Síndrome de Tourette ou transtorno de Tourette (abreviado como ST ou Tourette's) é um transtorno do neurodesenvolvimento comum que se manifesta na infância ou na adolescência, caracteriza-se por múltiplos tiques motores e por pelo menos um tique vocal (fônico), tiques que incluem o ato de piscar, tossir, limpar a garganta, assoar o nariz e movimentos faciais, sendo que esses tiques são tipicamente precedidos por um impulso ou sensação indesejada nos músculos afetados, denominada urgência premonitória, podem ser suprimidos temporariamente e, de maneira característica, variam em localização, intensidade e frequência. A síndrome de Tourette situa-se na extremidade mais severa de um transtorno do espectro de transtorno de tiques, e esses tiques frequentemente passam despercebidos por observadores casuais.
Anteriormente, a síndrome de Tourette era considerada uma síndrome rara, tendo sido popularmente associada à coprolalia (a emissão de palavras obscenas ou de comentários socialmente inapropriados e depreciativos), atualmente, não é mais considerada rara; estima-se que cerca de 1% das crianças em idade escolar e adolescentes possuam a síndrome de Tourette, embora a coprolalia ocorra apenas em uma minoria dos casos. Não existem testes específicos para diagnosticar a condição, que nem sempre é corretamente identificada, pois a maioria dos casos apresenta sintomas leves e a gravidade dos tiques tende a diminuir durante a adolescência, dessa forma, muitos indivíduos permanecem sem diagnóstico ou podem nunca buscar atendimento médico, embora a forma extrema da síndrome de Tourette na idade adulta seja rara — mesmo que sensacionalizada pela mídia — para uma pequena minoria, tiques severamente debilitantes podem persistir na vida adulta, e sua condição não afeta a inteligência nem a expectativa de vida.
Não há cura para a síndrome de Tourette e não existe um único medicamento considerado o mais eficaz. Na maioria dos casos, a medicação para os tiques não é necessária, sendo as terapias comportamentais o tratamento de primeira linha. A educação desempenha um papel importante em qualquer plano terapêutico, e a simples explicação do quadro clínico muitas vezes fornece segurança suficiente para que nenhum outro tratamento seja adotado.
A síndrome de Tourette recebeu esse nome em homenagem a Georges Gilles de la Tourette, cujo nome foi escolhido pelo neurologista francês Jean-Martin Charcot para designar o quadro clínico descrito em 1885 a partir do relato de nove pacientes com um “transtorno convulsivo dos tiques”. Embora a causa exata permaneça desconhecida, acredita-se que haja uma combinação de fatores genéticos e ambientais envolvidos. O mecanismo subjacente parece incluir uma disfunção nos circuitos neurais entre os gânglios da base e estruturas cerebrais correlatas.
A maior parte das pesquisas publicadas sobre a síndrome de Tourette tem origem nos Estados Unidos; na pesquisa e na prática clínica internacionais, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) é preferido em detrimento da classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), a qual é criticada nas Diretrizes Clínicas Europeias de 2021.
Na quinta edição do DSM (DSM-5), publicada em 2013, a síndrome de Tourette é classificada como um transtorno motor (um transtorno do sistema nervoso que ocasiona movimentos anormais e involuntários), constando na categoria de transtorno do neurodesenvolvimento e representando o extremo mais grave do transtorno do espectro de transtorno de tiques; cujo diagnóstico, é necessário haver a presença de múltiplos tiques motores e de pelo menos um tique vocal por mais de um ano. Os tiques caracterizam-se por movimentos súbitos, repetitivos e não rítmicos que envolvem grupos musculares discretos, enquanto os tiques vocais (fônicos) envolvem músculos da laringe (laringal), da faringe (faringal), orais, nasais ou respiratórios para a produção de sons, e não devem ser atribuídos a outras condições médicas ou ao uso de substâncias.
