Stephen Jay Gould ([ɡuːld] GOOLD; 10 de setembro de 1941 – 20 de maio de 2002) foi um estadunidense paleontólogo, biólogo evolucionista e historiador da ciência, e um dos autores mais influentes e amplamente lidos divulgadores científicos da sua geração. Gould passou a maior parte de sua carreira lecionando na Universidade Harvard e trabalhando no American Museum of Natural History em Nova Iorque. Em 1996, Gould foi contratado como Vincent Astor Visiting Research Professor of Biology na Universidade de Nova Iorque, após o que ele dividiu seu tempo de ensino entre lá e Harvard.
A contribuição mais significativa de Gould para a biologia evolutiva foi a teoria do equilíbrio pontuado desenvolvida com Niles Eldredge em 1972. A teoria propõe que a maior parte da evolução é caracterizada por longos períodos de estabilidade evolutiva, pontuados esporadicamente por períodos rápidos de especiação ramificada. A teoria foi contrastada com o gradualismo filético, a ideia popular de que a mudança evolutiva é marcada por um padrão de transformação suave e contínua no registro fóssil.
A maior parte da pesquisa empírica de Gould baseou-se nos gêneros de caracol terrestre Poecilozonites e Cerion. Ele também fez contribuições importantes para a biologia evolutiva do desenvolvimento, recebendo amplo reconhecimento profissional por seu livro Ontogeny and Phylogeny. Na teoria evolutiva, ele se opôs ao estrito selecionismo, à sociobiologia aplicada a humanos e à psicologia evolucionista. Ele fez campanha contra o criacionismo e propôs que ciência e religião deveriam ser consideradas dois campos distintos (ou "magistérios não-sobrepostos"), cujas autoridades não se sobrepõem.
Gould era conhecido pelo grande público principalmente por seus 300 ensaios populares na revista Natural History, e por seus numerosos livros escritos tanto para especialistas quanto para não especialistas. Em abril de 2000, a Biblioteca do Congresso dos EUA o nomeou como "Lenda Viva".
Stephen Jay Gould nasceu em Queens, Nova Iorque, em 10 de setembro de 1941. Seu pai, Leonard, era taquígrafo judicial e veterano da Segunda Guerra Mundial pela Marinha dos Estados Unidos. Sua mãe, Eleanor, era artista, filha de imigrantes judeus que viviam e trabalhavam no Garment District da cidade. Gould e seu irmão mais novo, Peter, foram criados em Bayside, um bairro de classe média na região nordeste de Queens. Ele frequentou a P.S. 26 e se formou na Jamaica High School.
Quando Gould tinha cinco anos de idade, seu pai o levou ao Salão dos Dinossauros no American Museum of Natural History, onde ele se deparou pela primeira vez com Tyrannosaurus rex. “Eu não fazia ideia de que existiam tais coisas — fiquei impressionado”, lembrou Gould certa vez. Foi nesse momento que ele decidiu se tornar paleontólogo.
Criado em um lar judaico secular, Gould não praticava formalmente religião e preferia ser chamado de agnóstico. Quando questionado diretamente se era agnóstico na revista Skeptic, ele respondeu:
If you absolutely forced me to bet on the existence of a conventional anthropomorphic deity, of course I'd bet no. But, basically, Huxley was right when he said that agnosticism is the only honorable position because we really cannot know. And that's right. I'd be real surprised if there turned out to be a conventional God.
Embora tenha “sido criado por um pai marxista”, ele afirmou que a política de seu pai era “muito diferente” da sua. Descrevendo suas próprias visões políticas, disse que elas “tendem à esquerda de centro”. Segundo Gould, os livros políticos mais influentes que ele leu foram The Power Elite de C. Wright Mills e os textos políticos de Noam Chomsky.
Enquanto frequentava o Antioch College em Yellow Springs, Ohio, no início da década de 1960, Gould atuou no movimento dos direitos civis e muitas vezes fez campanha em prol da justiça social. Quando estudou na Universidade de Leeds como aluno visitante de graduação, organizou manifestações semanais em frente a uma casa de dança em Bradford que se recusava a admitir pessoas negras. Gould manteve esses protestos até que a política fosse revogada. Ao longo de sua carreira e escritos, ele se manifestou contra toda forma de opressão cultural, especialmente o que considerava pseudociência usada a serviço do racismo e da discriminação sexual.
