Neste Dia

Tonico & Tinoco

Dupla brasileira

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Tonico & Tinoco foi uma dupla caipira formada pelos irmãos João Salvador Perez (São Manuel, 2 de março de 1917 – São Paulo, 13 de agosto de 1994), o Tonico, e José Salvador Perez (Botucatu, 19 de novembro de 1920 – São Paulo, 4 de maio de 2012), o Tinoco, considerada uma das duplas mais importantes da história da música caipira. Em 59 anos de carreira, Tonico e Tinoco realizaram quase 1 000 gravações, divididas em 83 discos. A dupla é um dos recordistas de vendas no Brasil e, de acordo com diferentes fontes, suas vendas totais variam entre 20 milhões e 50 milhões de discos. A dupla realizou cerca de 40 000 apresentações em toda a carreira.

João Salvador Perez nasceu em São Manuel, São Paulo, em 1917. Tonico se casou duas vezes, a última com Valdete Perez. O cantor teve três filhos.

Em 12 de agosto de 1994, Tonico caiu no hall de entrada do prédio onde morava, no bairro da Mooca, na capital paulista. Ele sofreu um traumatismo craniano devido ao choque que sofreu na cabeça em decorrência da queda. Com isso, foi internado logo em seguida, em 13 de agosto. No mesmo dia, morreu aos 77 anos. O músico foi enterrado no dia seguinte no cemitério Congonhas, e em seu velório estiveram presentes o político Luiz Antônio Fleury Filho e os cantores Sula Miranda, Milionário, Jair Rodrigues e Sérgio Reis.

José Salvador Perez nasceu em Botucatu, São Paulo, em 1920, e foi o artista sertanejo que permaneceu mais tempo em atividade, estando ativo por 82 anos. Morreu aos 91 anos, vítima de insuficiência respiratória. Foi velado no cemitério da Quarta Parada, na cidade de São Paulo e sepultado no cemitério da Vila Alpina, na mesma cidade. À época, a então presidente do Brasil Dilma Rousseff lamentou a morte de Tinoco.

O gosto pela música veio dos avós maternos Olegário e Isabel, que alegravam a colônia com suas canções, ao som de um antigo acordeão. A primeira canção que aprenderam foi “Tristeza do Jeca” em 1925. Em 15 de agosto de 1935 fizeram a primeira apresentação profissional. Cantaram na Festa de Aparecida de São Manuel, onde milhares de pessoas de todo o Brasil visitam o segundo Santuário dedicado à Padroeira do Brasil. Junto com o primo Miguel, formavam o "Trio da Roça".

Em 1931, Tonico e Tinoco moravam em Botucatu (São Paulo), na fazenda Vargem Grande, de Petraca Bacci, com os pais, Salvador Pérez — um espanhol de León, chegado ao Brasil criança, em 1892 e Maria do Carmo, uma brasileira. A exemplo de outras crianças da época, os dois garotos, mal aprenderam a falar, já eram cantadores das modas de viola. Aprendiam as letras com Virgílio de Souza, violeiro das redondezas. Num baile que Tonico conheceu e apaixonou-se por Zula, filha do administrador da fazenda, Antônio Vani.

Como não havia rádio na região, o conjunto ficou famoso. Mas Tonico & Tinoco só cantavam em dupla nas horas vagas ou nas folgas do trabalho, quando a turma parava para tomar café. Cantavam as modas de viola de Jorginho do Sertão, um autor imaginário, que utilizavam para assinar suas canções, que falava da crise no país com as revoluções de 1930 e 1932.

No fim do ano agrícola de 1937, os Perez decidiram, com outras famílias, tentar a vida na cidade de Sorocaba (São Paulo). As irmãs Antônia, Rosalina e Aparecida foram trabalhar na fábrica de tecidos Santa Maria. Tonico foi ser servente na Pedreira Santa Helena, fábrica do cimento Votorantim. Tinoco virou engraxate na Estação Sorocabana e Chiquinho engajou-se na construção da Rodovia Raposo Tavares, que liga o sul de São Paulo a Mato Grosso do Sul. A crise econômica do país chega ao auge. Getúlio Vargas implanta a ditadura do Estado Novo. Adolf Hitler invade e ocupa a Checoslováquia e depois a Polônia. Começa a Segunda Guerra Mundial.

A vida em Sorocaba fica insuportável, nada dá certo para os Pérez e eles decidem retornar ao campo, agora para a fazenda São João Sintra, em São Manuel (São Paulo).

