A Revoluçaõ de 43 (também conhecida como Revolução Argentina de 1943, Revolução de Junho ou Revolução de 43) foi um golpe de Estado ocorrido em 4 de junho de 1943 que pôs fim ao governo de Ramón Castillo, que havia sido eleito fraudulentamente para o cargo de vice-presidente antes de assumir a presidência em 1942, durante o período conhecido como a Década Infame.
Os militares se opunham ao governador Robustiano Patrón Costas, sucessor escolhido por Castillo, grande proprietário de terras na província de Salta e principal acionista da indústria açucareira. A única resistência significativa ao golpe militar veio da Marinha Argentina, que enfrentou as colunas do Exército na Escola de Mecânicos da Armada.
A ditadura convocou eleições gerais em 1946, que resultaram na vitória de seu antigo vice-presidente, deposto em outubro de 1945, Juan Domingo Perón, como presidente constitucional em 4 de junho de 1946. Em 1946, Perón escolheu o dia 4 de junho para tomar posse como forma de homenagear o golpe de 1943.
A Década Infame iniciou-se com o golpe de 1930, quando o general José Félix Uriburu depôs o presidente constitucional Hipólito Yrigoyen, do partido União Cívica Radical. O novo regime instaurou a prática dos governos de facto e se apoiou em fraudes eleitorais e alianças conservadoras, conhecidas como Concordância. Esse período coincidiu com uma crise econômica mundial, à qual a Argentina respondeu com políticas protecionistas e incentivo à substituição de importações, promovendo o início de sua industrialização.
Ao longo da década de 1930, a influência britânica foi dominante na economia argentina, especialmente nos setores de transportes e exportação de carnes e grãos. No plano político, a crescente repressão a setores democráticos e a exclusão do radicalismo provocaram tensões sociais e a formação de núcleos opositores, inclusive no interior das Forças Armadas.
Neutralidade na Segunda Guerra Mundial
Com o início da Segunda Guerra Mundial, a Argentina manteve uma posição de neutralidade, sustentada por quase todos os partidos e pelos setores militares, tanto por razões econômicas quanto estratégicas. Essa posição contrariava os interesses dos Estados Unidos, que desejavam a adesão de todos os países latino-americanos aos Aliados. A Grã-Bretanha, por outro lado, apoiava a neutralidade argentina, pois dependia do fornecimento de alimentos e matérias-primas do país.
Em 1942, após o ataque japonês a Pearl Harbor, os EUA intensificaram a pressão diplomática sobre os governos latino-americanos. No entanto, a Argentina manteve sua posição, provocando atritos diplomáticos e aumentando o isolamento internacional do país.
Crescimento industrial e mudanças sociais
Durante os primeiros anos da década de 1940, a Argentina passou por uma profunda transformação econômica e social. A indústria cresceu rapidamente, especialmente nos setores têxtil, químico e metalúrgico. O número de operários aumentou em 38% entre 1941 e 1946, e a migração interna transformou a composição demográfica das cidades, sobretudo Buenos Aires. Trabalhadores rurais e provenientes do interior do país passaram a compor uma nova classe operária urbana.
Essas mudanças impactaram as estruturas políticas e sociais existentes, com a emergência de novas demandas trabalhistas e de representação sindical, que não encontravam espaço nos partidos tradicionais.
O golpe de Estado ocorreu em 4 de junho de 1943, quando cerca de 8 mil soldados do Exército Argentino partiram do quartel de Campo de Mayo em direção à cidade de Buenos Aires, liderados pelos generais Arturo Rawson e Pedro Pablo Ramírez, além de outros oficiais como Elbio Anaya, Fortunato Giovannoni e Tomás A. Ducó. A ação foi desencadeada após o presidente Ramón Castillo exigir a renúncia de Ramírez do Ministério da Guerra, sob suspeita de conluio com setores opositores. O movimento contou com forte apoio das bases militares, mas foi realizado de maneira relativamente improvisada, sem articulação ampla com setores civis.
A única resistência significativa partiu da Marinha Argentina, que tentou conter o avanço do Exército nas imediações da Escola de Mecânicos da Armada no bairro de Núñez, resultando em cerca de 30 mortos e 100 feridos. Após a rendição das forças leais ao governo, Castillo abandonou a Casa Rosada e tentou fugir para o Uruguai. O golpe consolidou-se sem maiores combates e foi bem-recebido por boa parte da elite política e empresarial, além de contar com aprovação inicial dos governos do Reino Unido e dos Estados Unidos.
Rawson assumiu a presidência imediatamente após o golpe, recebido com entusiasmo por setores civis e militares. No entanto, seu governo durou somente dois dias, pois rapidamente surgiram divergências com os líderes do movimento, especialmente por conta da composição do seu gabinete, que incluía nomes vinculados ao regime deposto e a setores conservadores. Ao apresentar seus ministros, entre eles José María Rosa e Horacio Calderón, Rawson enfrentou forte oposição de outros comandantes militares, que exigiram sua renúncia imediata. Sua insistência em manter tais nomeações provocou sua deposição em 6 de junho. Em seu lugar, assumiu Ramírez, que passou a chefiar o novo governo de facto.
Grupo de Oficiais Unidos (GOU)
O Grupo de Oficiais Unidos (GOU), fundado em março de 1943, foi uma organização secreta de oficiais nacionalistas e anticomunistas, entre os quais se destacavam coronéis e tenentes-coronéis de classe média. O GOU buscava combater a corrupção do regime anterior, preservar a neutralidade na guerra e fortalecer a indústria nacional. Juan Domingo Perón era um de seus integrantes.
O GOU desempenhou papel importante na formação do novo governo e nas articulações que levaram Perón a assumir postos estratégicos na administração.
Governo de Pedro Pablo Ramírez