Teodoro Estudita (em grego: Θεόδωρος ο Στουδίτης), também chamado de Teodoro de Estúdio, foi um monge bizantino e abade do Mosteiro de Estúdio em Constantinopla. Nascido em 759 na cidade de Constantinopla, então capital do Império Bizantino, Teodoro teve um papel preponderante no renascimento tanto do monasticismo bizantino quanto dos gêneros literários clássicos no Império. Além disso, ficou conhecido como um feroz adversário do Iconoclasma, um dos diversos conflitos que o colocaram contra o imperador e o patriarca de Constantinopla.
Teodoro nasceu em Constantinopla em 759, o primogênito de Fotino, um importante oficial de finanças na burocracia palaciana da capital imperial,, e Teoctista, filha de uma distinta família constantinopolitana. O irmão de Teoctista e tio de Teodoro, Platão, era também um oficial de alta patente na burocracia financeira do palácio. A família, portanto, controlava uma parte significativa, senão toda, a administração financeira do império durante o reinado do imperador Constantino V Coprônimo (r. 741–775). Teodoro tinha dois jovens irmãos (José, que depois se tornou o arcebispo de Tessalônica, e Eutímio) e uma irmã, cujo nome é desconhecido..
Geralmente se assume que a família de Teodoro pertencia ao partido iconódulo durante o primeiro período do Iconoclasma. Não há, porém, evidências que apoiem este ponto de vista e as altas posições mantidas pelos membros da família na burocracia imperial da época tornaria qualquer apoio aos iconódulos altamente improvável. Além disso, quando Platão deixou o cargo e se dedicou ao sacerdócio em 759, ele foi ordenado por um abade que, se não era um iconoclasta ativo, pelo menos não ofereceu resistência às políticas iconoclastas de Constantino V. A família como um todo era, muito provavelmente, indiferente à questão dos ícones durante este período.
De acordo com a literatura hagiográfica posterior, Teodoro recebeu uma educação à altura do status de sua família e, dos sete anos em diante, ele foi instruído por um tutor particular, eventualmente se concentrando principalmente em teologia. Não é claro, porém, que estas oportunidades estariam disponíveis mesmo para as famílias mais ricas de Constantinopla no século VIII e, por isso, é provável que Teodoro seja, ao menos em parte, um autodidata.
Primeiros anos da carreira monástica
Depois da morte do imperador Leão IV, o Cazar, em 780, o tio de Teodoro, Platão, que vivia como um monge no Mosteiro de Símbola, na Bitínia, desde 759, visitou Constantinopla e persuadiu a família toda de sua irmã Teoctista a também tomar os votos monásticos. Teodoro, seu pai e seus irmãos viajaram para a Bitínia com Platão em 781, onde eles começaram a transformar a propriedade da família numa instituição religiosa, que se tornou conhecida como Mosteiro de Sacúdio. Platão se tornou o abade da nova instituição e Teodoro era seu "braço direito". Os dois modelaram as regras de acordo com a obra de Basílio de Cesareia.
Durante o período da regência da imperatriz Irene, o abade Platão reapareceu como um aliado do patriarca Tarásio e como um membro do partido iconódulo do patriarca no Segundo Concílio de Niceia, onde a veneração dos ícones foi declarada ortodoxa. Logo depois, o próprio Tarásio ordenou Teodoro um padre. Em 794, Teodoro se tornou o abade de Sacúdio, quando seu tio se retirou da operação diária do mosteiro e se dedicou ao silêncio.
Também em 794, o imperador Constantino VI decidiu se separar de sua primeira esposa, Maria de Âmnia, para se casar com Teódota, uma das cubiculárias (dama de companhia) de Maria e prima de Teodoro Estudita. Ainda que o patriarca possa ter inicialmente resistido ao movimento, pois o divórcio sem prova de adultério por parte da esposa poderia ser considerado como ilegal, ele no final acabou cedendo. O casamento entre Constantino e Teódota foi celebrado em 795, não pelo patriarca como seria de se esperar, mas por um tal José, um padre de Santa Sofia.