A volta, contudo, possibilitou aos irmãos Perez a primeira chance de cantar numa Rádio. O administrador da fazenda, José Augusto Barros, levou-os para cantar na Rádio Clube de São Manuel — ainda hoje lá, na rua Coronel Rodrigues Simões, no centro da cidade. Assim, até o fim de 1940, eles ficam trabalhando na roça durante a semana e aos domingos cantam na emissora da cidade. Só por amor à arte, sem ganhar. As dificuldades levaram os Pérez a uma derradeira migração.

Em janeiro de 1941 chegam, de mala e cuia — quatro sacos com os “trens” de cozinha e duas trouxas de roupa — a São Paulo. À falta de profissão, as meninas foram trabalhar em casa de família, Tinoco num depósito de ferro-velho, Chiquinho na metalúrgica São Nicolau e Tonico, sem outra alternativa, comprou uma enxada e foi ser diarista nas chácaras do bairro de Santo Amaro.

Os tempos duros da cidade grande tinham lá sua compensação, principalmente nos domingos, quando a família ia ao circo, na rua Lins de Vasconcelos no então pacato bairro do Cambuci. Num desses espetáculos, os manos conheceram pessoalmente Raul Torres e Florêncio, a dupla de violeiros mais famosa de São Paulo e que depois, com Rielli na sanfona, formaram na Rádio Record o famoso trio "Os Três Batutas do Sertão”.

Em São Paulo, inscreveram-se no programa de calouros comandado por Chico Carretel (Durvalino Peluzo), na Rádio Emissora de Piratininga. O capitão Furtado, que estava sem violeiro em seu programa Arraial da Curva Torta, na Rádio Difusora, promoveu então concurso para preencher a vaga: os dois irmãos, formando a dupla Irmãos Perez, cantaram o cateretê "Tudo tem no sertão" (Tonico). Classificados para a final, interpretaram de Raul Torres e Cornélio Pires, (esse último um radialista e pesquisador que foi pioneiro no estudo da vida sertaneja, especialmente a paulista, e que deixou uma extensa obra a respeito.) "Adeus Campina da Serra". Quando terminaram, o auditório aplaudiu de pé, em meio a lágrimas. Todos pediam bis àquela dupla que cantava diferente, com afinação, fino e alto. Todos os outros violeiros foram abraçá-los. O cronômetro marcava 190 segundos de aplausos, contra apenas 90 segundos da dupla segundo colocada.

No dia seguinte o Trio da Roça estava contratado pela Rádio Difusora, que naquele período havia sido comprada pela Tupi FM, parte de ofensiva do jornalista Assis Chateaubriand para formar uma poderosa rede de veículos de comunicação — os Diários e Emissoras Associados. Três meses depois o contrato foi renovado por dois anos e o salário foi acertado em cruzeiros, a nova moeda que aposentara os réis. Eram 1 200,00, uma fortuna se comparado ao salário mínimo da época, de 280,00. Já sem o primo Miguel, eles eram apenas os irmãos Pérez. Um dia, durante um ensaio do programa Arraial da Curva Torta, o Capitão Furtado — de batismo Arioswaldo Pires, sobrinho de Cornélio Pires , apresentador do programa e também lendário divulgador da música sertaneja — disse que uma dupla tão original, com vozes gêmeas, não poderia ter nome espanhol. Batizou-os, na hora, de Tonico & Tinoco.

A divulgação nos programas da rádio transformava a dupla em sucesso imediato, fazendo surgir dezenas de convites para shows. A primeira apresentação dessas foi no cine Catumbi, em São Paulo, hoje transformado em uma casa de forró sertanejo. Depois rumaram para o interior, em excursões que demoravam semanas. Apresentavam-se em cinemas, clubes e até em pátios vazios de armazéns. Quando terminaram a primeira excursão, no Circo Biriba, em Ribeirão Preto, fizeram a partilha do lucro: quatro mil e quinhentos cruzeiros para cada um.

A dupla estreou em disco, na Continental, em 1944, com o cateretê "Em vez de me agradecê" (Capitão Furtado, Jaime Martins e Aimoré), que foi lançada em 1945. Na gravação de "Invés de me agardecê" ocorreu um fato inusitado, pois eles a gravaram e em seguida, quando foram gravar o lado B do disco soltaram a voz tão alto, da forma como cantavam lá na roça e estouraram o microfone. Como o processo de gravação era algo muito caro, o disco saiu apenas com um lado, mas como punição a dupla precisou ficar seis meses fazendo aula de canto para educar a voz e voltar a gravar. Por isso que o lançamento do primeiro 78 rpm para o segundo é curto pois eles gravaram a primeira moda ainda em 1944.

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