Sapateiro (feminino, sapateira) é a pessoa que se dedica a fazer, consertar ou vender sapatos.
Uma das origens da palavra "sapateiro" é o termo em francês "cordonnier" (em português: cordoeiro), que vem da palavra "cordon" (em português: cordão), porque os primeiros sapateiros usavam cordas para fazer sapatos. Uma lenda, segundo o poeta francês Pétrus Borel [fr], sugere que "cordonnier" tem origem na palavra "cors" (em português: calos; sapatos que causam calos).
Os cordoeiros eram responsáveis pela fabricação de botas e sapatos, e se distinguiam dos sapateiros comuns, também chamados remendões, que consertavam botas e sapatos, ou, como se dizia antigamente, os cordoeiros trabalhavam com couro novo, enquanto os sapateiros comuns trabalhavam com couro velho. Durante a Idade Média, um cordoeiro era aquele que trabalhava com couro cordoeiro, tipo de couro espanhol originalmente produzido em Córdova a partir de peles de cabra — o que explica outra etimologia proposta, que remonta à palavra "cordouan" (em português: couro). Embora somente os ricos usassem couro cordovês para sapatos naquela época, o termo cordoeiro acabou sendo estendido para abranger todos aqueles que fabricavam botas e sapatos de couro. Os sapateiros eram comparados a artistas por sua habilidade, e os sapatos produzidos por eles, à obras de arte.
Os irmãos Crispim e Crispiniano, originários de Roma, são os santos padroeiros dos sapateiros. Eram de família nobre que se converteu ao cristianismo durante o reinado de Diocleciano, e foram trabalhar em Soissons, na França, pregando a palavra de Deus enquanto fabricavam sapatos para os pobres, a quem não cobravam, e para os ricos que apreciavam o seu trabalho.
Quando foi ordenada a perseguição aos cristãos pelo imperador Diocleciano, Crispim e Crispiniano acabaram presos pelo Maximiano Hérculio e pressionados a abandonar sua fé, sendo martirizados depois de se recusarem a fazê-lo. Após terem sobrevivido a diversas torturas, acabaram decapitados no ano de 237. A comemoração do dia dos dois santos ocorre em 25 de outubro.
Os primeiros sapateiros seguiam os padrões da Grécia Antiga, onde passavam solitárias horas de trabalho. Já os sapateiros romanos costumavam se amontoar em uma rua particular, assim como na Londres medieval, onde os sapateiros se encontravam ao redor das áreas do Royal Exchange e St. Martin le Grand.
Na Idade Média, era o sapateiro quem concentrava a produção de calçados, realizada de forma estritamente artesanal. O sapateiro dominava todas as etapas da fabricação, desde a concepção até o produto final, sem que existisse separação entre o trabalho criativo e a execução manual. O conhecimento técnico do sapateiro era preservado e transmitido por meio de relações entre mestre e aprendiz, ou dentro do núcleo familiar, garantindo a continuidade do ofício através das gerações.
O foco da produção residia na tradição e na execução técnica rigorosa, deixando pouco espaço para a inovação ou para a criação de novos modelos. Paralelamente, a organização desses profissionais consolidou-se através das guildas de ofícios, que inicialmente eram confrarias religiosas. Um marco importante desse período foi a formalização da guilda dos sapateiros na Catedral de Paris, estabelecida pelo rei Carlos V em 1379, conferindo uma estrutura institucional à profissão.
A profissão de sapateiro no Brasil iniciou-se de forma artesanal no século XIX, intimamente ligada à pecuária e à expansão da cultura cafeeira. Nesse estágio, o sapateiro era um artesão, que dominava desde o curtimento do couro — que podia levar até seis meses em tanques com casca de barbatimão — até a confecção final do calçado à mão.
Com a imigração europeia iniciada por volta de 1824, alemães, italianos, ingleses e escoceses chegaram ao Rio Grande do Sul. Tais grupos trouxeram curtidores de couro e sapateiros que já dominavam as técnicas desenvolvidas na Europa. Com o tempo, a produção se expandiu para outros estados, consolidando polos industriais em São Paulo, como Franca e Jaú, Ceará, Bahia, Santa Catarina e Minas Gerais.
Socialmente, a profissão costumava ser associada a um baixo status, muitas vezes restrita a pessoas de baixa condição social, devido à natureza barulhenta e suja do manuseio do couro. Embora historiadores europeus como Hobsbawm destaquem o radicalismo político dos sapateiros, essa militância não foi tão acentuada no Brasil. A identidade do sapateiro brasileiro foi moldada por um confronto entre nostalgia do trabalho criativo individual e rígida disciplina da era industrial, com muitos artesãos sentindo que as máquinas lhes haviam tirado sua profissão e o valor do seu conhecimento técnico.
«Sapateiro: profissão que resiste ao tempo e de futuro incerto, Santa Catarina Hoje.»