto com Zilah Reis e outros amigos (Geraldo Sobral Rocha, Rogério Costa Rodrigues, Cleide Almeida e André Reis), fundou o Cineclube de Cinema Brasília. O grupo promovia exibições e debates de filmes na residência de Zilah e conseguiu reservar três dias da semana no Cine Brasília para sessões cinematográficas.

Em 1961, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, Alcides da Rocha Miranda assumiu a Superintendência da Fundação Cultural do Distrito Federal (FCDF) e convidou Mello para atuar como seu assessor na Diretoria Executiva, especificamente nas áreas de cinema e artes plásticas. Ele aceitou a nomeação, desligando-se da sociedade no estabelecimento comercial em 1962. Iniciou suas atividades formais em 1º de fevereiro de 1962 como "discotecário" e programador musical da Rádio Educadora de Brasília. Na rádio, contudo, foi demitido após alguns meses por transmitir um programa especial com músicas de Chopin em homenagem à data nacional da Polônia; a iniciativa foi considerada inadequada pela direção da emissora em virtude do contexto da Guerra Fria.

Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium
Walter Albuquerque Mello | World in Stories