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Roger Abdelmassih

Ex-médico brasileiro e criminoso preso por estupros em série

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Roger Abdelmassih (São João da Boa Vista, 3 de outubro de 1943) é um ex-médico brasileiro, especialista em reprodução humana, e estuprador em série que foi condenado a 181 anos de prisão por 37 estupros e quatro tentativas.

Suas vítimas eram as clientes que procuravam tratamento em sua clínica e que ele atacava enquanto estavam sob efeito de sedativos usados durante o processo de fertilização. É especulado inclusive que algumas vítimas podem ter sido inseminadas com o seu esperma, ou que certas mães receberam óvulos de outras doadoras.

Os crimes, que aconteceram entre os anos 1990 e 2000, foram chamados de "monstruosidades" pelo portal da revista Aventuras na História em março de 2020. Referências a ele também usam o termo médico e monstro, numa alusão ao livro famoso "O médico e o monstro".

Abdelmassih teve seu registro profissional cassado em 20 de maio de 2011.

Filho dos comerciantes libaneses Olga e Jorge, Roger Abdelmassih nasceu em São João da Boa Vista, interior do estado de São Paulo, em 3 de outubro de 1943. Bom aluno nos colégios que frequentou, passou "de primeira" e formou-se no curso de Medicina na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no ano de 1968.

Com a primeira esposa, adotou dois filhos, os médicos Soraya e Vicente, que depois trocaram o sobrenome do pai, chamado de "herança maldita", por Ghilardi.

Casou-se posteriormente com a ex-procuradora da república Larissa Maria Sacco, com quem teve dois filhos gêmeos.

Após se formar se especializou em urologia, atendendo, no entanto, apenas pessoas da elite "que fossem agregar algo em sua carreira profissional". No final dos anos 70, começaram a surgir os primeiros casos de fertilização in vitro, e Abdelmassih se aliou a outro médico, Milton, para trazer a técnica para solo brasileiro, mas os dois tinham razões diferentes pra isso. Milton visava simplesmente ajudar mulheres com o processo, enquanto Abdelmassih pensava em quão famoso e rico ficaria por isso.

Com o fim da parceria entre os médicos, Abdelmassih abriu uma clínica em São Paulo, tornando-se um dos dos pioneiros da fertilização in vitro no Brasil. Ao longo de 12 anos gerou 2,5 mil crianças de proveta, quase um terço dos bebês gerados por inseminação artificial do país. Ficou nacionalmente conhecido por atender esposas de diversas personalidades, como a de Pelé, do ex-presidente Fernando Collor, do humorista Tom Cavalcanti, do senador Renan Calheiros, entre outras. Um dos casos mais divulgados foi o das filhas gêmeas do apresentador de televisão Gugu Liberato.

As primeiras denúncias surgiram no Orkut em 2006, onde uma usuária anônima conhecida como Iris criou uma comunidade para delatar abuso sexual sofridos pelas mãos de Abdelmassih. Logo várias mulheres que diziam ter passado por situações semelhantes de terem sido violentadas pelo médico. Porém, os relatos dos primeiros crimes remontam aos anos 1990 (ou 1968, segundo um perfil de Abdelmassih publicado na revista Mundo Estranho), pois, segundo um artigo na Scielo, mais de uma mulher havia feito denúncias, sendo, no entanto, desencorajadas devido ao poder do médico. Uma delas relatou que havia ido à delegacia imediatamente após ter sido violentada, mas o delegado havia lhe dito que seria difícil provar uma acusação contra o “médico das estrelas”.

Três anos depois, no começo de 2009, o caso começou a ganhar repercussão nacional com a imprensa noticiando após o número de denúncias passar de 60, vindas de três estados diferentes. Abdelmassih negou as acusações, defendendo-se dizendo sofrer perseguição de clientes insatisfeitas e que tudo não passava da armação de concorrentes. À época, para a imprensa, Abdelmassih explicou que o propofol, remédio anestésico utilizado no momento de implantação dos embriões, pode provocar alucinações sexuais, e citou os números da produtividade de sua clínica. As denúncias levaram a Polícia Federal a grampear os telefones de Abdelmassih e interceptar suas mensagens de texto. Nas conversas com seu psiquiatra, Abdelmassih se apelidava de “grande comedor” e dizia que cedia ao assédio de suas pacientes.

Com as acusações e o início das investigações, no dia 17 de agosto de 2009, o Juiz da 16ª Vara Criminal de São Paulo, Bruno Paes Stranforini, decretou a prisão de Abdelmassih, mas em 24 de dezembro, depois de quatro meses na prisão, Abdelmassih foi solto após conseguir um habeas corpus concedido por Gilmar Mendes, então presidente do Supremo Tribunal Federal, que revogou sua prisão preventiva.

Abdelmassih foi condenado, em 23 de novembro de 2010, a 278 anos de prisão pela juíza Kenarik Boujikian Felippe, da 16ª Vara Criminal de São Paulo. Ele foi acusado de 52 estupros de pacientes em sua clínica, localizada em uma área nobre da capital paulista, e condenado por estupro e atentado violento ao pudor, apesar de algumas absolvições. Condenado, Abdelmassih conseguiu, novamente por decisão de Mendes, o direito de recorrer em liberdade através de liminar concedida no habeas corpus impetrado no Supremo Tribunal Federal (STF).

Após notícias de que o médico estivesse buscando a renovação de seu passaporte, a Justiça solicitou sua prisão por desconfiar que ele pudesse deixar o país. No entanto, antes que pudesse ser capturado, o criminoso fugiu do Brasil no início de 2011, passando a figurar na lista de criminosos procurados pela Interpol e tornando-se um dos 25 criminosos mais procurados pela Polícia Civil do Estado de São Paulo.

Na época, supôs-se que ele teria fugido pela fronteira do Paraguai, seguindo para o Uruguai, de onde com um passaporte falso teria fugido para o Líbano, país com o qual o Brasil não tem tratado de extradição. Porém, Abdelmassih na verdade havia continuado no Paraguai, morando com sua esposa Larissa Maria Sacco e os filhos gêmeos do casal em Assunção, onde se passava por um empresário paraguaio, usando o nome de Ricardo Galeano.

Após mais de três anos sendo procurado pela polícia brasileira, Abdelmassih foi preso pela Polícia Federal no dia 19 de agosto de 2014, às 13h25. A prisão ocorreu nas proximidades da escola onde ele deixava seus filhos e a esposa. Chegou ao Brasil em 20 de agosto de 2014, sendo encaminhado à Penitenciária II de Tremembé.

A defesa de Roger, composta pelo ex-ministro da justiça Marcio Thomaz Bastos e pelo advogado José Luis Oliveira Lima, não comentou a prisão. Em nota, a defesa afirmou que ainda aguardava o resultado de recurso no Tribunal de Justiça de São Paulo contra a condenação em primeira instância. Mesmo com a fuga, os advogados ainda poderiam recorrer aos tribunais superiores em Brasília.

A promotoria paulista também recorreu dessa decisão com o intuito de aumentar a pena de 278 anos de prisão. Apesar da condenação beirar três séculos, a legislação brasileira impede que criminosos fiquem presos por mais de 30 anos.

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