A Revolta dos Batavos ocorreu na província romana da Germânia Inferior (sul da Holanda) e na Gália entre os anos 69 e 70. Foi uma revolta do povo batavo (em latim: Batavi) e outras tribos locais contra o domínio romano. Sob a liderança de seu príncipe hereditário Caio Júlio Civil, um oficial das tropas auxiliares no exército romano, os batavos conseguiram destruir duas legiões e infligir algumas derrotas humilhantes ao exército. Após os sucessos iniciais, um enorme exército liderado por Quinto Petílio Cerial eventualmente conseguiu derrotar os rebeldes. Nas conversas de paz subsequentes, a situação se normalizou, mas os batavos tiveram que aguentar condições humilhantes, além de uma legião permanentemente aquartelada em seu território.
Os batavos era uma sub-tribo do grupo germânico dos catos (em latim: chatti), que havia migrado para região entre o Reno e o rio Waal (ainda hoje chamada de Betuwe em homenagem a eles), no que se tornaria a província romana da Germânia Inferior. Suas terras eram em sua maioria incultiváveis, consistindo principalmente de pântanos formados pelo delta do Reno. Por isso, a população total que os batavos conseguiam suportar na região era minúscula: não mais do que 35 000 naquela época.
Eles eram um povo guerreiro e cavaleiros habilidosos, além de habituados ao mar e bons nadadores. E, portanto, ótimos para a formação de soldados. Para compensar o raro privilégio da isenção do tributum (tributo direto sobre a terra e per capita à que a maioria dos peregrinos estava sujeita), eles ofereciam um número desproporcional de recrutas às tropas auxiliares júlio-claudianas: uma ala e 8 coortes. Eles também forneciam a maior parte da tropa de elite de proteção pessoal de Augusto (Germani corpore custodes), que continuaram em serviço até 68. Os auxiliares batavos eram por volta de 5 000 homens, o que implica que durante todo o período júlio-claudiano, mais de 50% de todos os homens batavos em idade militar (16 anos) poderiam estar alistados. Assim, os batavos, que representavam por volta de 0,05% da população do império em 23, forneciam por volta de 4% do total das tropas auxiliares (ou seja, 80 vezes a sua proporção). Eles eram considerados pelos romanos como sendo os melhores (fortissimi, validissimi) entre os auxiliares e, também, de todo o exército. Durante o serviço que prestaram aos romanos, eles aperfeiçoaram uma técnica única de nadar através de rios enquanto vestidos com a armadura completa e portando as suas armas.
Júlio Civil (claramente um nome latino adotado, não o verdadeiro de batismo) era um príncipe hereditário dos batavos e o prefeito de uma coorte batava. Um veterano com 25 anos de serviço, ele já havia servido com distinção na Britânia, onde ele e oito coortes tiveram um papel crucial tanto na invasão romana em 43 e a subsequente pacificação da Britânia meridional.
Por volta de 69, porém, Civil, os regimentos batavos e o povo batavo estavam profundamente descontentes com Roma. Após os regimentos terem sido retirados da Britânia e ido para Itália em 66, Civil e seu irmão, também um prefeito, foram presos pelo governador da Germânia Inferior e falsamente acusados de traição: seu irmão foi executado e Civil foi enviado à Roma, prisioneiro, para ser julgado por Nero (a diferença de tratamento pode indicar que seu irmão ainda era um "peregrino", enquanto que Civil, como seu nome indica, já era um cidadão romano, o que lhe permitia levar o seu caso ao imperador). Enquanto ele estava preso, Nero foi forçado a cometer o suicídio, terminando com ele a Dinastia júlio-claudiana. Ele foi então substituído pelo governador da Hispânia, Galba, que inocentou Civil e permitiu que ele voltasse pra casa.
De volta à Germânia Inferior, parece que foi preso de novo, a pedido das legiões locais, pelo novo governador Vitélio, que pediram a sua execução. Enquanto isso, Galba debandou a unidade de proteção imperial batava, alienando assim algumas centenas das melhores tropas batavas - e todo os batavos, que consideram o gesto como um grande insulto. Ao mesmo tempo, as relações entre as tropas auxiliares e a legião à que tinham sido anexadas (XIV Gemina) deterioraram desde a invasão da Britânia, 25 anos antes: o ódio recíproco entre eles se transformou em conflito aberto em pelo menos duas ocasiões.
