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Rachel de Queiroz

Escritora e jornalista brasileira

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Rachel de Queiroz GOMM • GOIH (Fortaleza, 17 de novembro de 1910 – Rio de Janeiro, 4 de novembro de 2003) foi uma escritora, jornalista, tradutora, cronista e dramaturga brasileira. É considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século XX, tendo sido uma figura pioneira no cenário literário nacional, sobretudo, na produção intelectual e criativa feminina. A escritora foi uma das primeiras cronistas mulheres do país. Autora de destaque na ficção social nordestina, foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras em 1977, também a primeira mulher galardoada com o Prêmio Camões. Ingressou na Academia Cearense de Letras no dia 15 de agosto de 1994, na ocasião do centenário da instituição.

A escritora também ficou conhecida por sua postura aguerrida e por seus posicionamentos políticos contraditórios ao longo dos anos. Na década de 30, integrou o Partido Comunista do Brasil, no qual permaneceu por pouco tempo ao constatar que sua liberdade como escritora estava ameaçada pela ideologia partidária. Em 1935, em meio à repressão do governo de Getúlio Vargas ficou detida por três meses e dois anos depois teve livros queimados em praça pública com a decretação do Estado Novo em 10 de novembro de 1937, juntamente com exemplares de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, acusados de subversão.

Na década de 60, volta ao cenário político brasileiro, participando do golpe contra o então presidente João Goulart. Fez parte do diretório da Arena (Aliança Renovadora Nacional), foi delegada do Brasil na ONU em 1966 e integrou o Conselho Federal de Cultura, desde a sua fundação, em 1967, até sua extinção, em 1989. O presidente Jânio Quadros chegou a convidá-la para ser ministra da Educação, ao que respondeu: “Presidente, colaboro no que for preciso, mas sem cargo oficial. Não posso pôr em risco minha independência intelectual, nem nasci para viver em cortes palacianas”.

Suas obras mais conhecidas são O Quinze, marco do movimento regionalista e modernista da década de 30, As Três Marias, obra mais lírica da sua primeira fase literária e Memorial de Maria Moura, seu último romance, um épico sertanejo publicado aos 82 anos de idade.

Ao longo de mais de 70 anos de carreira, Rachel publicou mais de duas mil crônicas, peças de teatro, livros infantis, contos, memórias e um livro de poesia inédita, publicado postumamente. Foi colaboradora regular em inúmeros jornais e periódicos, como Diário de Notícias, O Jornal, Última Hora, Jornal do Comércio, O Estado de S. Paulo e a revista O Cruzeiro.

Rachel era filha de Daniel de Queiroz Lima e Clotilde Franklin de Queiroz, descendente pelo lado materno da família de José de Alencar. Nascida e criada em um ambiente intelectual, tornou-se íntima da literatura desde cedo lendo obras de Júlio Verne, Machado de Assis, Eça de Queiroz, além do próprio parente, Alencar.

Em 1915, após uma grande seca, a qual inspiraria a escrita de seu primeiro livro, muda-se com seus pais para o Rio de Janeiro e logo depois para Belém do Pará. Retornou para Fortaleza dois anos depois, onde matriculou-se no Colégio da Imaculada Conceição, onde fez o curso normal, diplomando-se em 1925, aos 15 anos de idade.

Sob o pseudônimo Rita de Queluz

Em 1927, após ler a notícia a respeito de um concurso promovido pelo jornal O Ceará, no qual a jornalista Suzana de Alencar Guimarães era promovida ao posto de "Rainha dos Estudantes", Rachel resolve escrever uma carta ao referido jornal sob o pseudônimo "Rita de Queluz", ridicularizando o concurso e sua eventual vencedora, que utilizando de um estilo pseudolírico, assinava suas crônicas como A Marquesa.