Uma sequência de eventos algo obscura se seguiu (a chamada "controvérsia moequiana", do em grego: μοιχός - moichos, "adúltero"), na qual Teodoro iniciou um protesto contra o casamento a partir do Mosteiro de Sacúdio e parece ter exigido a excomunhão não apenas do padre José, mas também de todos os receberam a comunhão dele, algo que, por José ser um padre da igreja imperial, implicitamente levava à excomunhão do imperador e sua corte. Esta exigência não tinha nenhum valor oficial, porém, e Constantino parece ter tentando se reconciliar com Teodoro e Platão (que agora eram parentes por causa do casamento), convidando-os a visitá-lo durante um passeio nos banhos imperiais em Prusa, na Bitínia. Nenhum deles, no entanto, compareceu ao evento.
Como resultado, tropas imperiais foram enviadas para Sacúdio e a comunidade foi dispersada. Teodoro foi açoitado e, juntamente com dez outros monges, banido para a Tessalônica, enquanto que Platão foi preso na capital. Os monges chegaram no seu novo destino em março de 797, mas não ficariam por muito tempo. Em agosto do mesmo ano, Constantino VI foi derrubado e cegado, e sua mãe, a nova imperatriz Irene, reverteu o exílio.
Após a ascensão de Irene, o padre José foi expulso e Teodoro foi recebido no palácio imperial. Os monges retornaram para o Mosteiro de Sacúdio, mas foram forçados de volta para a capital entre 797 e 798 por causa de uma invasão árabe na Bitínia. Nesta época, Irene ofereceu a Teodoro a liderança do antigo Mosteiro de Estúdio em Constantinopla, que ele prontamente aceitou. Teodoro então iniciou um programa de construção de diversas oficinas no mosteiro para garantir sua independência, construindo também uma biblioteca e um scriptorium, além de restaurar e redecorar a igreja. Ele compôs uma série de poemas sobre os deveres dos vários membros da comunidade, que provavelmente estavam inscritos e expostos por todo o mosteiro. Ele também compôs a regra para governar o mosteiro e transformou a comunidade de Estúdio num centro de uma extensa rede de mosteiros dependentes, incluindo Sacúdio. Ele mantinha contato com estes outros mosteiros sobretudo através de sua prodigiosa produção literária (cartas e catecismos), que chegaram ao auge neste período, e pelo desenvolvimento de um sistema de mensageiros que era tão elaborado que parecia um serviço postal privado.
A este período também podem ser atribuídos os epigramas iconófilos, acrósticos iâmbicos, compostos por Teodoro para substituírem os "epigramas iconoclastas" que estavam previamente expostos no Portão Chalke do Grande Palácio de Constantinopla. Já foi sugerido que eles teriam sido encomendados por Irene como outro sinal de suas boas graças para com Teodoro, embora uma comissão sob Miguel I também possa ter sido o patrono. De toda forma, eles foram removidos em 815 por Leão V, o Armênio, e novamente substituídos por versos iconoclastas.
Em 806, o patriarca Tarásio morreu e o imperador Nicéforo I, o Logóteta começou a buscar um substituto. Parece provável que Platão tenha colocado o nome de Teodoro como uma possibilidade, mas Nicéforo I (não o imperador), um leigo com o estatuto de asecreta na burocracia imperial, foi o escolhido. Esta escolha provocou imediatos protestos por parte dos "estuditas" (monges de Estúdio) e, principalmente, de Teodoro e Platão, que eram contra a elevação de um leigo ao trono patriarcal. Ambos foram presos por 24 dias por ordem do imperador Nicéforo.
O imperador Nicéforo logo pediu ao seu novo patriarca que reabilitasse o padre José, que oficiara o casamento de Constantino e Teódota, possivelmente pela intervenção de José na resolução pacífica na revolta de Vardanes, o Turco. Em 806, o patriarca Nicéforo reuniu um sínodo para julgar o caso e Teodoro estava presente. O grupo decidiu readmitir José como sacerdote, uma decisão que Teodoro não objetou na época.
Portanto, as relações entre o abade estudita e o patriarca parecem ter sido inicialmente pacíficas, uma percepção reforçada pela escolha, em 806-807, do irmão de Teodoro, José, como arcebispo de Tessalônica. Contudo, logo após a sua ordenação em 808, Teodoro começou a expressar publicamente a sua indisposição de se associar com o reabilitado padre José e com todos os que também se associavam com ele, pois ele considerava a sua reabilitação não canônica. Como na primeira disputa sobre o padre José, esta recusa implicitamente implicava na recusa de Teodoro de se envolver com o imperador e com o patriarca de Constantinopla.