Neste ponto, o império romano foi chacoalhado por sua primeira grande guerra civil desde a batalha de Áccio, exatamente um século atrás, provocada pelo fim da dinastia Júlio-Claudiana. Os herdeiros de Augusto tinham recebido uma lealdade automática e fervorosa dos legionários comuns nos exércitos distantes, postados nas fronteiras do império. Galba não tinha a mesma legitimidade aos olhos deles. O poder supremo estava portanto aberto à qualquer general que fosse forte o suficiente para agarrá-lo (e mantê-lo). Primeiro, o segundo em comando de Galba, Otão, tentou um golpe contra seu líder, que acabou assassinado pela guarda pretoriana. Então, em rápida sucessão, dois poderosos generais, Vitélio e Vespasiano, se amotinaram e lideraram seus exércitos até romana numa enorme confrontação, no que ficou conhecido como "Ano dos quatro imperadores". O exército de Otão foi derrotado pelo Vitélio e este, por sua vez, foi derrotado por Vespasiano, que conseguiu então estabelecer uma nova dinastia (a Flaviana 69 - 96).
Civil foi libertado por Vitélio no início de 69, quando ele, tendo lançado seu motim contra Otão, estava precisando urgentemente do apoio militar dos batavos. Os regimentos batavos ajudaram prontamente Vitélio na tarefa e derrotaram Otão na Primeira Batalha de Bedríaco, voltando sob ordens para casa em seguida. Foi aí que aconteceu o motim de Vespasiano, comandante das tropas da Síria. O general de Vitélio na Germânia Inferior, sob ordens de recrutar mais tropas, perdeu a confiança dos batavos ao tentar recrutar mais do que máximo estipulado nos tratados. A brutalidade e a corrupção dos centuriões romanos responsáveis pela tarefa foram a gota d'água para um povo que já estava descontente.
No verão de 69, Civil era o comandante das tropas auxiliares batavas anexadas às legiões do Reno. Ele conhecia bem as táticas militares romanas, o que lhe deu boas ideias sobre como derrotá-las. A sua primeira ação foi montar uma diversão e, pra isso, Civil induziu uma rebelião fora da terra dos batavos.
A tribo dos Caninefates estava vivendo nas terras entre os batavos e o Mar do Norte. Não se sabe o que Civil fez para instigar a rebelião, mas eles, liderados por Brino, atacaram diversos fortes romanos, inclusive Trajeto (moderna Utreque). Com a maioria das tropas na Itália lutando na guerra civil, os romanos foram pegos de surpresa. Flaco, o comandante das legiões do Reno, enviou as tropas auxiliares para controlar a situação. O resultado acabou em outro desastre para os romanos. Civil assumiu o posto de líder da rebelião e derrotou os romanos perto da moderna Arnhem.
Era a hora de lidar com os rebeldes com firmeza. Flaco então ordenou que a V Alaudae e a XV Primigenia para lidar com o problema. Acompanhando-as estavam três unidades auxiliares, incluindo o esquadrão equestre batavo, comandado por Cláudio Labeu, um conhecido inimigo de Civil. A batalha ocorreu perto da cidade moderna de Nimegue. O regimento batavo desertou e se juntou aos seus conterrâneos, derrubando ainda mais a já minguada moral romana. O resultado final foi novamente desastroso: um exército romano foi derrotado e as legiões foram forçadas a recuar para a sua base, Castra Vetera (atual Xanten).
Neste momento, os batavos eram independentes e claramente tinham a ofensiva. Mesmo Vespasiano, que estava lutando contra Vitélio pelo trono saudou a rebelião que impediu que seu inimigo trouxesse à Itália as legiões do Reno. Aos batavos foi prometida a independência e Civil caminhava para se tornar um rei.
Porém, por razões desconhecidas, isso não foi suficiente para os batavos. Civil escolheu o caminho da vingança e jurou destruir as duas legiões romanas. E o momento foi bem escolhido. Com a guerra civil do ano dos quatro imperadores em seu ápice, levaria algum tempo antes que Roma pudesse realizar um contra-ataque efetivo. Além disso, as oito unidades auxiliares do exército de Vitélio estavam voltando pra casa e poderiam ser facilmente persuadidas a se juntarem à rebelião por uma Batávia independente, o que seria um importante reforço. Além de serem tropas veteranas, estavam em maior número do que a soma das tropas romanas estacionadas em Mogoncíaco e Bona.