Rubens Beyrodt Paiva (Santos, 26 de dezembro de 1929 – Rio de Janeiro, c. 20 e 22 de janeiro de 1971) foi um engenheiro civil e político brasileiro assassinado durante a ditadura militar no Brasil.
Formado em engenharia, Rubens foi eleito deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em 1962. Após o golpe de 1964, foi cassado pelo primeiro Ato Institucional e se autoexilou; ao retornar ao Brasil, voltou a exercer a engenharia e cuidar de negócios, mas manteve contato com exilados.
Em 1971, a repressão da ditadura o prendeu, suspeitando de envolvimento com o guerrilheiro Carlos Lamarca. Rubens foi morto nas dependências de um quartel militar entre 20 e 22 de janeiro de 1971. Seu corpo foi enterrado e desenterrado diversas vezes por agentes da repressão até ter seus restos jogados ao mar, na costa da cidade do Rio de Janeiro, em 1973, dois anos após seu assassinato.
Eunice Paiva, sua viúva, lutou durantes anos pelo reconhecimento da responsabilidade do Estado na sua morte. O caso foi um dos investigados pela Comissão Nacional da Verdade, que confirmou o assassinato de Paiva cerca de quarenta anos após seu desaparecimento. Rubens é pai do escritor Marcelo Rubens Paiva, que escreveu um livro sobre sua história, posteriormente adaptado para o cinema.
Rubens Beyrodt Paiva nasceu em 26 de dezembro de 1929, no município de Santos, no estado de São Paulo. Frequentou na infância e adolescência os tradicionais colégios paulistanos, Colégio Arquidiocesano e Colégio São Bento. Formou-se em engenharia civil pela Universidade Mackenzie, na capital paulista. Esteve na universidade numa fase em que se vivia grande efervescência política, chegando a participar da campanha nacionalista "O petróleo é nosso" e mantendo presença ativa no movimento estudantil, sendo vice-presidente da União Estadual dos Estudantes.
Paiva tinha uma irmã chamada Maria Lúcia Paiva. Seu pai, Dr. Jaime de Almeida Paiva, era advogado e dono de uma das maiores fazendas do Vale do Ribeira, a Fazenda Caraitá. Jaime Paiva foi prefeito da cidade de Eldorado Paulista em duas ocasiões, na primeira de 1956 a 1959 e na segunda, em 1968, eleito pela Aliança Renovadora Nacional, partido da ditadura.
Filho do deputado, o escritor Marcelo Rubens Paiva conta que o pai era brigado com o avô e por isso a família quase não frequentava a fazenda. Por conta disso diz não saber muito sobre o avô, pois morava no Rio com os pais e a irmã. O jornalista Jason Tércio conta em seu livro Segredo de Estado que até o deputado, assim como o resto da cidade, chamava seu pai de "coronel" e os dois sempre discutiam quando o assunto envolvia política. Em diálogo reconstruído por Tércio, retrata que durante a ceia de natal de 1970 na fazenda Caraitá, Jaime teria dito a Rubens: "a única política que tu deve fazer com os militares é a política da boa vizinhança".
Nessa época, Rubens havia voltado de um exílio de nove meses na Iugoslávia e na França, depois de ter seu mandato cassado após o golpe de 1964. Trabalhava como engenheiro civil na empresa Machado da Costa Engenharia desde 1966 e era dono das empresas Geobrás e a Paiva Construtora. Apesar disso, ele ainda ajudava perseguidos políticos a sair do país e mantinha contato com exilados. Menos de um mês depois daquele Natal, em janeiro de 1971, Rubens Paiva seria levado por militares para depor e não voltaria mais para casa.
Sua vida política tomou impulso em outubro de 1962, quando foi eleito deputado federal por São Paulo na legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Assumiu o mandato em fevereiro do ano seguinte e participou de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada na Câmara dos Deputados para examinar as atividades do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IPES-IBAD). A instituição financiava palestrantes e escritores que escreviam artigos avisando sobre a chamada "ameaça vermelha" no Brasil.
No dia 1.º de abril de 1964, enquanto os militares avançavam com suas tropas para depor o então presidente João Goulart, Paiva fez um discurso acalorado de cinco minutos na Rádio Nacional criticando o governador paulista, Ademar de Barros, apoiador do golpe, e conclamando trabalhadores e estudantes a defenderam a legalidade.
