Samuel Ajayi Crowther (Oxogum, c. 1809 - Lagos, 31 de dezembro de 1891), foi um bispo da Igreja Anglicana e linguista nigeriano, o mais conhecido religioso cristão africano do século XIX.
Abolicionista, foi o primeiro bispo anglicano negro, religião à qual se converteu após ser capturado e vendido como escravo várias vezes até ser finalmente libertado e ficar sob a guarda de missionários. A ele se credita o primeiro livro feito por um falante nativo africano sobre linguística, em 1843. O trabalho de Crowther é considerado, ainda, como responsável por consagrar o termo iorubá e a formação da identidade comum dos povos falantes desta língua, ao lançar em 1843 a obra Vocabulary of the Yoruba Language; a despeito disto, é modernamente visto como um religioso europeu nascido na África.
Seu neto, Herbert Macaulay, foi um dos nacionalistas nigerianos que lutaram pela independência daquele país.
O Império de Oió sofria sua dissolução, e aquela região da África sofria ataques pelo norte da jiade islâmica que veio a culminar no Califado de Socoto, fazendo o povo iorubá viver um estado de guerra e invasões constantes; isto provocara as divisões das famílias, além da escravidão entre os próprios africanos - quadro que se agravou com a ocupação do litoral pelos europeus, também eles em busca de cativos.
A presença europeia alimentava o comércio escravista que, mesmo considerado ilegal pelo parlamento inglês (no ano de 1807 o Reino Unido promulgou o chamado Ato de Abolição) e por tratados internacionais subsequentes, continuava através do Atlântico, de forma bastante rentável.
Vários religiosos cristãos anti-escravistas haviam fundado a colônia de Serra Leoa, formada inicialmente com ex-escravos das Américas, e adotava-se um estilo de vida europeu (religião, vestuário, construções, idioma e até os nomes próprios); ali os britânicos sediaram a Esquadrão da África Ocidental que fiscalizava as embarcações, com o fim de descobrir se realizavam o transporte ilegal de escravos que, uma vez libertados, eram para lá levados e acabavam por se adaptar ao estilo de vida que se lhes impunha a realidade.
Primeiros anos: escravidão e liberdade
Nascido na região ocidental da Nigéria, no povoado de Oxogum, na então Iorubalândia, no final da primeira década do século XIX, Ajayi, consta que um adivinho previra que ele não se dedicaria aos orixás (divindades do panteão Iorubá), pois se devotaria ao "Deus do céu", Olorum.
Quando Crowther tinha perto de 13 anos de idade, sua cidade foi invadida por caçadores de escravos possivelmente composta por fulas e iorubás de Oió convertidos ao Islã, numa cena que lhe marcou a memória pela brutalidade e crueldade praticadas: as casas incendiadas; perseguição, captura e condução das pessoas por correntes presas ao pescoço; os incapazes de seguir viagem eram sumariamente abatidos, e o desespero aumentava com a separação das famílias.
Depois disto ele foi comercializado por seis vezes, até ser entregue a comerciantes portugueses que faziam o tráfico transatlântico; esta embarcação foi interceptada em abril de 1822 pelas naus britânicas e Crowther, junto a dezenas de outros cativos, foram levados a Serra Leoa - todos eles desorientados por terem sido deslocados de sua região nativa na África Central. A captura se deu ainda na costa nigeriana mas, ao invés de serem devolvidos a Lagos, foram conduzidos a Freetown; o navio tinha 187 escravos além de Ajayi e, enquanto estes foram libertos, o capitão e marinheiros foram postos a ferros.
Numa carta publicada em 1842 ele descreve com detalhes a experiência traumática de sua captura e escravidão, mas ao final diz ter sido este um momento abençoado, pois o proporcionou conhecer o cristianismo; em suas palavras: "Eu chamo-o de dia infeliz, porque era o dia em que fui violentamente tirado da casa de meu pai, e separado de minha família; e em que eu fui obrigado a experimentar o que é chamado de escravidão – no que diz respeito a ser chamado de abençoado, pois foi o dia que a Providência marcou para me estabelecer em minha viagem na terra do paganismo, superstição, e vício, para um lugar onde o Seu Evangelho seja pregado."
Uma vez em Serra Leoa, tem início uma nova vida para Crowther, com sua conversão ao cristianismo.
Após três anos em Freetown, finalmente rendeu-se ao cristianismo. Sobre essa experiência, escreveu mais tarde: "sobre o terceiro ano da minha libertação da escravidão do homem, eu estava convencido de outro estado pior de escravidão, ou seja, a do pecado e de Satanás. Aprouve ao Senhor abrir meu coração(...) Eu foi admitido na Igreja visível de Cristo aqui na terra como um soldado para lutar bravamente sob sua bandeira contra nossos inimigos espirituais."O jovem Ajayi recebeu o batismo a 11 de dezembro de 1825, pelo Reverendo John Rahan da Sociedade Missionária Anglicana; após isto ele adotou o nome inglês de Samuel Crowther, em lembrança a um eminente clérigo daquela igreja com este nome.
Passou alguns anos em Serra Leoa, frequentando uma escola onde recebeu uma educação que lhe preparou para falar o idioma inglês, além de aulas de carpintaria, tecelagem e técnicas agrícolas. Já no primeiro dia de aula pedira meio penny para comprar uma cartilha de alfabetização e mais tarde veio a se tornar inspetor de alunos, função que lhe dava um pequeno rendimento.
Em 1826 foi enviado a Londres para continuar seus estudos na Igreja de Santa Maria, em Islington, mas um fato novo o fez voltar a Serra Leoa: a missão anglicana, em 1827, fundara o Fourah Bay College e Crowther foi enviado para ali estudar, sendo o seu primeiro aluno matriculado.
Crowther foi então nomeado para trabalhar como mestre-escola nas novas aldeias criadas para receber os libertados dos navios negreiros.
Na Expedição do Níger, em 1841, Crowther mostrou sua competência como intérprete, e foi então levado à Inglaterra, a fim de concluir os estudos e se ordenar.
Ordenou-se a 11 de junho de 1843, pelo bispo de Londres à época Charles James Blomfield, sendo o primeiro africano a receber esta ordem; ao fim deste mesmo ano retornou para a África e inaugurou uma missão em Abeokuta junto ao missionário inglês, Henry Townshend; a 3 de dezembro pronunciou, em inglês, seu primeiro sermão.