Titus Burckhardt (Florença, 1908 — Lausana, 1984) foi um escritor suíço e destacado membro da Escola Perenialista ou Tradicionalista. Foi autor de muitos livros sobre metafísica, cosmologia, antropologia, esoterismo, alquimia, sufismo, simbolismo e arte sacra.
Descendente de uma família tradicional de Basileia, na Suíça, Titus Burckhardt era filho do escultor Carl Burckhardt (1878-1923) e sobrinho neto de Jacob Burckhardt (1818-1897), historiador da arte e especialista na Renascença. Sua árvore genealógica também inclui Johann Ludwig Burckhardt (1784-1817), explorador que descobriu a cidade nabateana de Petra e os templos egípcios de Abu Simbel. Titus nasceu em Florença, na Itália, em 24 de outubro de 1908. No ano seguinte sua família se estabeleceu em Basileia. Ali ele frequentou a mesma escola primária em que estudou Frithjof Schuon, e os dois formaram uma amizade que duraria até o fim da vida. Em 1920, sua família deixou Basileia, mudando-se para Ligornetto, no cantão suíço de Ticino, onde seu pai veio a falecer três anos mais tarde.
Por volta de 1927, Burckhardt começou a estudar pintura, escultura e história da arte — em Munique e Paris. Atraído por um estilo de vida tradicional que o Ocidente não podia lhe oferecer, aproveitou-se de uma pausa em seus estudos para visitar o Marrocos (1928 ou 1929), onde se dedicou a desenhar e a pintar. Essa estada, que foi o começo de sua busca espiritual, o marcou profundamente. No retorno à Europa, descobriu os escritos do metafísico francês René Guénon, em quem "encontrou a chave para o mundo que o tinha cativado".
No começo de 1933, retornou ao Marrocos em busca de um mestre espiritual. Converteu-se ao Islã e aprendeu árabe, o que lhe permitiu assimilar os clássicos sufis na língua original. Após alguns desapontamentos, sua busca o levou a Fez, onde encontrou o xeique Ali ad-Darqawi, neto e sucessor espiritual de Muhammad al-Arabi al-Darqawi (†1823), reformador da ordem shadhilita. Burckhardt foi iniciado pelo Cheikh e recebido na Tariqa Darqawiya. Num esforço de se sustentar, adquiriu um rebanho de carneiros e os conduzia a pastar na zona rural do Médio Atlas, mas essa atividade pouco ajudou suas precárias finanças. Paralelamente a isso, tornou-se aprendiz de um mestre artesão de Fez no ofício de produção de azulejos zellij. Esse mestre artesão o incentivou a memorizar a Alfiyya de ibne Maleque, um poema didático de mil versos que expõe todas as regras da gramática árabe; Burckhardt lhe seria eternamente grato por isso.
No começo de 1935, recebeu em Fez a visita de Frithjof Schuon, que voltava para a Europa após ter estado na zawiya do falecido Cheikh Al-Alawi, em Mostaganém. Schuon tinha recebido a iniciação deste cheikh shadhilita em 1932. Burckhardt logo compreendeu que seu guia espiritual predestinado não era senão seu amigo de infância. A completa integração de Burckhardt na vida local o tinha tornado suspeito aos olhos das autoridades francesas, que lhe ordenaram que deixasse o país. Assim, na primavera de 1935, ele voltou a Basileia. Isso marcou o começo de sua correspondência com René Guénon, bem como sua afiliação à tariqa de Schuon. Schuon, que na época vivia na França, encarregou Burckhardt da direção espiritual de seus discípulos de Basileia.
De 1936 a 1938, Burckhardt estudou história da arte e línguas orientais na Universidade de Basileia. 1937 marcou o começo de sua colaboração com a revista Études Traditionnelles, de inspiração guénoniana, na qual ele publicou artigos sobre arte tradicional (em particular a arte hindu, cristã e muçulmana), alquimia, cosmologia e astrologia tradicional, folclore e vários simbolismos. Muitos desses artigos foram depois reunidos em dois volumes. A revista também publicou suas traduções de tratados sufis de Algazali, ibne Arabi, Abdelcarim Aljili e Alárabi Adarcaui. Na visão do professor paquistanês Muhammed Suheyl Omar, Burckhardt é um dos poucos autores que não só expôs, mas também assimilou, a metafísica de ibne Arabi, visão essa confirmada por Saíde Hossein Nasr, especialista em Islã, que disse ainda que a obra de Burckhardt tinha contribuído para o interesse do Ocidente em ibne Arabi que se manifestou a partir da metade do século 20.