Outros transtornos de tiques incluem os tiques motores ou vocais persistentes (crônicos), nos quais um tipo de tique (motor ou vocal, mas não ambos) está presente por mais de um ano; e o transtorno provisório de tiques, em que tiques motores ou vocais ocorrem por menos de um ano. A quinta edição do DSM substituiu o que era denominado transtorno transitório de tiques por transtorno provisório de tiques, reconhecendo que o termo "transitório" só pode ser definido a posteriori. Alguns especialistas defendem que a ST e o transtorno persistente (crônico) de tiques motores ou vocais deveriam ser considerados como a mesma condição, visto que os tiques vocais também são tiques motores, na medida em que representam contrações musculares dos músculos nasais ou respiratórios.
A síndrome de Tourette é definida de maneira ligeiramente diferente pela OMS; na sua CID-11, a Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, a síndrome de Tourette é classificada como uma doença do sistema nervoso e um transtorno do neurodesenvolvimento. Para o diagnóstico, é suficiente a presença de um tique motor e de um ou mais tiques vocais. Versões mais antigas da CID denominavam-no "transtorno combinado de tiques vocais e múltiplos tiques motores [de la Tourette]".
Estudos genéticos indicam que os transtornos de tiques abrangem um espectro que não é reconhecido pelas distinções claras presentes na atual estrutura diagnóstica. Desde 2008, pesquisas sugerem que a síndrome de Tourette não é uma condição unitária com um mecanismo específico, conforme descrito nos sistemas de classificação existentes, em vez disso, tais estudos sugerem que subtipos devem ser reconhecidos para distinguir a "ST pura" da ST acompanhada por transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) ou outros transtornos, de forma semelhante à distinção feita para outras condições, como diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2. A elucidação desses subtipos depende de uma melhor compreensão das causas genéticas e de outros fatores subjacentes aos transtornos de tiques.
Os tiques são movimentos ou sons que ocorrem "intermitentemente e de forma imprevisível, em meio a uma atividade motora normal", aparentando ser "comportamentos normais que deram errado". Os tiques associados à ST oscilam; eles variam em número, frequência, gravidade, localização anatômica e complexidade; Cada pessoa experimenta um padrão único de flutuação na gravidade e na frequência dos tiques. Estes também podem ocorrer em "surtos de surtos", cuja intensidade varia entre os indivíduos. A variação na gravidade dos tiques pode ocorrer ao longo de horas, dias ou semanas. Os tiques podem aumentar quando a pessoa está sob estresse, fadiga, ansiedade ou doença, ou durante atividades relaxantes, como assistir TV. Por outro lado, os tiques podem diminuir quando o indivíduo se envolve intensamente em uma atividade, como tocar um instrumento musical.
Em contraste com os movimentos anormais associados a outros transtorno do movimento, os tiques da ST são não rítmicos, frequentemente precedidos por um impulso indesejado e suprimíveis temporariamente. Com o tempo, cerca de 90% dos indivíduos com ST sentem um impulso antes do tique. Esse impulso é semelhante à vontade de espirrar ou coçar uma coceira. Os impulsos e sensações que precedem a manifestação de um tique são denominados fenômenos sensoriais premonitórios ou urgência premonitória. Muitos descrevem o impulso para expressar o tique como um acúmulo de tensão, pressão ou energia. Esses impulsos são, por fim, deliberadamente liberados, como se o indivíduo "precisasse fazê-lo" para aliviar a sensação ou até que se sinta "no ponto". O impulso pode causar uma sensação desconfortável na região corporal associada ao tique; o tique é uma resposta que alivia o impulso na localidade anatômica correspondente. Exemplos desse impulso incluem a sensação de ter algo na garganta, que desencadeia um tique para limpar a garganta, ou um desconforto localizado nos ombros que leva ao encolhimento destes. O tique em si pode ser percebido como o alívio dessa tensão ou sensação, de maneira semelhante a coçar uma coceira ou piscar para amenizar uma sensação incômoda no olho. Algumas pessoas com ST podem não ter consciência do impulso premonitório associado aos tiques. Crianças podem ter menor percepção desse impulso em relação aos adultos, mas essa consciência tende a aumentar com o amadurecimento; Aos dez anos, a maioria das crianças já reconhece o impulso premonitório.