Com o golpe militar de 1964, devido ao fato de ter participado da CPI do IBAD, teve seu mandato cassado no dia 10 de abril por meio do Ato Institucional Número Um, editado no dia anterior pela junta militar que assumiu o poder.
Rubens Paiva se exilou na Iugoslávia e depois na França. Passados nove meses, viajou com destino a Buenos Aires, a fim de se encontrar com Jango e Leonel Brizola. Mas, durante uma escala do voo no Rio de Janeiro, disse à aeromoça que iria comprar cigarros, saiu do avião e pegou outro voo para São Paulo, seguindo para a casa de sua família. Chegou em casa de surpresa, dizendo: "Entrei no Brasil, estou no Brasil, vou ficar no Brasil". A família mudou-se então para o Rio de Janeiro, e Rubens Paiva voltou a exercer a engenharia e a cuidar de seus negócios, mas sempre fazendo contatos com os exilados.
Fundou, com o editor Fernando Gasparian, o Jornal de Debates e foi diretor da Última Hora de São Paulo, até que o jornal foi vendido por Samuel Wainer ao Grupo Folha da Manhã, de Octavio Frias de Oliveira.
Prisão, desaparecimento e assassinato
No ano de 1969, depois de uma visita a Santiago, para ajudar a exilada Helena Bocayuva Cunha, filha de seu amigo Bocayuva Cunha (também deputado cassado após o golpe), que fora implicada no sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick, Rubens Paiva voltou para o Brasil. Algum tempo depois, pessoas que traziam uma carta de Helena endereçada a Rubens foram presas pelos órgãos da repressão política. Os agentes suspeitaram que Rubens Paiva fosse o contato de "Adriano", codinome de Carlos Alberto Muniz, militante do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) e contato de Carlos Lamarca, na época o homem mais procurado do país.
Na esperança de prender "Adriano" e consequentemente chegar a Lamarca, seis homens que disseram pertencer à Aeronáutica, armados com metralhadoras, invadiram a casa de Rubens Paiva no Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1971, para prendê-lo, sem contudo apresentar um mandado de prisão. Rubens acalmou os invasores, pediu que guardassem as armas e vestiu-se. Saiu de terno e gravata, guiando o próprio carro. A recuperação posterior desse carro seria a prova de que o ex-deputado fora preso — o que os órgãos de repressão negavam. Paiva foi levado para o quartel do comando da III Zona Aérea e acareado com duas senhoras; os três foram obrigados a ficar com os braços levantados. Estas senhoras haviam ido visitar os filhos no Chile e foram presas ao desembarcar de volta no Rio de Janeiro: uma era mãe de Almino Afonso, a outra de Helena Bocayuva. Uma delas passou mal, Paiva amparou-a e foi então golpeado por um oficial, e depois de responder com um palavrão, foi surrado até ficar estendido no chão.
Eunice, sua esposa, também foi detida no mesmo dia, juntamente com sua filha de quinze anos, Eliana, e permaneceu incomunicável durante doze dias. Eliana foi solta no dia seguinte, tendo sido deixada na Praça Saens Peña, na Tijuca. Entre o dia de sua prisão e o seguinte, Rubens Paiva foi transferido, da III Zona Aérea para o Destacamento de Operações Internas (DOI-CODI), no quartel da Polícia do Exército, onde teria sido novamente torturado. No caminho reclamava que não conseguia respirar, mas chegou consciente ao quartel. Foi interrogado e à noite outros prisioneiros ouviram ele pedir água a um carcereiro. De madrugada, o médico do DOI-CODI, Amílcar Lobo, foi chamado ao quartel e encontrou o prisioneiro nu, deitado numa cela no fundo do corredor com os olhos fechados, corpo marcado de pancadas e sinais de hemorragia interna. O médico aconselhou que levassem-no ao hospital, mas o major que lhe acompanhava achou melhor retê-lo. Segundo testemunho de Lobo, Paiva morreu por causa dos ferimentos sofridos em sessões de tortura.
Segundo nota oficial dos órgãos de segurança à época, o carro que conduzia Rubens Paiva teria sido abalroado e atacado por indivíduos desconhecidos, que o teriam sequestrado dois dias depois da sua prisão. Assim, ele foi dado oficialmente como desaparecido. Nesta história, Paiva, que pesava mais de 100 quilos, teria sido capaz de sair do banco traseiro do fusca que o levava pela porta esquerda, enquanto três militares teriam saído pela porta direita. Durante o tiroteio teria se escondido atrás de um poste e depois corrido aproximadamente 25 metros até um dos veículos.