São Geraldo do Araguaia (pronuncia-se AFI: [sɐ̃w ʒeˈɾawdu du aɾaˈgwajɐ]) é um município brasileiro no sudeste do estado do Pará, Região Norte do Brasil. Pertencente à Região Geográfica Intermediária de Marabá e à Região Geográfica Imediata de Marabá e localiza-se ao sul da capital do estado, cerca de 711 km. Ocupa uma área de aproximadamente 3 168,387 km², a uma latitude 06º24'03" sul e a uma longitude 48º33'18" oeste, estando a uma altitude de 145 metros, e sua população foi estimada em 24 929 habitantes em 2025.
A área começou a ser ocupada ao longo do século XX. Fundada por garimpeiros e exploradores oriundos da margem direita do rio Araguaia. Inicialmente o vilarejo se formou na desembocadura do rio que leva o nome da cidade de Xambioá no diminutivo, como assim foi chamada a nova cidade de Xambioazinho. Passando a ser citada como São Geraldo apenas tempos depois.
Sua economia baseia-se principalmente na agropecuária, no comércio local e no turismo sazonal. Desempenha um papel relevante na dinâmica regional, atuando como centro de integração entre o sudeste do Pará e o norte do Tocantins, mantendo relações econômicas e urbanas com cidades vizinhas, especialmente Xambioá (TO) - formando uma conurbação com a mesma - que fica localizada na margem direita do rio Araguaia.
O município possui alguns atrativos turísticos de valor cultural ou histórico, como a Praia da Gaivota, banhado pelo rio Araguaia e o Parque Estadual Serra dos Martírios/Andorinhas. Além de várias localidades espalhadas pelo parque, como: Sítios arqueológicos, cavernas, grutas, registros rupestres, trilhas e mirante. A localidade foi um dos teatros da Guerrilha do Araguaia, a maior movimentação de tropas brasileiras depois da Segunda Guerra Mundial, e o maior conflito militar em território brasileiro no século XX.
São Geraldo: homenageia São Geraldo Majela (padroeiro das gestantes/partos) e batizada em honra ao Geraldo, o filho do dono das terras onde o povoado começou a se formar, perto de onde hoje é Xambioá.
Araguaia: A segunda parte do nome dá-se à sua localização, referindo-se às margens do Rio Araguaia. É de origem tupi, significando "rio do vale dos papagaios", devido à presença de muitos papagaios na região.
A história de São Geraldo do Araguaia está diretamente relacionada aos processos de ocupação da Amazônia oriental ao longo do século XX, especialmente no contexto da expansão da fronteira econômica, dos conflitos fundiários e da atuação do Estado brasileiro na região do Araguaia. Desde sua formação, o território foi marcado por atividades extrativistas, fluxos migratórios intensos e disputas pela posse da terra, além de ter sido cenário de episódios relevantes da história política nacional, como a Guerrilha do Araguaia. Ao longo das décadas, o território consolidou-se como parte da fronteira agropecuária do sudeste do Pará, mantendo características típicas de áreas de ocupação recente, como estrutura fundiária concentrada e dinâmica socioeconômica baseada na agropecuária e no extrativismo.
A ocupação da área teve início no final da década de 1940, associada às atividades extrativistas e garimpeiras ao longo do rio Araguaia. A região passou a atrair trabalhadores dedicados à extração mineral de bauxita, especialmente em áreas como o garimpo Cristal de Rocha conhecido por Garimpo do Chiqueirão, e ao pequeno comércio ribeirinho. Inicialmente, o núcleo populacional localizava-se na margem direita do rio Araguaia, no estado do Tocantins (antigo estado de Goiás), na área da atual cidade de Xambioá.
Por volta de 1952, consolidou-se uma pequena urbe, inicialmente chamada de Xambioazinho, na foz do Ribeirão Xambioazinho, em referência à proximidade com Xambioá. Com a decadência do garimpo, os trabalhadores ficaram desempregados, passando a buscar outros meios de sobrevivência. Muitos deles fixaram-se na área, tornando-se coletores de produtos nativos - sobretudo a castanha-do-pará (bertholletia excelsa) - ou plantando roçados para a sua subsistência.