Nos ensaios científicos que escrevia para a revista Natural History, Gould frequentemente se referia a seus interesses e passatempos não científicos. Quando menino, ele colecionava cartões de beisebol e manteve-se um ávido torcedor do New York Yankees ao longo de sua vida. Já adulto, era fã de filmes de ficção científica, mas muitas vezes lamentava o fraco enredo e o modo como a ciência era apresentada nesses filmes. Outros interesses incluíam cantar barítono no Boston Cecilia; ele também era um grande aficionado das óperas de Gilbert e Sullivan. Ele colecionava livros antigos raros, possuía um grande entusiasmo por arquitetura e adorava caminhar nas cidades. Ele frequentemente viajava para a Europa e falava francês, alemão, russo e italiano. Às vezes, fazia menções bem-humoradas à sua tendência de ganhar peso.
Gould casou-se com a artista Deborah Lee em 3 de outubro de 1965. Gould conheceu Lee enquanto ambos eram estudantes no Antioch College. Eles tiveram dois filhos, Jesse e Ethan, e foram casados por 30 anos. Seu segundo casamento, em 1995, foi com a artista e escultora Rhonda Roland Shearer.
Em julho de 1982, Gould foi diagnosticado com mesotelioma peritoneal, um tipo letal de câncer que afeta o revestimento abdominal (o peritônio). Esse câncer é frequentemente encontrado em pessoas que ingeriram ou inalaram fibras de amianto, um mineral que era utilizado na construção do Museu de Zoologia Comparada de Harvard. Depois de uma recuperação difícil de dois anos, Gould publicou em 1985 uma coluna para a revista Discover, intitulada “The Median Isn't the Message”, discutindo sua reação ao ler que “o mesotelioma é incurável, com mortalidade mediana de apenas oito meses após a descoberta”. Em seu ensaio, ele descreve o real significado desse fato e o alívio ao perceber que médias estatísticas são abstrações úteis, mas, sozinhas, não englobam “o nosso mundo real de variação, matizes e contínuos”.
Gould também foi um defensor do uso medicinal da maconha. Durante seus tratamentos contra o câncer, fumou maconha para ajudar a aliviar os longos períodos de náusea intensa e incontrolável. De acordo com Gould, a droga teve um “efeito muito importante” em sua recuperação final. Posteriormente, ele questionou como “qualquer pessoa humana poderia negar tal substância benéfica a indivíduos em grande necessidade simplesmente porque outros a utilizam para propósitos diferentes”. Em 5 de agosto de 1998, o depoimento de Gould ajudou a obter êxito no processo movido pelo ativista portador de HIV Jim Wakeford contra o Governo do Canadá para ter o direito de cultivar, possuir e usar maconha para fins medicinais.
Em fevereiro de 2002, uma lesão de aproximadamente 3 centimetros (1,2 in) foi encontrada na radiografia de tórax de Gould, e oncologistas diagnosticaram-no com câncer em estágio IV. Gould faleceu dez semanas depois, em 20 de maio de 2002, devido a um adenocarcinoma metastático de pulmão (uma forma agressiva de câncer que já havia se espalhado para o cérebro, fígado e baço). Esse câncer não estava relacionado ao enfrentado em 1982, embora também esteja associado à exposição ao amianto. Ele morreu em sua casa, “em uma cama montada na biblioteca de seu loft em SoHo, cercado por sua esposa, Rhonda, por sua mãe, Eleanor, e pelos muitos livros que amava”.
Gould iniciou seus estudos superiores no Antioch College, graduando-se com dupla habilitação em geologia e filosofia em 1963. Nesse período, ele também estudou na Universidade de Leeds no Reino Unido. Depois de concluir sua pós-graduação na Universidade Columbia, em 1967, sob a orientação de Norman Newell, foi imediatamente contratado pela Universidade Harvard, onde trabalhou até o fim de sua vida (1967–2002). Em 1973, Harvard o promoveu a professor de geologia e curador de paleontologia de invertebrados no Museum of Comparative Zoology da instituição.