A carta fez um enorme sucesso na cidade, onde despertou no público em geral a curiosidade sobre quem a teria escrito. Rachel é descoberta pelo carimbo, sobre o selo da carta, da Estação Ferroviária de Junco (hoje, estação Daniel de Queiroz), localizada nas terras de sua família. O fato resultou em um convite por parte do diretor do jornal, Júlio Ibiapina, para que a jovem Rachel colaborasse com a publicação. Curiosamente, em 1930, enquanto lecionava no colégio Imaculada Conceição, acabou vencendo o mesmo concurso, escrevendo crônicas e poemas de caráter modernista sob o mesmo pseudônimo de Rita de Queluz. Ainda neste ano, lança o folhetim História de um Nome, seguido por uma pequena peça de teatro intitulada Minha prima Nazaré. Também começa a colaborar em jornais literários, além de se arriscar a escrever algumas poesias, as quais apenas seriam lançadas postumamente.

Aos dezenove anos, após contrair uma congestão pulmonar e, com suspeita de tuberculose, foi obrigada a ficar em repouso. Nesse período escreve seu primeiro romance O Quinze (1930), obra que retrata a luta do povo nordestino contra a seca e a miséria. O romance foi escrito às escondidas durante a noite, depois que seus pais iam dormir. Demonstrando preocupação com questões sociais e hábil na análise psicológica de seus personagens, destaca‐se no desenvolvimento do romance regionalista.

O livro causou grande impacto no meio literário brasileiro e tornou o nome de Rachel reconhecido nacionalmente. Personalidades literárias como Augusto Frederico Schmidt, Alceu Amoroso Lima, Artur Mota e Graça Aranha saudaram com entusiasmo sua estreia literária. Em março de 1931, o livro foi contemplado com o Prêmio Graça Aranha na categoria romance.

Vale ressaltar que, nos primeiros meses após a publicação de "O Quinze", a autenticidade sobre sua autoria chegou a ser questionada, pois, nas palavras de Augusto Schmidt, na obra não havia “nada que lembre, nem de longe, o pernosticismo, a futilidade, a falsidade de nossa literatura feminina”. A suspeita também foi compartilhada pelo escritor alagoano Graciliano Ramos que em 1937 escreve:

O quinze caiu de repente ali por meados de 30 e fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que realmente causava assombro, de mulher nova. Seria realmente de mulher? Não acreditei. Lido o volume e visto o retrato no jornal, balancei a cabeça: Não há ninguém com este nome. É pilhéria. Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado.

Ao lado de "A Bagaceira", de José Américo de Almeida, "O Quinze" seria marco na evolução do novo romance nordestino. É "O Quinze" quem inaugura as qualidades de economia e vivacidade da prosa que caracterizaria o romance regionalista dos anos 30 e 40.

Dois anos após o lançamento de seu romance de estreia, Rachel já tinha escrito um novo livro, o qual intitularia de João Miguel, nome dado ao personagem principal, um trabalhador da classe rural que tira a vida de um companheiro após embriagar-se durante uma festa. O enredo do livro trata de sua vida na prisão, a traição de sua companheira com o soldado que guardava o presídio local e sua rotina angustiada de isolamento, inação e solidão.

Conforme as regras estabelecidas pelo Partido Comunista do qual Rachel passara a integrar, a escritora submete os originais deste segundo romance à análise partidária. Em sessão especial para discussão da obra, o Partido decidiu negar-lhe o imprimatur, solicitando alterações na trama e na caracterização dos personagens submetendo-os a fins ideológicos. Insatisfeita com as exigências do Partido, Rachel decide romper ligações com os mesmos. João Miguel é publicado em sua forma original, sem cortes nem alterações, em 1932, pela Editora Schmidt.

Em João Miguel, o personagem título, um trabalhador da classe rural, tira a vida de um companheiro após embriagar-se em uma festa. O enredo do livro trata de sua vida na prisão, a traição de sua companheira com o soldado que guardava o presídio local e sua rotina angustiada de isolamento, inação e solidão. Segundo a escritora e estudiosa da obra queirosiana Heloisa Teixeira (Buarque de Hollanda), "Os traços principais de O quinze desdobram-se em João Miguel. O trabalho com anti-heróis, a consciência do quadro social nordestino, o exímio desenho de tipos regionais, o amor fracassado, o final em aberto...". A autora destaca também a estilo empregado por Rachel no romance, afirmando que "a linguagem visceralmente econômica, recusando adjetivos, sublinha a secura da vida e do destino de seus personagens, impossibilitando qualquer sugestão idealizada destas vidas".

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