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Rebelião Taiping

Rebelião chinesa contra a dinastia Qing (1850–1864)

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A Rebelião Taiping, também conhecida como Guerra Civil Taiping ou Revolução Taiping, foi uma grande rebelião e guerra civil ocorrida na China entre a dinastia Qing, liderada pelos manchus, e o Reino Celestial Taiping, liderado por um subgrupo da etnia han, os hakka. Durou de 1850 a 1864, embora, após a queda de Tianjing (atual Nanquim), o último exército rebelde só tenha sido derrotado em agosto de 1871. Após travar a guerra civil mais sangrenta da história mundial, com mais de 20 milhões de mortos, o governo Qing venceu decisivamente, à custa de um grande desgaste para sua estrutura fiscal e política.

A revolta foi comandada por Hong Xiuquan, da etnia hakka, que se proclamava irmão de Jesus Cristo, junto a outros líderes que eram vistos como "xamãs" ou "médiuns" (wu, em chinês), supostamente recebendo comunicações de divindades cristãs em estado de possessão. Seus objetivos eram religiosos, nacionalistas e políticos; Hong buscou converter o povo han à versão sincrética do cristianismo Taiping, para derrubar a dinastia Qing e transformar o Estado. Em vez de derrubar a classe dominante, os Taiping visavam subverter a ordem moral e social da China. Estabeleceram o Reino Celestial como um Estado rival sediado em Tianjing e controlaram uma parte significativa do sul da China, chegando a governar uma população de quase 30 milhões de pessoas.

Por mais de uma década, os exércitos Taiping atuaram e combateram em grande parte do vale médio e inferior do Yangtzé, configurando uma guerra civil total. Foi a maior guerra na China desde a transição Ming–Qing, envolvendo a maior parte do centro e do sul do país. Classifica-se como uma das guerras mais sangrentas da história da humanidade, a guerra civil mais letal e o maior conflito do século XIX. Em termos de mortes, a guerra civil é comparável à Primeira Guerra Mundial. Atingiu mais de 16 províncias, destruiu cerca de 600 cidades e, além das mortes diretas, causou fomes. Trinta milhões de pessoas fugiram das regiões conquistadas para concessões estrangeiras ou outras partes do país. A guerra foi caracterizada por extrema brutalidade de ambos os lados. Os soldados Taiping realizaram massacres generalizados de manchus, a minoria étnica da casa imperial governante de Aisin Gioro. Enquanto isso, o governo Qing também se envolveu em massacres, principalmente contra a população civil da capital Taiping, Tianjing.

Severamente enfraquecidos por conflitos internos, uma tentativa de golpe e o fracasso do cerco de Pequim, os Taiping foram derrotados por exércitos provinciais descentralizados, como o Exército de Xiang, organizado e comandado por Zeng Guofan. Depois de descer o rio Yangtzé e recapturar a cidade estratégica de Anqing, as forças de Zeng sitiaram Tianjing em maio de 1862. Após mais de dois anos, em 1º de junho de 1864, Hong Xiuquan morreu, e Tianjing caiu apenas um mês depois. A guerra civil de 14 anos, combinada com outras guerras internas e externas, enfraqueceu a dinastia, mas estimulou um período inicial de reforma e autofortalecimento. O conflito exacerbou a consciência étnica e acelerou a ascensão do poder provincial. Historiadores debatem se esses desenvolvimentos prenunciavam a Era dos Senhores da Guerra, marcada pela perda do controle central após o estabelecimento da República da China em 1912.

Os termos usados pelos autores para o conflito e seus participantes geralmente refletem seus diferentes pontos de vista. Durante o século XIX, os Qing não descreveram o conflito como uma guerra civil ou um movimento, pois isso daria credibilidade aos Taiping. Em vez disso, referiram-se à tumultuada guerra civil como um período de caos (亂), rebelião (逆) ou ascensão militar (軍興). Frequentemente, chamavam-na de Rebelião Hong–Yang (洪楊之亂), em referência aos dois líderes mais proeminentes, Hong Xiuquan e Yang Xiuqing. Também foi referida vulgarmente como a Rebelião da Ovelha Vermelha (紅羊之亂), porque "Hong–Yang" soa como "ovelha vermelha" em chinês.

Na China moderna, a guerra é muitas vezes referida como o Movimento do Reino Celestial Taiping (chinês tradicional: 太平天國運動, chinês simplificado: 太平天国运动, pinyin: Tàipíng tiānguó yùndòng), porque os Taiping defendiam uma doutrina que era nacionalista e comunista, representando uma ideologia popular baseada no nacionalismo han ou em valores protocomunistas. O estudioso Jian Youwen é um dos que se referem à rebelião como o "Movimento Revolucionário Taiping", alegando que ela visava uma mudança completa no sistema político e social, e não apenas a substituição de uma dinastia por outra.