Burckhardt se casou em 1939. Pouco depois, foi nomeado diretor artístico e diretor de publicações da editora suíço-alemã Urs Graf, sediada em Olten e Basileia e especializada na reprodução de manuscritos medievais com iluminuras. Burckhardt trabalhou nessa editora até sua aposentadoria, em 1968. As línguas com que trabalhava eram o alemão, o francês, o árabe, o latim, o inglês e o italiano. Ele e sua esposa foram morar em Berna, a meio caminho entre Olten e a cidade de Lausana, onde Schuon residia. A qualidade das publicações da Urs Graf lhe trouxeram reputação mundial em sua área, e em outubro de 1950, em audiência privada, Burckhardt presenteou o Papa Pio XII com um fac-símile quadricrômico, em três volumes, do Livro de Kells (Evangeliorum quatuor codex Cenannensis), evangelho da tradição céltica que data de 800 A.D., fac-símile este publicado por sua editora.
Em 1952, Burckhardt e sua esposa se mudaram para Lausana, onde ele fundou o ramo franco-suíço da Urs Graf e criou a coleção Stätten des Geistes ("Cidades do Espírito"), para a qual escreveu e ilustrou três volumes: Siena, Cidade da Virgem; Fez, Cidade do Islã; e Chartres e o nascimento da catedral. Estes livros vieram a completar uma coleção que já incluía volumes sobre o Monte Atos, o Monte Sinai, a Irlanda céltica, Constantinopla e Quioto. Em 1951, 1958 e 1960, foram publicadas por outras editoras as edições originais de seus livros Introdução às Doutrinas Esotéricas do Islã, Princípios e Métodos da Arte Sagrada e Alquimia, Ciência do Cosmo, Ciência da Alma. Junto com Guénon, Coomaraswamy e Schuon, Burckhardt foi considerado um dos grandes porta-vozes, no século 20, da philosophia perennis, "aquela 'sabedoria não-criada' expressada no platonismo, no Vedanta, no sufismo, no taoísmo e em outros ensinamentos autênticos esotéricos e sapienciais". De acordo com o filósofo William Stoddart, Burckhardt — historiador e filósofo da arte, esoterista iniciado num caminho sufi, metafísico e artista — dedicou seu trabalho de escritor a expor "os diferentes aspectos da Sabedoria e da Tradição."
Quando o Marrocos, em 1956, recuperou sua independência, Burckhardt voltou a visitar o país regularmente, começando em 1960. Em 1972, a UNESCO, junto com o governo marroquino, o indicou para que assumisse o plano de restauração e reabilitação da medina de Fez e de seu patrimônio religioso, bem como de seu artesanato. Ele ali perneceu por cinco anos, consciente de que a antiga cidade era provavelmente o mais bem preservado modelo de urbanismo islâmico, e que, uma vez reabilitada, Fez "poderia ser tornar uma referência para a continuidade de um modelo urbano tradicional, capaz de evolução, mas ainda conservando suas qualidades intrínsecas." Nos primeiros dois anos, Burckhardt, com um bloco de desenho e uma câmera, fez sozinho um inventário dos mais importantes edifícios religiosos e seculares, de seu exterior e de seu interior, para avaliar-lhes o estado de conservação. Nos três anos seguintes, ele coordenou uma equipe interdisciplinar que tinha por tarefa estabelecer um plano diretor para a recuperação dos monumentos e do tecido urbano, incluindo o artesanato e os ofícios, "cujo papel é criar um ambiente que permita aos valores espirituais se manifestarem." O "Plano Diretor de Urbanismo para a Cidade de Fez" foi adotado e publicado pela UNESCO em 1980.
Durante sua missão em Fez, Burckhardt escreveu uma obra de caráter geral sobre a arte islâmica, A Arte do Islã: Linguagem e Significado, a pedido dos organizadores do Festival do Mundo Islâmico (Londres, 1976), evento no qual acabou tendo um papel de destaque. Burckhardt foi também muitas vezes convidado a dar palestras, em países do Ocidente e do Oriente, como especialista em arte e urbanismo tradicional, ou para ser o anfitrião de seminários ou simplesmente participar deles. Jean-Louis Michon, especialista no Islã que o conheceu bem, assim descreveu suas qualidades como orador: