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René Schérer

Filósofo francês

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René Schérer (Tulle, França, em 25 de novembro de 1922 - 1 de fevereiro de 2023) foi um acadêmico e filósofo francês, professor emérito da Universidade de Paris 8. Era o irmão menor do cineasta Éric Rohmer. Foi um dos pensadores associados à renovação filosófica do Maio de 68. Defensor nos anos 70 de uma reinvenção da pedagogia e da relação criança-adulto, a sua obra aproxima-se à de Gilles Deleuze e Michel Foucault, conservando a sua singularidade. Voz francesa da "pedagogia da diferença", é artífice de uma crítica profunda à educação ocidental, definida como uma ação que manipula a criança levando-a à castração; a pedagogia deve, para Schérer, tutelar os direitos e facilitar uma liberação da corporeidade e da sexualidade da criança, através de uma prática formativa anticonformista e subversiva. Essas ideias ficam particularmente exprimidas no seu ensaio Émile perverti, publicado em 1974.

Antigo aluno do lycée Edmond-Perrier de Tulle e da Escola Normal Superior de Paris, René Schérer foi primeiro professor de filosofia no ensino secundário. Em 1960 defendeu na Universidade de Paris a sua tese de doutoramento Structure et fondement de la communication humaine: essai critique sur les théories contemporaines de la communication. Em 1964 publicou o seu primeiro livro, Husserl: sa vie, son œuvre e, no ano seguinte, a sua tese em forma condensada. Ele vai reeditar novamente a sua tese em 1971 numa versão rearranjada e com o título Philosophies de la communication, versão revisada que terá adotado, depois do Maio do 68, um enfoque mais marxista e revolucionário.

Em 1962 teve como aluno a Guy Hocquenghem, que se tornou mais tarde o seu colega na universidade, colaborando com ele na redação de várias obras. René Schérer participa mais tarde no Front Homosexuel d'Action Révolutionnaire (FHAR), do qual Guy Hocquenghem é outra das figuras.

Os seus primeiros trabalhos exprimem um conhecimento da filosofia alemã e de pensadores como Edmund Husserl, Emmanuel Kant, G. W. F. Hegel e Max Stirner, e têm nomeadamente como objeto a fenomenologia de Husserl ou de Heidegger.

A publicação em 1967 da obra Le nouveau monde amoureux, texto inédito até então de Charles Fourier, no qual esse último defende a livre expressão dos desejos de todos, constitui uma etapa fundamental no itinerário intelectual de René Schérer, que dedica a seguir vários estudos a Fourier. Em Charles Fourier ou la Contestation globale, Schérer considera que o pensamento utópico de Fourier não depende do ”irrealizável” mas do “ainda não realizado”. O pensamento de Fourier é o ponto de partida, para René Schérer, de uma série de estudos sobre os assuntos da utopia e a infância, nos quais defende a ideia de uma “utopia da compenetração, isto é a criação de uma sociedade na qual a expressão e a satisfação das atrações mais diversas e singulares se realizaria num clima de aprovação e de felicidade mútua”.

No contexto posterior ao Maio do 68, René Schérer dá aulas nomeadamente na Universidade de Vincennes, da qual é uma das suas figuras mais importantes, junto com Gilles Deleuze, Michel Foucault, Félix Guattari, François Châtelet ou Georges Lapassade.

Entre os assuntos tratados por René Schérer figura o da hospitalidade, que ele concebe não só como uma ética, mas como “um modo de ser que assenta numa erótica”. Para ele, a hospitalidade é uma prática que se opõe à razão de Estado e à lógica de Nação e que transgride as diferenças de classe, de idade, de raça e de sexo. A hospitalidade é concebida por ele como “erótica e subversiva”.

Sobre a infância, René Schérer desenvolve um pensamento na linha do conceito de “tornar-se criança” de Gilles Deleuze: a criança e o adulto enriquecem-se mutuamente numa “compenetração” que constitui uma alternativa à educação herdada de Rousseau, na qual a criança seria formadora do adulto tanto como adulto é formador da criança. Os trabalhos de René Schérer têm também como objeto, mas de maneira mais adicional, a homossexualidade, que ele concebe ante todo, com uma proximidade teórica a Gilles Deleuze e Guy Hocquenghem, como uma prática subversiva, num quadro revolucionário.

Em 1974, Schérer publica o ensaio Émile perverti, ou Des rapports entre l’éducation et la sexualité (título que faz referência ao Emílio, ou Da Educação, de Jean-Jacques Rousseau), onde se distancia da tradição pedagógica, denuncia a “ação infantilizadora” da escola.

Em 1976 dirige com Guy Hocquenghem o número 22 da revista Recherches, titulado Co-ire: album systématique de l’enfance, que se inspira parcialmente nos seus seminários de Vincennes dedicados à infància. A obra recebe comentários elogiosos de Michel Foucault e François Châtelet. Pelo seu lado, o filósofo Roger-Pol Droit considera que essa publicação marca o apogeu do discurso liberalizador sobre a sexualidade infantil e a pedofilia dos anos 70.

Em 1978, Schérer é um dos signatários, junto com inúmeros intelectuais, de uma petição ao Parlamento francês que pede a liberação de pessoas detidas por manterem relacionamentos amorosos com menores de idade e uma revisão do Código penal que reconheça aos menores de 15 anos (idade de consentimento na França) a capacidade para consentir relações sexuais.

Em 1982, René Schérer e Gabriel Matzneff, testemunhas da defesa no processo contra Jacques Dugué, são incriminados no 'caso do Coral'. René Schérer é indiciado sob acusações de corrução de menores,

A realizadora Franssou Prenant dedicou-lhe em 2007 um filme documentário, Le Jeu de l'oie du Professeur Poilibus.

Husserl, sa vie, son oeuvre (com Arion Lothar Kelkel), Paris: PUF, col. «Philosophes», 1964.

Structure et fondement de la communication humaine, Paris: SEDES, 1966.

La Phénoménologie des « Recherches logiques » de Husserl, Paris: PUF, 1967.

Charles Fourier ou la Contestation globale, Paris: Seghers, 1970. Reedição Séguier, 1996.

Philosophies de la communication, S.E.E.S., 1971.

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