Muitos historiadores ocidentais referem-se ao conflito em geral como a "Rebelião Taiping". Recentemente, no entanto, estudiosos como Tobie Meyer-Fong e Stephen Platt argumentaram que o termo "Rebelião Taiping" é tendencioso, pois insinua que o governo Qing era legítimo, enquanto os rebeldes Taiping ilegítimos. Em vez disso, eles argumentam que o conflito deve ser chamado de "guerra civil". Outros historiadores como Jürgen Osterhammel chamam o conflito de "Revolução Taiping" devido aos objetivos de transformação radical dos rebeldes e da revolução social que desencadearam.

Pouco se sabe sobre como os Taiping se referiam à guerra, mas eles frequentemente chamavam os Qing em geral, e os manchus em particular, "demônios" ou "monstros" (妖), representando a proclamação de Hong de que eles estavam lutando uma guerra santa para livrar o mundo dos demônios e estabelecer o paraíso na Terra. Os Qing se referiam aos Taiping como "bandidos de Yue" (粵匪 ou 粵賊) em fontes oficiais, uma referência às suas origens na província de Cantão, no sudeste.

Mais coloquialmente, os chineses chamavam os Taiping de variantes de "cabelos compridos" (長毛鬼, 長髪鬼, 髪逆, 髪賊), pois eles não raspavam as testas nem trançavam os cabelos, como os súditos Qing eram obrigados a fazer, deixando o cabelo crescer. No século XIX, observadores ocidentais, dependendo de sua ideologia, referiam-se aos Taiping como os "revolucionários", "insurgentes" ou "rebeldes". O Reino Celestial Taiping foi muitas vezes abreviado para simplesmente "os Taiping" por estudiosos ocidentais, mas nunca foi um termo usado pelos Taiping ou por seus inimigos para se referir a eles.

Durante o século XIX, a dinastia Qing enfrentou uma série de fomes, desastres naturais, problemas econômicos e derrotas diante de potências estrangeiras. Os agricultores estavam sobrecarregados de impostos, os aluguéis aumentaram dramaticamente e os camponeses começaram a abandonar em massa suas terras. Os militares Qing sofreram recentemente uma derrota desastrosa na Primeira Guerra do Ópio, enquanto a economia chinesa foi severamente impactada por um desequilíbrio comercial causado pela importação ilícita e em larga escala de ópio. O banditismo tornou-se comum, e numerosas sociedades secretas e unidades de autodefesa formaram-se, o que levou a um aumento dos conflitos localizados.

Enquanto isso, a população da China aumentou rapidamente, quase dobrando entre 1766 e 1833, enquanto a quantidade de terra cultivada permanecia estável. O governo, comandado por manchus étnicos, tornou-se cada vez mais corrupto. Era fraco nas regiões do sul, onde os clãs locais dominavam. Os sentimentos antimanchu eram mais fortes no sul da China, entre a comunidade hakka, um subgrupo chinês han. Enquanto isso, missionários cristãos estavam ativos.

Em 1837, Hong Huoxiu tentou e falhou nos exames imperiais pela terceira vez, o que o levou a um colapso nervoso. Ele delirou por dias, a ponto de sua família temer pela sua vida. Enquanto convalescia, Hong sonhou que visitava o Céu, onde descobriu que possuía uma família celestial distinta da sua família terrena, composta por um pai celestial, mãe, irmão mais velho, cunhada, esposa e filho. Seu pai celestial, vestido com uma túnica de dragão negra e chapéu de abas altas, e uma longa barba dourada, lamentou que os homens adorassem demônios em vez dele, e presenteou Hong com uma espada e um selo dourado para matar os demônios que infestavam o Céu. Além disso, contou com a ajuda de seu irmão mais velho celeste e de um exército celestial. A figura paterna informou posteriormente a Hong que seu nome violava tabus e deveria ser mudado, sugerindo como uma opção o nome "Hong Xiuquan", que foi adotado por ele. Em 1843, depois de ler cuidadosamente um panfleto que recebera de um missionário cristão protestante vários anos antes, Hong declarou que agora entendia que sua visão significava que ele era o irmão mais novo de Jesus e que ele havia sido enviado para livrar a China dos "demônios", incluindo o corrupto governo Qing e os ensinamentos confucionistas. Em 1847, Hong foi para a cidade de Cantão, onde estudou a Bíblia com Issachar Jacox Roberts, um missionário batista americano. Roberts recusou-se a batizá-lo e mais tarde afirmou que os seguidores de Hong estavam "dispostos a fazer com que suas pretensões religiosas absurdas servissem a seus propósitos políticos".

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