No ano seguinte, em 1953, a instalação de um barracão comercial construído por João Rego Maranhão, voltado à compra e escoamento de produtos extrativos e agrícolas, contribuiu para a fixação populacional na localidade. O estabelecimento comprava a produção local para revender em Marabá. Com o passar do tempo, famílias de castanheiros e agricultores passaram a construir moradias nas proximidades do barracão, formando um pequeno vilarejo. À época, a área integrava o município de Conceição do Araguaia.
Posteriormente, o povoado passou a ser denominado São Geraldo. Segundo a tradição local, Dona Leocádia Maranhão, esposa de João Rego, após uma promessa relacionada ao nascimento de um filho, deu-lhe o nome de Geraldo em homenagem a São Geraldo Magela. Após a morte do único filho do casal, moradores da localidade construíram uma capela dedicada ao santo, em homenagem ao filho de ambos, um dos proprietários das terras locais, que teria doado parte da área para a formação do núcleo urbano.
Expansão territorial e ocupação regional
A partir da década de 1960, a região experimentou crescimento demográfico mais intenso, impulsionado por políticas de ocupação da Amazônia e pela expansão da fronteira agrícola. Esse processo esteve inserido no contexto das políticas de integração territorial promovidas pelo governo federal após o golpe de Estado de 1964, quando a Amazônia passou a ser considerada estratégica para a segurança nacional e para a expansão econômica do país. A chegada de migrantes provenientes de diferentes regiões do país ocorreu, em grande medida, sem adequada regularização fundiária, o que resultou em disputas pela posse da terra, marcadas por massacres e chacinas.
No final da década de 1960, começaram a surgir conflitos fundiários na região, uma vez que grande parte das terras era ocupada por posseiros sem títulos formais de propriedade. Durante a década de 1970, o território também foi diretamente impactado pela Guerrilha do Araguaia, movimento armado organizado por militantes ligados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). A resposta do Estado brasileiro envolveu operações militares de grande escala, com forte presença do Exército Brasileiro na região. O episódio representou a maior mobilização de tropas brasileiras em território nacional desde a Segunda Guerra Mundial e o principal conflito militar ocorrido no país durante o século XX.
Guerrilha do Araguaia e a censura
Entre abril de 1972 e janeiro de 1975, a região foi cenário de confrontos entre guerrilheiros e forças do regime militar instaurado no país após o Golpe de Estado no Brasil em 1964. O movimento foi organizado pelo PCdoB e reuniu militantes provenientes principalmente dos centros urbanos das regiões Sul e Sudeste. A organização representava uma dissidência armada do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ativa entre 1966 e 1974. Inspirados em estratégias de guerra popular prolongada, os integrantes buscavam implantar um regime socialista no país, seguindo exemplos históricos como a Revolução Chinesa de 1949 e a Revolução Cubana de 1959.
Durante o movimento, grande parte da população brasileira desconhecia sua existência, uma vez que o governo militar impôs restrições à divulgação de informações na imprensa, temendo que o levante incentivasse novos focos de rebeldia contra o regime. A presença da guerrilha e das operações militares alterou significativamente o cotidiano das comunidades locais, com registros de violações de direitos humanos. Povos indígenas que habitavam áreas próximas ao conflito também foram afetados pelas ações militares. Estudos apontam que diversos indígenas foram obrigados pelas Forças Armadas a atuar como guias e rastreadores durante operações militares, além de sofrerem restrições de circulação e impactos sobre seus territórios tradicionais. As ações de repressão contra moradores suspeitos de colaborar com os guerrilheiros, bem como incentivos concedidos àqueles que auxiliavam as forças militares, contribuíram para intensificar tensões e conflitos na região.
Após o fim do conflito, instalou-se um período caracterizado pelo chamado “controle da memória”, no qual sobreviventes e moradores tiveram dificuldades em relatar publicamente suas experiências. Com o governo federal ampliando sua atuação por meio de políticas de controle territorial e regularização fundiária, com destaque para a atuação do GETAT (Grupo Executivo de Terras de Araguaia-Tocantins). Essas iniciativas buscavam organizar a ocupação territorial e reduzir os conflitos agrários, ao mesmo tempo em que promoviam a integração da região ao restante do país.